Cultura de autonomia e rebeldia deixa Serviço de Ortopedia do Hospital com sérios problemas

hospitalO FN, cumprindo a sua linha editorial de dar eco de todas as partes envolvidas em assuntos noticiosos, vem hoje dar conta de uma outra perspetiva médica relativamente ao controverso Serviço de Ortopedia do SESARAM, aquele que mais tem dado que falar nos últimos anos e que mais especialistas tem vindo a perder para a medicina privada.

Segundo os ortopedistas, a debandada do hospital resulta da desmotivação profissional e de eternas divergências com a hierarquia, nomeadamente com as várias direções clínicas que por lá têm passado, não sendo exceção a atual equipa. Foram greves, foram casos estranhos de remunerações com ausência ao serviço, foram o bater de portas, enfim, um dos vários serviços do hospital de grande visibilidade na opinião pública que é prova do mau clima que se continua a viver no hospital.

No entanto, médicos com dezenas de anos de profissão, e afetos a outros serviços hospitalares, contactaram o FN para esclarecer que este setor padece de um drama “cultural”, ou seja, “ao longo de muitos e muitos anos, os ortopeditas habituaram-se a gozar de uma autonomia e rebeldia que os levam a fazer o que bem entendem, mesmo na urgência”.

A “cultura” deste serviço sempre foi de tal ordem que “o cumprimento escrupuloso dos horários de trabalho e a consequente produtividade são muito diferentes comparativamente aos demais serviços médicos. Vejam-se as estatísticas e tirem-se as devidas ilações. Tudo porque os ortopedistas se consideram líderes, os horários difcilmente são cumpridos à risca e na íntegra e a produção é inferior à que se deveria verificar”.

Para dar apenas um exemplo, os nossos interlocutores referem que os casos dos problemas do cólo do fémur teriam melhor prognóstico se fossem operados de imediato na urgência, mas a tendência é internar o doente, entupindo as enfermarias e consequentemente aumentando as listas de espera”. Como estas, outras situações clínicas têm o mesmo procedimento “porque operar com regularidade e seguindo à risca o horário dá muito trabalho e a cultura instalada no serviço é outra”.

Neste momento, o ortopedista Anacleto Mendonça – que deverá em breve dirigir o Serviço – prepara um plano de recuperação deste setor crítico do hospital com uma remodelação para 3 anos. No entanto, as nossas fontes sublinham que “nada disso resolve o problema estrutural que é ver diariamente os ortopedistas no hospital a trabalhar continuamente, como outros profissionais”.

Por isso, mudar de diretor, fazer planos de reestruturação “numa área rebelde e de grandes lobbies não melhora o problema” e, na perspetiva do utente, que depende muito destes profissionais, a situação é dramática. “É uma questão de liderança que não existe porque se tem receio de melindrar este e aquele médico habituado a gerir o serviço hospitalar à sua maneira. Depois, quando as coisas correm mal ou é-lhes exigidas responsabilidades, batem com a porta e alegam o clima de instabilidade hospitalar e conflitos com a direção clínica. Outros são “pesos pesados” da sociedade madeirense, pelas ligações profissionais e sociais que têm e a hierarquia pensa duas vezes antes de mexer nos interesses instalados.”

Contrariamente a esta análise, o atual diretor clínico mostrou-se otimista no trabalho que Anacleto Mendonça está a desenvolver, de implementar um projeto para o Serviço da Ortopedia, que passará depois pelo crivo superior. Sempre que confrontado com críticas ou notícias relativamente a este Serviço, Eugénio Mendonça acusa logo o ortopedista e deputados do CDS, Mário Pereira, como se fosse o agitador-mor de toda a contravérsia hospitalar na ortopedia. Uma suposição que não corresponde à realidade, já que os problemas que envolvem o SESARAM e nomeadamente o Serviço da Ortopedia contam já mais de uma década, muito antes de Mário Pereira surgir em cena.

Os médicos que contactaram o FN sublinham ainda que, em defesa do interesse superior do utente, é “essencial que todos os profissionais de saúde, também os da Ortopedia, tenham apenas uma cultura dominante: a de prestar o serviço público de atender eficazmente o doente, cumprindo o seu horário de trabalho com empenho, pontualidade e assiduidade. É para isso que os contribuintes pagam os seus impostos. E não há, em nenhum hospital do mundo, especialidades de primeira e de segunda. Há sim uma equipa de profissionais onde todos são importantes e necessários para assegurar uma saúde com qualidade.”