Cirurgiã mais graduada abandona o hospital e opta pela privada

hospitalÉ mais um médico a abandonar o hospital e a optar pela medicina privada. Trata-se da cirurgiã mais graduada do hospital, Filomena Gonçalves, que troca o vínculo com o setor público e ingressa na Clínica Madeira Medical Center. Uma baixa de peso num serviço com uma carga elevada de trabalho e que é trespassado por conflitos e por uma clara incompatibilidade entre alguns médicos e a hierarquia.

O objetivo de pacificar o clima no hospital, um ponto importante do programa do atual presidente do Governo Regional, no rescaldo da contestadíssima gestão de Miguel Ferreira, está longe de estar conseguido: o clima de tensão aumenta, os médicos continuam em rota de colisão com a hierarquia e a debandada para o setor privado prossegue, sobrecarregando os que ficam e aumentando os problema de gestão interna dos vários serviços, com reflexos inevitáveis para os utentes.

A médica que agora saiu, no seu habitual estilo discreto, faz absoluto silêncio. São os colegas, que tantas vezes a contactaram para pedir opiniões e orientações, já que era a sénior da casa, quem alertam o FN para mais esta baixa de monta. Segundo nos relatam, “a médica que agora sai tem sido ostracizada pela direção hospitalar por pertencer a um partido da oposição, a ponto de rescindir o vínculo público”.

Como o FN já noticiou, a mudança de diretor do serviço de cirurgia também aconteceu recentemente, com a saída do então responsável, igualmente em discordância com o diretor clínico. Fernando Jasmins foi a escolha do diretor clínico Eugénio Mendonça, mas os conflitos prosseguem.

Um problema de ontem

A tensão hospitalar na cirurgia tem causas antigas. Quando Miguiel Ferreira assumiu a direção clínica e depois a presidência do SESARAM, procedeu à fusão dos três serviços de cirurgia, tendo sido dispensados os então diretores Heliodoro Freitas, Pedro Costa Neves e Celso Almeida. Concentrado num único serviço de cirurgia, este nunca terá recuperado, segundo nos relatam alguns médicos ao serviço, da perda dos então três cirurgiões séniores, abrutamente demitidos. Os diretores subsequentes, Aires e Quintal, sem apoio dos seus pares, implementaram na cirurgia geral as medidas consideradas duras da gestão Miguel Ferreira, de 2009 a 2014. Além do descontentamento interno, a lista de espera na cirurgia disparou.

A chegada do secretário Manuel Brito acalentou a esperança numa viragem e houve quem acreditasse no retrocesso de algumas das medidas impopulares de racionalização e cortes nos cuidados. O novo diretor da cirurgia, Ricardo Santos, nomeado pelo então novo diretor clínico João Manuel Rodrigues, prometia. Mas 4 meses depois, tudo acabou com a demissão de Brito e saída da respetiva equipa.

Já na gestão do atual secretário Faria Nunes, o nomeado diretor Clínico Eugénio Mendonça não tem conseguido pacificar os ânimos nos vários serviços. Aliás, além da debandada de médicos do setor público para a privada, basta ver a carta explosiva que o médico ao serviço do hospital Dr Nélio Mendonça, Ricardo Duarte, fez publicar no jornal Expresso sobre o que é ser médico.

Neste momento, os médicos, quase todos em exclusividade no hospital, estão extenuados com os vários turnos de 24 horas semanais que são obrigados a fazer na Urgência, para não haver colapso das escalas de urgência, em especial na traumatologia, e são quem dá a cara aos doentes pelos sucessivos cortes e cancelamentos de cirurgias e tratamentos sem que sejam os responsáveis pelas diversas carências. O diretor do serviço, Ricardo Santos, demitiu-se em solidariedade como os colegas e em discordância com uma gestão que, na sua ótica, desconsidera os médicos.

Muitos médicos colocaram minutas na Administração recusando-se a fazer em 2016 mais horas extraordinárias do que aquelas que são legalmente obrigados. Terão efeitos a partir da Páscoa, segundo confirmaram.

Acresce a todo este “caldo” de polémica e descontentamento, o facto de, os últimos 3 médicos especialistas que em 2015 fizeram os exames da carreira médica para o Grau de Consultor de Cirurgia Geral no continente, terem chumbado, não pela sua capacidade técnica mas pelo seu currículo cirúrgico demonstrar uma má organização e um excesso de carências no seu Serviço, quer técnicas, com um número reduzido de cirurgias mais diferenciadas e caras, quer de organização, nomeadamente a inexistência de reuniões científicas ou de consultas personalizadas para melhor prestação de cuidados aos doentes.

Com base nisto tudo, a Ordem dos Médicos Nacional e o Ministério da Saúde retiraram em Dezembro a capacidade deste Serviço de formar médicos, o que afasta os jovens cirurgiões madeirenses para hospitais no continente.

O FN continua a aguardar pela prometida entrevista do secretário regional da Saúde, João Faria Nunes, para explicar este e outros problemas que atingem o setor. Em contactos recentemente mantidos com o diretor clínico, Eugénio Mendonça normaliza as mudanças na direção dos serviços, numa ótica de remodelação e de um novo impulso na organização, e coloca a tónica no seu discurso na falta generalizada de dinheiro do país, e sobretudo da Região, para acudir às múltiplas necessidades da saúde, em particular da Região.


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