Como responderia Jesus hoje à família?

jose-luis-rodrigues-icon
O Sínodo da Família, convocado pelo papa Francisco, teve início em Roma a 4 de outubro, e será encerrado no próximo dia 25. Estão reunidos 270 padres sinodais (bispos e cardeais), eleitos por 110 conferências episcopais, chefes de Igrejas Orientais, 10 religiosos, peritos e 18 casais.
O tema é «A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo». Na Vigília de oração pelo Sínodo o Papa fez afirmações contundentes: a Igreja Católica não pode «permanecer no passado», nem ser uma «simples organização», na Igreja a autoridade é serviço e não dominação. A missão não é «propaganda», o culto não é «evocação» e a «prática dos cristãos, a uma moral de escravos».
Esta mensagem vai direita contra o legalismo moralista que ainda domina a Igreja Católica, que a torna mais parecida com os «túmulos caiados» fariseus do que com a misericórdia de Jesus. Há muito clero na Igreja Católica que ainda continua a exercer escrupulosamente o papel de juiz e a enviar por tudo e por anda muitos fiéis para as penas do inferno. O amor incondicional de Deus não lhes diz nada. As leis canónicas são a luz da salvação contra a carga de amor que o Evangelho expressa para todas as situações da vida.
A vontade de condenar alimenta muita gente, que não se deixa seduzir pelo amor de Deus Pai que se reflete tão claro no regresso do Filho Pródigo. Então vejamos a inquietação do Papa: «se tu és um sacerdote e não tens vontade de ser misericordioso, diz ao teu bispo para que te dê um trabalho administrativo, mas não vás ao confessionário, por favor!». Porque «um sacerdote que não é misericordioso faz tão mal no confessionário: maltrata as pessoas!». Talvez, alguém possa justificar-se dizendo: «Não, padre, eu sou misericordioso, mas sou um pouco nervoso…». Esta foi a resposta do Papa: «É verdade, antes de ires ao confessionário vai ao médico para que te dê um remédio contra os nervos! Mas sê misericordioso!» (Papa Francisco).
Em outro âmbito o Papa enfatizou na Vigília de oração o seguinte, que a Igreja Católica «abrace as situações de vulnerabilidade, que a põem à prova: a pobreza, a guerra, a doença, o luto, as relações feridas e desfeitas de que brotam contrariedades, ressentimentos e rupturas; lembre a estas famílias, como a todas as famílias, que o Evangelho permanece uma ‘boa notícia’ donde recomeçar».
Por isso, devemos crer e desejar que o Sínodo não seja alheio ou que ninguém na Igreja se desresponsabilize dos temas que permanecem tabus como a homossexualidade. Todas as religiões têm por vezes atitudes que diabolizam esta questão e muitas vezes as pessoas homossexuais são consideradas como seres estranhos ao amor e à misericórdia de Deus.
Outro grande desafio está relacionado com os divorciados e recasados que não podem ter acesso aos sacramentos. A meu ver bastava que o Sínodo refletisse sobre a ignorância e indiferença que hoje existe em toda a Igreja quanto a este assunto… A multidão de divorciados e recasados engrossa todos os dias. Ao mesmo tempo não deixa de crescer a multidão, que simplesmente ignora completamente aquilo que a Igreja Católica afirma e manda praticar neste âmbito.
A doutrina sobre a sexualidade também deveria merecer alguma reflexão e mudança profunda. As relações sexuais não podem continuar a ser consideradas exclusivamente para procriar. Os contraceptivos não podem continuar a ser liminarmente recusados sem que mereçam ser considerados uma mais-valia para combater doenças, estarem ao serviço do aprofundamento da comunhão7partilha sexual entre os casais e que daí derive um leque de possibilidades maior para que responsavelmente façam o seu planeamento familiar de acordo com as suas condições humanas e materiais. São questões que devem ser debatidas agora e sempre na Igreja Católica.
Porém, devemos sempre lembrar que a Assembleia Sinodal é predominantemente constituída por homens sem experiência familiar. As decisões finais são do Papa, que pode aceitar ou não as votações ocorridas no Sínodo. Mas, já estamos habituados com as atitudes do Papa Francisco, que se tem revelado um pastor que escancara as portas da Igreja à medida do coração enorme de Deus, que chama todos ao banquete do Seu amor: cegos, surdos, coxos, pecadores, prostitutas… Afinal, todos os órfãos da sociedade humana, que não lida bem com os fracos, porque os marginalizam e expulsam do convívio social. A receita mais fácil para que se tranquilize perante os seus estigmas.
Hoje são tantos os «órfãos sociais» à espera de uma mão que os acolha com misericórdia e amor. Esperemos que o Sínodo sobre a família seja essa mão e que a Igreja Católica siga os passos do Papa Francisco quando confronta todos e cada um com a seguinte pergunta: como seriam as atitudes de Jesus hoje perante a realidade concreta dos nossos dias?