“Inconseguimentos”

joao-abel-torres

PSD/CDS e PS, nesta espécie de encruzilhada política histórica em que nos encontramos, têm entre si apenas uma afinidade: o “inconseguimento”, parafraseando a titular de uma das mais antecipadas reformas do país.

Por um lado, a Coligação lida com a frustração de não ter chegado à maioria absoluta e à continuidade do seu obsessivo radicalismo neoliberal. Por outro, o PS debate-se com a frustração de ter perdido eleições, à partida imperdíveis, depois de quatro anos de massacre austeritário e de “empobrecimento lícito”. Em face deste cenário, concedo, dificilmente o PS poderia ter feito pior, sobretudo quando arrancou em vantagem nas primeiras sondagens, para ir gradualmente perdendo terreno, em razão de alguma inabilidade ou falta de clareza na transmissão da sua mensagem.

A Coligação, cujo programa foi precisamente não apresentar programa, muito provavelmente, com mais uma semana de aselhices de campanha de António Costa, acrescida da guerrilha do BE e da CDU ao PS, bem como da isentíssima propaganda, maioritariamente direitista, da esmagadora maioria da Comunicação Social, teria mesmo chegado à maioria absoluta, desta vez sem sequer dar-se à maçada de mentir, dia sim, dia sim senhor, tão compulsivamente como em 2011. A verdade é que, depois das facilidades concedidas pelo PS, também seria pouco previsível a Coligação não ganhar com goleada e “nota artística”, o que felizmente não veio a suceder.

No fundo, lamentavelmente, o que ocorreu não foi apenas a vitória eleitoral da Coligação, que pouco ou nada fez em campanha para lá chegar, a não ser “de morto” (e muito fez ao longo de uma desastrosa legislatura para ser exemplarmente “chumbada”), mas a incapacidade de António Costa em chegar à vitória quando parecia reunir todas as condições para fazê-lo.

Neste momento político inédito, a frustração da Coligação transformou-se num mais que indisfarçável medo de perder a oportunidade de prosseguir, e agravar, as suas políticas de “terra queimada”, dependendo agora da viabilização do PS e já não apenas do manto protetor do “inquilino” de Belém.

Convenhamos que é no mínimo curioso que um governo, que sempre usou a estratégia e a narrativa do medo, esteja agora tão amedrontado e a destilar “ódios de estimação” perante a possibilidade de um entendimento entre o PS e os partidos à sua esquerda.

Para além de haver exemplos europeus desta natureza, e bem sucedidos, urge perguntar onde na nossa constituição está escrito que o que se está a passar não cumpre as regras da nossa democracia ou por que razão a esquerda, muito “democraticamente”, segundo a direita radical, deve ser excluída do jogo democrático.

Recorde-se que a Coligação governou contra a Constituição, atentando repetida e prepotentemente contra os seus princípios, razão mais do que suficiente para que lhe não assista qualquer autoridade para vir moralizar quem quer que seja em matéria de democracia, legitimidade ou constitucionalidade.

Com efeito, o inconfessado desejo da Coligação, assente na sua leitura enviesada de democracia, mais não é do que ter no PS uma espécie de grande deputado “Queijo Limiano” disposto a dar aval às suas malfeitorias, entrecortadas, aqui e além, com “abstenções violentas”.

Acresce que, embora muito repetido e visado pelos sequazes da direita radical, o argumento da instabilidade governativa à esquerda não colhe, uma vez que o mesmo ou pior se poderá dizer da agora mais fragilizada e minoritária Coligação, caso venha a ser viabilizada.

Em suma, o esfarrapado argumento da tradição, que já não é o que era, e o agitar do desatualizado fantasma dos comunistas que “comem criancinhas ao pequeno-almoço” ficam muito curtos nas mangas à direita radical, sobretudo depois desta extremista governação (apadrinhada por uma presidência despudoradamente parcial e, mesmo, cúmplice), que quis estabilidade e solidez governativas para si, aproveitando-se delas para, de forma arrogante, fria e omnipotente, desestabilizar, precarizar e fragilizar a vida de milhões de portugueses.


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