Secretário quer resolver “herança pesada” da Ortopedia contratando médicos de fora

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Fotos Rui Marote

João Faria Nunes está há pouco mais de 8 meses como secretário regional da Saúde, um setor sempre marcado pela polémica. O secretário minimiza as eventuais contendas e demissões e deixa claro que só ele manda na saúde e assume as responsabilidades de tudo o que venha a acontecer. Em entrevista ao FN, fala do problema que representa o Serviço de Ortopedia do Hospital  mas anuncia que está em negociações para recrutar médicos de fora.

No fim da passada quarta feira, João Faria Nunes terminou a reunião do conselho de governo e marcou entrevista com o Funchal Notícias, numa esplanada da cidade. Apesar do sorriso, é notório o cansaço do fim do dia. De vez em quando, puxa do cigarro, e com o vagar que lhe é característico, responde às questões sem grande palavreado, fazendo sobressair o estilo conciso e direto. A vida do médico especialista em urologia mudou no verão quente do ano passado, quando o então secretário da saúde, Manuel Brito, se demite e faz entrar em cena o também médico e grande amigo do presidente do Governo Regional. Entregaram-lhe nas mãos a área mais delicada do governo e Faria Nunes garante que está de pedra e cal nesta pasta e tudo fará para ganhar a confiança dos utentes.

Funchal Notícias – Como é que um médico salta para a política?

João Faria Nunes – Um médico saltar na política não é nada inédito neste país nem no mundo. Eu “entrei” para a política por uma questão de amizade pessoal e admiração pelo presidente do Governo Regional, então presidente da Câmara Municipal do Funchal. Éramos vizinhos e amigos desde a infância. Em 2012, quando  o Dr Miguel Albuquerque resolveu avançar para  a liderança do partido, decidi apoiá-lo não só pela amizade mas pelas suas ideias, princípios e causas, nas quais eu me revejo a 100%. Foi dar uma ajuda a uma pessoa que merecia estar onde está. E a partir daí foi “a bola de neve” que já é conhecida.

“Nunca fui uma segunda escolha”

FN – Nessa “bola de neve” que refere, eis que surge como uma segunda escolha par secretário regional da Saúde.

DN –  Isso é uma afirmação sua. Há muita coisa que nem quando escrever as minhas memória direi,  se é que algum dia as escreverei.  Nunca fui uma segunda escolha. Quando o presidente precisou de mim, fui a primeira escolha. Aceitei o que me foi pedido com muita honra, muita paixão e  muito trabalho. Com um grande defeito: um pouco de obsessão pelo trabalho onde estou. Não é uma queixa, mas é o que acontece a todas as pessoas com o mínimo de responsabilidade face a um setor tão sensível como é a saúde, a a nível global. É o mais bem precioso que temos.

FN – Desculpe a pergunta, mas quem é o seu médico?

JFP – Infelizmente já tive problemas de saúde. O último médico que me tratou foi uma equipa, composta pelos Drs Ricardo Pestana, Gil Bebiano e Eugénio Mendonça. Não é segredo profissional. Fui operado a duas hérnias discais e fui muito bem tratado.

FN – Já foi atendido no hospital após exercer as funções de secretário?

JFN – Não!

FN – Tem receio de ser atendido no hospital agora, após as acesas polémicas que ciclicamente surgem no setor?

JFN – Muito pelo contrário, sinto-me mais confortável. Já fui atendido em hospitais fora da Região. Identifiquei-me como médico porque é obrigatório. Apesar disso,  não fui tão acarinhado como aqui na Região.

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FN – O que lhe custa agora mais: ir ao Parlamento madeirense esclarecer a oposição ou fazer uma cirurgia complexa?

JFN – Uma cirurgia complexa. Quanto temos uma vida na mão, é algo de muito sério.. Qualquer cirurgia, complexa ou não, é sempre mais stressante.

FN – Um dos grandes objetivos do atual presidente do GR, quando tomou posse, foi, segundo o próprio afirmou, pacificar os ânimos no hospital, após a gestão polémica anterior do SESARAM.

JFN – Nunca ouvi o presidente do GR dizer isso.

FN – Disse-o e repetiu-o, mas, pelos acontecimentos a que se tem assistido também durante o seu mandato, parece ser um objetivo difícil de concretizar.

JFN – Mas os ânimos, neste momento, estão perfeitamente serenados. Após a minha entrada, e já com o meu antecessor, os ânimos estavam pacificados.

FN – Essa afirmação não se compagina com a realidade, sobretudo se tivermos em conta as recentes situações vindas a público de abandono de médicos experientes que trocam o hospital pela privada, em desacordo também com a atual linha de orientação do hospital.

JFN – Durante a minha entrada, saiu a Dra Filomena Gonçalves, por opção própria, e o Dr Manuel Ramos. Os outros médicos que saíram  foram antes da minha tomada de posse.

