A Proporção

Irene-Lucília--icon

A inteligência humana ao criar os conceitos de beleza tinha como propósito compreender a natureza das coisas, dar-lhes suporte e torna-las objectos perfeitos propícios ao amor. Mas a beleza é um fenómeno polémico , que não reúne consensos , se atendermos ao adágio popular “ cada cabeça cada sentença” e, popularizando ainda mais, “gostos não se discutem”. Sendo tão diversos os conceitos de beleza, como determinar um padrão para caracterizá-la ? Sócrates considerou o fenómeno ao abordar o problema da forma – função. “A coisa é bela quando serve um propósito útil e adequado”. Mas outro problema surgiu quando se pretendeu realizar a adequação : Adequar a quê, integrar como ? Surge então, por intervenção da Grande Matemática, através de Euclides, um número prodigioso que, ao ser descoberto, veio determinar uma medida padrão para a beleza. A beleza era isto: As relações de coordenação, equilíbrio e harmonia encontradas no Universo. Descobriu-se que da Terra às Galáxias tudo se geria e formava a partir de Phi (fi ), o número sagrado correspondente a 1,618. Estava encontrada a Divina Proporção.
Para quem, como eu, não domina as Matemáticas, não é fácil explicar esta Proporção que deu origem à Relação aurea e se utilizou, século após século até aos nossos dias, desde as grandes realizações artísticas, na Arquitectura, na Escultura e na Pintura onde as formas foram consideradas na sua expressão mais nobre. Mas é fácil de entender e verificar como se forma o rectângulo de ouro, nascido do cálculo da razão entre o cumprimento e a largura, sendo a largura o lado dum quadrado que se divide em duas metades. Rebatendo a diagonal de uma delas sobre a base está encontrado o comprimento do rectângulo de ouro. Este é um conhecimento básico que determinou a forma do alçado do Pártenon e se observa também na fachada de Notre Dame de Paris. Está implícito em toda a produção artística da Antiguidade desde a civilização Egípcia. No período Gótico, após a perda dos valores ancestrais, foi retomada a noção de Proporção que envolvia “o jogo claro e magnífico dos volumes sob a luz”. Tomás de Aquino relacionava-a com a Virtude e definia-a como “a coordenação das partes dum objecto entre si em proporções que traduzissem a plena expressão da sua natureza essencial”.
Os que consideram a razão áurea apenas um mito e a minimizam com base em verificações meramente históricas ou tecnicistas esquecem-se de que a mente humana traz esta razão implícita no seu registo matricial, o que faz com que, mesmo intuitivamente, ela tenha sido utilizada antes de Euclides. Os artistas e os intuitivos aplicam-na por uma tendência inata, originada num conhecimento reminiscente. Nos nossos dias, nas janelas e nas portas das casas, nas folhas de papel ( A3, A4, A5 ), no formato dos livros, nos postais e sobrescritos e em muitas outras situações se encontra esta normalização.
De tal modo o número áureo é intrínseco à nossa existência que nem o corpo humano escapa a esta determinação da Natureza. Phi encontra-se na proporção de todas as suas partes, desde a cabeça às falanges das mãos e dos pés. Ele existe igualmente na proporção das abelhas fêmeas em relação aos machos; nas sucessivas curvas da espiral dum caracol:; no número de pétalas duma flor em relação às famílias fitogénicas. À medida em que as árvores crescem a proporção dos galhos mais novos é de 1,618. Este número é uma constante em todo o Universo. Onde as estrelas se colocam à volta de um astro central descrevendo sucessivas curvas em espiral, lá está o número divino.
Voltando ao adágio inicial “cada cabeça, cada sentença”, eu diria que milhões de cabeças, impondo milhões de sentenças poderiam reverter a ordem do mundo e gerar o caos. É um risco que todos corremos e o caos já existe em muitas circunstâncias à nossa volta: No desordenamento de algumas cidades e territórios; no trânsito na hora de ponta; no excesso de decibéis das discotecas; nos efeitos da corrupção financeira em grande escala; nas mega construções desadequados dos pequenos espaços. São todos eles caos mais ou menos consequentes. Falta de coordenação, de equilíbrio, de harmonia, falta de Proporção.
É, por isso, fácil de entender porque não se pode colocar o Pártenon na Rotunda da Ajuda, nem as pirâmides do Egipto na Avenida do Infante.
A beleza existe, de facto, e não é, como às vezes poderemos pensar, um conceito aleatório.


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