Uma Mulher de grande Classe

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Há uns anos, fim do século passado, viajei até Vancouver e daí, em cruzeiro, até ao Alasca. O navio estava cheio de americanos que discutiam o adultério do seu presidente e a necessidade de este se desculpar em público. Como pediram a minha opinião, disse, no meu modesto inglês, que não via qualquer pertinência em tomar tal atitude e que me parecia algo pessoal e não público, para infelicidade, disse ainda que na Europa isso não seria encarado de forma drástica, posicionando-me como uma verdadeira mulher livre, palavras ditas e um grupo indignado, voltando-me as costas disse: Não se aprende nada com essa Europa corrupta e velha, fiquei sem argumentos e tornei-me conservadora, defensora dos costumes…
Passaram poucos anos e Hillary Clinton publicou uma espécie de autobiografia, que li com muita curiosidade.
Aquela que ao longo de anos foi a mulher do mais, ou quase mais, poderoso homem do mundo escreve de forma desassombrada acerca do seu percurso enquanto estudante, a relação com Bill, os part-time em cafetarias para fazer frente a despesas extras (comecei logo a pensar nos nossos hábitos…), os espetáculos, leituras, lazer, entre tantas outras atividades. Claro que o meu objetivo era perceber a formação de ambos e também a história do sonho americano, ou seja, quem pode ser, ou chegar a ser presidente desta potência mundial?
Pareceu-me tudo um percurso simples, empenho nas campanhas, toda aquela panóplia de senadores, governadores, não sei se por esta ordem.
A verdade é que Bill Clinton teve dois mandatos. Como a televisão noticia sempre a realidade deste nosso aliado que comanda o mundo, eu procurava não o dia a dia da Casa Branca, mas a parte que tinha a ver com a forma como ela, e só ela, encarou o adultério do marido. Curiosamente menciona-o e, de forma inequívoca, diz que passou férias em família mas que era a última coisa que desejava fazer. Explica, também ela teve necessidade de o fazer, as razões que a fizeram continuar ligada ao companheiro, e é esta a razão da minha escrita. Estou a ler o seu segundo livro (só conheço dois), os anos de Senadora, a derrota no seio do partido democrático frente a Obama e finalmente os quatro anos de Secretária de Estado (onde relata situações em determinados países pelos quais também passei, como por exemplo: as bombas não desativadas no Camboja). Aqui assume que Bill é o seu melhor amigo, um companheiro exemplar e evidentemente eu penso que esta é uma Mulher de Grande Classe e claro que gostaria que fosse eleita Presidente.