Uma diocese com as mãos sujas

h_sampaio

No passado dia 27 de Agosto, através de comunicado, a Diocese do Funchal anunciou o fim da sua participação na empresa Jornal da Madeira, Lda, afirmando que “não se sente vocacionada nem tem condições para assumir, na sua totalidade, uma empresa com os encargos da Empresa Jornal da Madeira”.

Os mais ingénuos talvez esperassem que, em simultâneo, a Diocese do Funchal aproveitasse a oportunidade para, no mínimo, se penitenciar por ter entregue um órgão de comunicação social escrito, o JM, a um partido político, a um governo regional, e, em última instância, a um projecto de poder pessoal do auto-intitulado “único importante” cá do burgo.

Em vão, porém, o fizeram. Porque, não só a Diocese não se desculpou, como até não teve pejo de assumir que “a sociedade comercial mista com uma forte participação pública regional”, estabelecida entre o governo regional e a diocese do Funchal, garantiu (pasme-se!) a edição do jornal “com um conjunto de princípios editoriais fiéis aos valores da Igreja Católica”.

Uma tal posição equivale a dizer que a Diocese do Funchal se revia num jornal (melhor dizendo, num panfleto, num pasquim) que servia, sobretudo, para a criatura, que se instalou durante quase 4 décadas na Quinta Vigia, insultar, caluniar, perseguir, vilipendiar tudo e todos, desde adversários políticos, simples cidadãos, até correligionários, designadamente na fase final do seu longo consulado.

Simultaneamente, a nota da Diocese do Funchal adianta que acompanha a intenção de privatização da referida empresa “porque sabe dos encargos muito significativos incomportáveis numa época de especiais exigências financeiras e de relevantes carências sociais”. O que não pode deixar de ser entendido como uma manifestação de profunda hipocrisia. Como se as “relevantes carências sociais” fossem uma questão do presente. Se fizessem sentir apenas agora, em 2015. É preciso não ter vergonha. Não ter um mínimo de sensibilidade relativamente ao drama de tanta gente que em resultado de uma governação despesista, esbanjadora, megalómana lançou no desemprego, na miséria e na emigração, tantos e tantas madeirenses e porto-santenses e as suas famílias. Contando sempre com o beneplácito e a conivência da Diocese do Funchal, em particular dos seus diferentes bispos.

A cumplicidade da igreja portuguesa com o poder político teve o seu apogeu, nos tempos mais recentes, com a promiscuidade em que assentavam as suas relações durante o Estado Novo, fruto designadamente da intimidade entre o ditador de Santa Comba Dão e o Cardeal Cerejeira.

Mas, com a sua substituição, em 1971, por D. António Ribeiro, a hierarquia religiosa nacional soube progressivamente afastar-se do concubinato que mantinha com o poder político, até porque a Constituição de 1976 viria a consagrar a separação entre o Estado e a Igreja.

Aqui e agora, porém, nada se alterou. O conluio entre o poder político e o poder religioso permaneceu intacto, tal como já se verificava durante o antigo regime, particularmente com a circunstância do Cónego Agostinho Gonçalves Gomes, que viria a exercer as funções de Vigário Geral da Diocese, ter sido deputado pelo círculo do Funchal na Assembleia Nacional, em duas legislaturas. Para a manutenção e aprofundamento desta relação promíscua contribuiu decisivamente o facto de, após Abril de 1974, ter sido nomeado bispo do Funchal, Francisco Santana, um sacerdote com fortes ligações ao regime deposto, designadamente através de uma das suas figuras de maior destaque, o Almirante Henrique Tenreiro.

Francisco Santana começou logo por não deixar os seus créditos por mãos alheias, entregando o jornal da Diocese, o JM, nas mãos do sobrinho da figura de proa do regime fascista, na Madeira, o dr. Agostinho Cardoso. E posteriormente contribuiu também para a sua ascensão à liderança do PSD-M e do governo regional.

Entretanto, com a morte do prelado, a relação entre ambos os poderes, o político e o religioso, alterou-se. Até então, os cordelinhos eram sustentados por Francisco Santana que impunha a sua vontade, a tudo e a todos. Depois, a relação inverteu-se. A igreja passou a depender do poder político, protagonizado pela criatura que nos legou uma dívida “oculta” colossal. E que em seu redor foi construindo um enorme polvo. A que tudo e todos se tinham de subordinar.

Por isso, não surpreendeu que tivesse continuado a mandar no “JM”, apesar de ao longo de 25 anos, o mesmo ter sido dirigido “editorialmente” por um membro do cabido diocesano, o cónego Tomé Velosa. Na prática, a orientação, a estratégia continuavam a pertencer ao afilhado de Francisco Santana. Em troca, a Diocese ia sendo contemplada com apoios para a construção de igrejas e casas paroquiais, contentando-se com a publicação de um suplemento semanal. Ao mesmo tempo que se calava perante todos os desmandos praticados. Quer com o esbanjamento dos dinheiros públicos (em que o JM foi um dos mais beneficiados), quer inclusive quando os seus membros eram enxovalhados no jornal que continuava a reclamar ser de inspiração cristã. A submissão ao poder político e não só era de tal ordem que se chegou a assistir ao abandono por parte de um bispo diocesano de uma cerimónia do crisma para se associar à inauguração de um hotel, pertencente ao maior grupo hoteleiro português.

Foi assim que, indiferente à máxima evangélica, ( “não é possível servir a dois senhores”), a diocese do Funchal colocou-se sempre do lado do poder, apadrinhando os seus actos, por mais repugnantes que fossem, tornando-se, por conseguinte, co- responsável pelo estado lastimoso a que tudo isto chegou, quer do ponto de vista político, económico e social. Contribuindo decisivamente pela sua postura para que as populações não evoluíssem, permanecessem submissas, subservientes, e assim mais facilmente manipuláveis por parte de um poder político que nunca olhou a meios para atingir os seus fins, por mais tenebrosos que fossem.

Não é, por isso, de estranhar que a igreja local, de modo particular, a sua hierarquia, nada tenham que ver com a mensagem que o Papa Francisco tem procurado transmitir relativamente às questões sociais e económicas do nosso tempo. Provavelmente por que farão parte do número daqueles que consideram que Jorge Bergoglio tem ido longe demais. Nada mais coerente para quem está a anos luz da postura adoptada pelo actual Papa.

Nota: Fui educado na fé católica, sou filho de católicos praticantes com intervenção na área social, fui militante da acção católica diocesana, no final dos anos 60 do século passado.

Por estar em frontal oposição ao posicionamento adoptado pela igreja, quer perante o regime fascista, quer face à guerra colonial, rompi com essa mesma igreja. O comportamento que foi mantendo ao longo dos tempos não me fez mudar de ideias por entender que permanece em contraciclo com a mensagem proclamada nos Evangelhos.

*Texto escrito, por opção, de acordo com a antiga ortografia.