FN – Ainda assim saíram e temos ainda a carta viral do médico Rui Duarte a criticar a desmotivação dos profissionais como ele que se veem forçados a trabalhar no hospital sem condições nem incentivos.

 

JFN – Penso que essa carta tem que ser bem lida. Dou o exemplo do livro Gabriela Cravo e Canela, um romance que se passa numa aldeia pequena, isolada, do Brasil, mas, se virmos bem, é um romance universal. A carta do meu colega é escrita e passa-se na Madeira, não é uma aldeia, mas é acima de tudo um desabafo a todo o sistema de saúde em Portugal. Basta lê-la bem e saber tirar as devidas ilações.

FN – Essa carta está claramente direcionada. O médico aponta críticas concretas, por exemplo, a uma escala de serviço onde trabalha que é no Hospital Dr. Nélio Mendonça.

JFN – É evidente!

FN – Diz-se desmotivado…

JFN – Estive com ele nos Açores e não o achei desmotivado. Até tirei uma foto com ele e o secretário regional dos Açores. Os problemas que ele menciona nessa carta são problemas globais da saúde no sul da Europa. Como sabe, os jovens médicos estão a emigrar porque são muito mais bem pagos do que em Portugal, Espanha ou Itália.

FN – Mas o próprio Bastonário da Ordem dos Médicos veio a público fazer duras críticas à saúde na Região, nomeadamente às escalas de serviço na ortopedia e os seus critérios. Estão todos a fazer, então, um diagnóstico errado?

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JFN – Respondo-lhe pedindo que veja a entrevista que o Dr Anacleto já deu a um órgão de imprensa da Região. Ele e outros médicos serão recebidos na próxima semana pelo Bastonário, em Lisboa. O que foi dito pelo senhor Bastonário não corresponde à verdade. Um esboço de uma escala não é uma escala. Não me vou meter mais nisso porque o assunto está já a ser tratado.

FN – Conclusão, senhor secretário, está tudo bem no hospital?

JFN – Tudo bem em Portugal, Espanha ou em qualquer parte. É evidente que, em saúde, queremos sempre mais. O que mede a saúde de um país é a taxa de mortalidade infantil e de longevidade. Se a saúde na Madeira não estivesse bem, acha que teríamos uma taxa de mortalidade infantil tão baixa e uma esperança de vida tão grande na Região? É que atingimos um bom sistema de saúde, que não existia. Não é uma pequena falha aqui ou acolá que anula esta realidade estrutural e progressiva.

Ortopedia: “Uma dívida que herdei”

FN – Falemos então do Serviço da Ortopedia, dia sim dia não com problemas. Qualquer dia fecha a Ortopedia?

JFN – Não fecha. Eu faço aqui uma pequena homenagem aos médicos que estão lá todos a trabalhar e que o fazem com alma e coração e nada vai faltar aos madeirenses. Neste momento, está a ser tratada pela Secretaria a vinda de médicos ortopedistas para a Madeira. Como sabe, há falta de médicos em Portugal e há mesmo especialidades críticas em matéria de quadros. Neste momento, é um assunto que está a ser tratado a nível oficial mas, como é evidente, não se criam médicos de um momento para outro nem se fazem acordos imediatos.

FN – Mas vamos ao âmago da questão: nos últimos anos, este Serviço em particular é só polémica, debandada de médicos…

JFN – O problema da Ortopedia acha que começou agora? Persiste. Estou a tentar trazer médicos para cá. O meu mandato começou há pouco tempo. Ninguém faz milagres e em medicina não há soluções imediatas, todas a médio prazo. Não estou preocupado já com amanhã mas em deixar até ao fim do mandato esta situação resolvida. Isto é uma herança e não é nada criado por mim nem pela minha equipa. Quando herdamos, podemos herdar bens materiais ou dívidas. Isto é uma dívida que eu herdei e que vou resolvê-la.

FN – Sente que tem os médicos e o pessoal em geral do seu lado?

JFN – Eu não vim para secretário para ter o pessoal do meu lado. Quem tem que estar do meu lado são os utentes. Mas, por outro lado, por coincidência ou não, desde assistentes operacionais a diretores de serviço, sinto-os do meu lado. Há uma ou duas exceções mas se assim não fosse é que estaria admirado.

FN – Acha que o problema da Ortopedia, como a tutela costuma por vezes dizer, é um problema empolado pelo médico ortopedista e deputado Mário Pereira ou não será mais estrutural?

JFN – O problema da Ortopedia já começou antes do médico Mário Pereira ser deputado.

FN – Mas este médico e deputado do CDS é uma “pedra no seu sapato”?

JFN – Não tenho “pedras nos sapatos”, nem do Dr. Mário Pereira nem de ninguém. Cada um é livre de ter as suas opiniões.

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“Aqui não há estrelas”

FN – Será que os problemas na Ortopedia também não resultaram das muitas benesses dadas ab initio a estes profissionais?

