Plantar árvores nos olivais da história

opiniao-Martins-Júnior

A ponte do adeus ao Paquete de Oliveira

Faz hoje oito dias.

Não me sai da retina e da alma a quietude compulsiva de Paquete de Oliveira, fruto do sereno autodomínio que toda a vida cultivou.  Na lousa fria,  ali jazia, quase vivo, com o semblante de quem bate às portas do Sol – o Sol que lá dentro crepitava em chama e o esperava, a pedido do próprio. Era domingo, o Dia do Sol. No cemitério de Olivais-Sul, mais uma oliveira se lhe acrescentava.

A derradeira homenagem foi igual e ajustada ao homenageado. Aconchegados sob a abóbada da Estrela, os familiares, os jornalistas, os amigos. Muitos, da Madeira. Tudo sóbrio e eloquente. O tom coloquial da mensagem do Pe. Jardim Gonçalves, oficiante e conterrâneo confidente, fez daquela despedida uma mesa comum, bordada de emotivas  recordações  que a todos nos tocavam. Companheiros de ideais e caminheiros das mesmas pisadas e das mesmas lutas, ali nos revíamos nas palavras dessoutro combatente, o professor e arquitecto Simões.

Rangeram de comoção as pedras do altar quando dois jovens – os filhos – subiram à tribuna sacra para  dar voz à mensagem que o pai lhes deixara escrita. A altitude e a profundidade de uma vida, de todas as vidas!

Dei  então com os olhos no João da Cruz Nunes. E tanto bastou para voltar (quem será capaz de esquecer?) àquela manhã do “verão quente”  na ilha, quando o Senhor Oliveira, pai do José Manuel, deparámo-nos, ele e eu, com a destruição da sala da casa da Rua do Pombal:  um forte explosivo  acabara de rebentar na residência onde viviam quatro ilustres sacerdotes – “os Padres do Pombal” –  em fraterna comunidade…”Era também para atingir o meu filho” – disse, inconformado, ansioso, o pai de Paquete de Oliveira. E disse mais!

Após as exéquias,  o “Desfado”  de Ana Moura  envolveu as naves do templo e transportou-nos ao grande círculo da Vida, onde alegrias e tristezas, encontros e despedidas misteriosamente confluem.

Mas o “tom maior” que sempre acompanhou o percurso de Paquete de Oliveira irrompeu (mágica surpresa)  da “Marcha Nupcial”, testamento triunfal de gratidão à esposa e aos dois filhos ali presentes. Enfim, para todos nós, os majestosos acordes de Félix Mendelssohn configuravam ali o conúbio interminável do Homem com a História.

Porque não sou  pelas solenes orações fúnebres, muito menos pelos panegíricos altissonantes em cima da urna de quem parte – é em plena acção existencial que se deve homenagear e apoiar quem o merece – por isso mesmo, senti mais profundamente a presença inapagável do José Manuel. Além da saudade, o  maior tributo que se lhe presta é  que, em seu lugar, plantemos  outras tantas oliveiras e nunca se deixe deserta a terra que ele tornou fértil.

A apoteose de uma vida não se afere pelo que  se leva ou pelo que de definitivo se deixa. É, sem dúvida,  pelo que alguém, mais tarde, possa acrescentar  aos alicerces inacabados que  nós, arquitectos de passagem, erguemos nos subterrâneos sem  epitáfio e sem data!

É o que faremos das cinzas luminosas de Paquete de Oliveira!


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