Os homens também choram e as mulheres também usam gravatas!

Adelaide Ribeiro
Investigadora do CIE-UMa e Membro da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação

Naquele dia, a Educadora de Infância decidiu levar para o “baú das trapalhadas” três gravatas: uma mais indiscreta (com bolas vermelhas e brancas)  e duas com padrões mais convencionais. Colocou-as bem ao alcance do campo visual das crianças que compunham a sala (com idades compreendidas entre os 3 e os 5 anos de idade) e não disse absolutamente nada.

Rapidamente os rapazes da sala se apropriaram das gravatas, com a mesma naturalidade com que as raparigas se apropriavam das carteiras e dos telemóveis. O que se seguiu a seguir foi a reprodução dos comportamentos que o uso da gravata sugeria a cada um deles, de acordo com as suas vivências e experiências (família, televisão, entre outras).

De gravata ao peito, o Valentim (nome fictício) lá ia dando ordens aos seus “empregados” e exigia, num tom um pouco agressivo, que as suas ordens fossem cumpridas: “quero o carro pronto, estou com pressa”; “eu já disse que não está certo”; “estou cansado, vou para casa”; entre outras. E assim se foram sucedendo as expressões de um suposto “empresário”, ao mesmo tempo que o João (nome fictício) aproveitou o uso da gravata para casar com a sua amada.

Só restava uma gravata no baú das trapalhadas e a “ordem natural das coisas” manteve-se até chegar a menina mais nova da sala (3 anos, acabadinhos de fazer).  Madalena (nome fictício) rapidamente se apoderou da última gravata que restava no baú: a gravata das bolinhas vermelhas e brancas! E as expressões reprovadoras dos colegas depressa se fizeram sentir: “as meninas não usam gravata”, dizia o “empresário” de serviço. Mas a Madalena, com o seu ar atrevido, não lhes deu importância. A Educadora permaneceu ausente da discussão até ao momento em que um dos rapazes do grupo, que também queria ser “chefe” (termo dele), tentou tirar a gravata à Madalena. Mas esta, irreverente e teimosa, a tentar segurar a sua gravata, empurrou o amigo que, zangado, desatou a chorar. Eis que se ouve, então, a célebre frase: “os homens não choram!

Não vou contar a revolução que aconteceu naquela sala a partir daqui, pois as crianças (e os adultos também…) transportam para o jardim-de-infância e para a escola as suas vivências marcadas, inevitavelmente, pelos estereótipos da vida social, umas mais, outras menos, de acordo com os contextos específicos onde ocorre a sua socialização.

Serve este pequeno relato para vos falar do currículo oculto da (des)igualdade. Um currículo que não se ensina deliberadamente, mas que vai estruturando e definindo o modo como nos representámos e a forma como construímos os papéis de homens e de mulheres, sem que nos apercebamos disso. Um currículo subliminar que empurra os homens para lugares de liderança e lhes retira espaço para as emoções (“os homens não choram”); que confere às mulheres a primazia do mundo dos afetos (ex: na relação com os filhos) e as empurra para lugares de subordinação nos vários contextos da vida social (familiar, empresarial, político); um currículo que não se limita a ditar os papéis sociais, mas que mostra às pessoas, através de mecanismos disfarçados de recompensa (afetiva, moral, social), a importância da assunção desses papéis.

Por este facto, mais importante do que uma mudança (ou imposição) de uma determinada “terminologia de género”, ainda que isso seja importante, é, na minha perspetiva, a desconstrução dos estereótipos que moldam e definem a forma como nos representamos ou, por outras palavras, a forma como aprendemos a ser homens e mulheres. E esta desconstrução, deve ser feita em vários contextos: na família, na escola e nos media (com particular destaque para a programação infanto-juvenil e publicidade). Porque a igualdade não se ensina. Promove-se, fomenta-se, potencia-se, vive-se, cultiva-se.

E cabe, também, à escola desocultar os estereótipos que, explícita ou implicitamente, potenciam desigualdade, discriminação e injustiça.

Para que todos os homens tenham direito a chorar e todas as mulheres tenham direito a usar gravatas, sem olhares e comentários reprovadores!