JFN – Que eu saiba não! Enquanto eu for secretário, todos os médicos serão tratados interpares. Aqui não há estrelas nem nenhum vai ter mais regalias que os outro. São todos iguais. Em relação à Ortopedia estamos em negociações para contratar médicos do exterior.

FN – Quais os aliciantes que lhes dará para os fixar ao SESARAM?
JFN – Não vão ter mais do que os médicos que estão cá.

FN – Então vamos repetir o cenário de ver médicos a bater com a porta…

JFN – Não é uma questão de bater com a porta ou não mas de justiça. Todos os médicos são iguais, não há médicos de primeira e médicos de segunda.

FN – Outro ponto de discórdia, segundo se comenta, prende-se com a gestão hospitalar. Há algum conflito entre a parte médica e a presidente do conselho de administração do SESARAM, Dra Lígia Correia?

JFN – Não. Cada um procura desempenhar o seu papel.

FN – Mas comenta-se que há divergências decorrentes de uma gestão economicista que cai de cima para baixo.

JFN – Não há gestão economicista. Existe uma gestão que tem de aproveitar toda a capacidade instalada e fazer uma boa gestão. Não existem conflitos. No meu mandato toda a gente sabe o papel que tem. Temos o IASAUDE com o seu papel, o SESARAM também com o seu, a Direção Clínica, igualmente…  Antigamente, se calhar, não poderia haver uma divergência pública de opiniões por razões que toda a gente sabe.

“Sou eu que mando na saúde”

FN – Diz que cada um tem o seu papel. Mas vamos falar claro: quem manda na saúde, neste momento: o secretário das finanças ou o secretário da saúde?

JFN – Sou eu que mando na saúde na Região. Só eu. E responsável por tudo o que se passa, em última instância.

FN – Mas as diretrizes e restrições financeiras não entram em colação? Há uma dívida monumental na saúde…

JFN – Não há restrições financeiras. Há uma dívida que está a ser paga e que, se não me falha a memória, ronda os 300 milhões de euros.

FN – Mas com esta dívida e este aperto financeiro estrutural do país e da Região…

JFN – Mas quem é que diz que há aperto financeiro? Saímos do Plano de Assistência Económica e Financeira-PAEF. De resto, a dívida na saúde não é exclusiva da Madeira mas de todo o país. Qual o sistema de saúde que não tem dívidas?

FN – Alguma vez lhe passou pela cabeça em pedir a demissão de secretário?

JFN – O nível de responsabilidade que assumi como secretário regional da Saúde e o sentido de missão com que desempenho as minhas funções não me permitem pôr essa possibilidade em cima da mesa. Não faz parte da minha natureza abandonar o barco nos momentos mais difíceis. Como médico, nunca o fiz, também não o faria agora.

FN – Então temos um secretário firme, de pedra e cal na Saúde?

JFN – Sim, com a firmeza que o nível da responsabilidade me exige.

 

 

 

Novo plano saúde mental e oral

FN – Há um novo plano de saúde mental a ser preparado. Quais serão as suas linhas estruturantes?

JFN – Está em curso uma reorganização dos cuidados de saúde primários, com sete direções de centro, e que são a alma de qualquer sistema de saúde. Nesta reorganização, vamos contar com um novo plano de saúde mental que, neste momento, ainda está a ser feito, assim como o novo plano de saúde oral.

FN – Outro ponto polémico na saúde é que esta equipa está a gastar muito com os exames no setor privado, em contra-corrente à gestão, por exemplo, de Miguel Ferreira.

JFN – O nosso hospital, como acontece no Continente, não tem capacidade de resposta para realizar todos os exames solicitados pelos utentes e o recurso ao privado é inevitável.

FN – Consequentemente, a dívida do hospital agrava-se…

JFN – O importante é dar a resposta aos utentes no sentido de terem os seus exames a tempo e horas.

Listas de espera são dinâmicas

FN – Qual o ponto da situação das listas de espera na sequência do Programa de Recuperação de Cirurgias implementado para reduzir este problema?

JFN – Nunca se pode dar uma resposta absoluta sem chegar ao fim. As listas de espera são dinâmicas, há entradas e saídas todos os dias. Na sequência do programa implementado, estamos a recuperar as cirurgias, as coisas estão a melhorar, os resultados não são imediatos. Mais importante do que os números é o que estamos a fazer. Faço notar, no entanto, que as cirurgias a todos os doentes oncológicos e a outras doenças mais urgentes estão todas asseguradas.

FN – Se fosse confrontado com um problema de saúde urgente, entregaria a sua família aos cuidados do Hospital Dr.Nélio Mendonça?

JFN – Entregaria sem problema nenhum.

FN – Como analisa as clínicas privadas na Região, em termos de meios e de intervenção?

JFN – Não faço comentários.

FN – Deixou totalmente a medicina privada?

JFN – Como sabe, as minhas funções exigem exclusividade.

FN – Essa exclusividade compensa?

JFN – Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.