Fotos: Rui Marote

Foi um acontecimento que sacudiu o mundo e que fez precipitar os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, mudando drasticamente o equilíbrio de forças e, em última análise, possibilitando a vitória dos Aliados sobre as forças do Eixo. Na manhã do dia 7 de Dezembro de 1941, há 74 anos, aeronaves de ataque do Império do Japão levantaram voo do convés dos porta-aviões que as tinham transportado através do Oceano Pacífico, e, nas ilhas Hawai, atacaram Pearl Harbour, o porto onde se encontrava estacionada grande parte da frota americana do Pacífico. Objectivo: paralisar a capacidade de intervenção militar norte-americana nas ambições expansionistas do Japão, o que de facto seria conseguido durante cerca de um ano.

O incidente chocou o incidente, não só por ter ocorrido sem uma formal declaração de guerra, mas também por ter efectivamente apanhado desprevenido aquele que era um dos mais orgulhosos países e exércitos do mundo, concorrendo para tal toda uma série de circunstâncias.
Curiosamente, o almirante Isoroku Yamamoto, o homem que arquitectou e conduziu o ataque, era contrário ao mesmo. Ficou famosa a frase que proferiu depois da boa concretização do plano: “Temo que apenas tenhamos conseguido acordar um gigante adormecido”.
Os Estados Unidos e o seu aliado, a Inglaterra, contrariavam o expansionismo japonês na China, na península coreana e em Taiwan (Formosa), além das ilhas do Pacífico. Desagradava-lhes, ainda, a assinatura do pacto tripartido, que o Japão celebrara com a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini. Os americanos queriam proteger os interesses ocidentais no Sudeste Asiático e consequentemente, decretaram embargos a importações de produtos essenciais como metais, gasolina ou petróleo pelo Japão.
Yamamoto era um dos que defendiam uma solução diplomática, mas viu-se de mãos atadas pela pressão dos militaristas japoneses. Procurou, então, divisar a melhor linha de acção possível, face ao que se revelava inevitável: o Japão iria entrar em guerra com os EUA. O que pretendia era debilitar o poder naval estadunidense de modo a que os americanos se vissem obrigados a negociar em termos mais favoráveis para os japoneses, enquanto estes, cujo fornecimento de petróleo era assegurado em 80% pelos EUA, ganhavam tempo para dominarem as reservas petrolíferas das Índias Holandesas (actual Indonésia).
Para tal era necessário um golpe decisivo, que estudiosos militares nipónicos da época concluíram que poderia ser levado a cabo por forças aeronavais. Na altura, os porta-aviões ainda não se tinham afirmado como centro do poder das forças da Marinha: esse papel ainda competia aos pesados couraçados e cruzadores. Mas, depois de Pearl Harbour, as coisas nunca mais seriam as mesmas.

Inspirados por alguns exemplos anteriores de sucesso com aviões lançados a partir de navios, inclusive em exercícios americanos simulando ataques contra as ilhas Hawai, os japoneses prepararam cuidadosamente o seu plano.
Uma frota constituída por seis porta-aviões, sob o comando do almirante Chuichi Nagumo, deixou o arquipélago das Kurilas (conhecidas em japonês como ilhas Chishima) a 26 de Novembro sob o maior secretismo, que determinava, inclusive, estrito silêncio rádio entre os navios e entre estes e o Japão. A bordo, 441 aviões, que incluíam caças Zero, aviões torpedeiros Nakajima 97 e bombardeiros Aichi 99. Um poderio aeronaval notável. 20 submarinos e cinco mini-submarinos, além de oito navios reabastecedores, acompanhavam a frota.
O ataque iniciou-se logo às 6h37, após a travessia do oceano. O contratorpedeiro USS Ward afundou um mini-submarino japonês que pretendia entrar no porto e destruir os navios americanos. O ataque aéreo propriamente dito principiou às 7h53 de 7 de Dezembro, quando 353 aviões chegaram à ilha havaiana de Oahu, precipitando-se sobre Pearl Harbour e sobre as bases aéreas em Oahu, com uma primeira vaga de 186 aviões, tirando o máximo partido do efeito surpresa. Seguir-se-ia uma segunda e destruidora vaga de 168 aviões. Apenas alguns aviões P-36 e P40 conseguiram apresentar alguma oposição, além das antiaéreas dos navios. A vantagem era decididamente das forças nipónicas.
29 aviões japoneses foram abatidos e outros 74 ficaram danificados pelo fogo das antiaéreas. Quatro mini-submarinos ficaram destruídos e um outro encalhou. Foi ainda destruído um submarino convencional japonês.
Mas a vitória nesta batalha, que os serviços de informações norte-americanos não conseguiram impedir, apesar dos indícios, foi sem dúvida do Japão. O couraçado Arizona explodiu, causando mais de mil mortos. O Oklahoma, California, Nevada e West Virginia, ou afundaram ou sofreram graves danos. O Maryland, Tennessee, Pennsylvania, Utah e os cruzadores Raleigh, Helena e Honolulu sofreram danos moderados. Os contratorpedeiros Cassin, Downess e Shaw sofreram danos graves, entre outros navios.
Balanço: 2403 americanos mortos, 1178 feridos, num dia que o presidente Roosevelt considerou que “perduraria nos anais da infâmia”.

O almirante Nagumo optou por retirar após duas vagas de ataque, embora alguns estrategas advogassem uma terceira. Mas quis proteger a frota e os aviões que transportava, antecipando que iriam precisar deles nos meses seguintes. E que uma terceira vaga sofreria danos bem mais significativos que as anteriores.
A destruição de instalações militares como docas secas, depósitos de combustível e fábricas não foi conseguida pelos aviões do Império do Japão, que também não conseguiram a destruição de porta-aviões norte-americanos que se encontravam ausentes de Pearl Harbour. A destruição destas infraestruturas e navios teria sido vital, mas não se mostrou exequível.

Logo no dia seguinte, tropas japonesas iniciariam ataques a Hong Kong, às Filipinas, Malásia, Tailândia e navios britânicos. A 8 de Dezembro, o Congresso dos EUA declarou guerra ao Japão. Foi o princípio do fim para as ambições japonesas, e também da Alemanha hitleriana e da Itália fascista.
A história de Pearl Harbour foi profundamente sentida nos EUA e tem sido recriada em inúmeros relatos, incluindo livros e filmes emblemáticos como o excelente ‘Tora! Tora! Tora!’ e o muito menos excelente e mais recente ‘Pearl Harbour’.
Hoje, no ‘Porto das Pérolas’, no Hawai, o significado histórico-militar do memorial ali mantido é profundo e atrai milhares de pessoas todos os anos, inclusive descendentes dos antigos combatentes que ali pagaram com a vida e se encontram sepultados. É um local turístico, mas também de peregrinação. Um memorial evoca os militares mortos, considerados como heróis da pátria. Pearl Harbour fica na história também pelo seu significado audacioso e arrojado como operação militar, e pela demonstração de que mesmo uma grande e orgulhosa nação pode ser, repentinamente, humilhada.

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