Luís Viveiros: urbanidade e hedonismo na poesia

SONY DSC

Fotos: Rui Marote

É um poeta madeirense com créditos firmados, autor de poemas inegavelmente interessantes, alguns directos e quase quotidianos, outros estranhamente oblíquos, mas todos eles reflexo da sua vivência, seja ela profunda e interior, quer sentida à flor da pele. Luís Viveiros nasceu em 1953 em Machico e ali cresceu, mas, como outros criadores poéticos madeirenses como Herberto Helder e José Agostinho Baptista, a ilha revelou-se demasiado estreita para os horizontes que almejava contemplar, com o olhar e com a alma. Desde há muitos anos residente em Oeiras, sente-se completamente tranquilo e integrado na Lisboa actual. Actualmente na Madeira para apresentar o seu último livro, ‘Caminhos’, amanhã na Porta 33, pelas 21h30, e no dia 4 na Feira do Livro do Funchal, onde a sua editora, as ‘Edições Piaget’, se encontra representada, falou ao Funchal Notícias da sua experiência criadora e dos pensamentos e emoções que procura traduzir através da sua mensagem poética.

A apresentação do livro de Luís Viveiros será feita amanhã pelo ensaísta José Fernando Tavares, na galeria situada na Rua do Quebra-Costas, no Funchal. A sessão terminará com a leitura de poemas por Francisco Lobo Faria. No final será servido um Madeira de Honra. Já na Feira do Livro, a apresentação será domingo, dia 4, no átrio do Teatro Municipal Baltazar Dias, pelas 16 horas.

Funchal Notícias – Vê este seu mais recente livro como uma transição ou uma continuidade na sua produção poética?

Luís Viveiros – Não é uma transição… No fundo, é uma continuidade… uma maneira de expor sentimentos, situações… Digamos que não é matéria biográfica, mas matéria que tem muito a ver com a pessoa que faz, no fundo, aquela escrita. É uma continuidade, é a forma que eu considero que é a minha maneira natural de me exprimir. De forma que penso continuar, neste caso, com este livro, nesta maneira de expor as situações que quero expor. Não há, pois, nenhuma alteração. É a continuidade. Espero eu, com mais qualidade (risos). Tenho, por outro lado, uma apetência pelo poema curto. E tenho já um livro pronto, de ‘haikus’. Aí, e posso já falar nisso…

FN – …o ‘haiku’ é o expoente da depuração, é a depuração mais completa possível…

LV – Exacto. O António Osório, um poeta que eu admiro muito, tem poemas desse tipo. Não será uma ruptura, mas dois caminhos: por um lado, estees poemas, digamos, ocidentais, poemas não muito compridos, mas também não muito curtos, que é o caso de ‘Caminhos’, e por outro, os ‘haikus’, que já poderíamos considerar uma ruptura com a minha linha habitual… Aí, sim, podemos arriscar dizer que houve uma ruptura… Mas no fundo, não se trata disso, é antes uma outra forma de expressão. Neste caso [‘Caminhos’], este livro é ainda a forma que eu considero mais íntima, mais minha. A esse nível, estou bem claro sobre o assunto”,

FN – Neste livro há uma temática subjacente, uma vivência urbana ali reflectida…

LV – Sim. Eu acho que estes poemas reflectem, por um lado, a minha relação conflituosa com a ilha da Madeira. Não é nada do outro mundo, mas estão lá presentes alguns sentimentos…

luis viveiros

FN – Essa relação difícil com o torrão natal tem afectado vários poetas madeirenses que sentiram a necessidade de sair da ilha… É o caso de Herberto Helder, de José Agostinho Baptista… 

LV – É verdade. E também é o meu caso. É um ‘cliché’, mas trata-se de uma relação, ao fim e ao cabo, de amor/ódio. Num dos primeiros poemas deste livro há uma exposição desses sentimentos contraditórios. Depois, nos outros poemas, transparece uma relação, não digo exactamente com Lisboa, mas com a grande cidade… Uma relação urbana,

FN – É pacífica a sua relação com a cidade de Lisboa, depois de todos estes anos?

LV –  É uma relação pacífica, é. E quase que direi, amorosa. É uma cidade que eu gosto muito. Eu dou-me muito bem com a cidade…

FN – No seu caso, sente-se perfeitamente à vontade com a vivência lisboeta… 

LV – Estou muito bem lá. Gosto muito. Por exemplo, há pessoas, amigos madeirenses, que arranjam uma série de adjectivos pejorativos para Lisboa, mas eu não consigo. Os adjectivos que eu tenho para Lisboa são positivos. Gosto de lá viver. É uma cidade na qual me sinto bem, a viver lá. O que não quer dizer que eu também náo goste de vir cá.

FN – Diria que a vivência urbana influenciou fortemente a sua poesia, no modo de ver a vida, a relação com os outros? 

LV – Sim, sim. Acho que, nos poemas que tenho neste livro, essa vivência urbana está bem expressa. O carinho, por um lado; as dúvidas, por outro; as ansiedades que norteiam a vida de um ser humano normal, no fundo, estão ali expressas no livro. Existe uma urbanidade, digamos assim, que eu considero feliz, relativamente feliz, neste livro.

FN – Tem visitado a Madeira nos últimos tempos?

LV – Sim, tenho…

FN – E pensa ter estabelecido um forte contraste, estabelecendo uma relação de contraponto entre a capital portuguesa e a Região? Como vê a Madeira, hoje em dia? Já muito urbanizada ou, pelo contrário, ainda muito distante do cosmopolitismo lisboeta?

LV – Ora bem, eu acho que, agora, e mesmo antigamente, a cidade do Funchal sempre foi uma cidade cosmopolita. Isso, sempre foi. Digamos que a ilha da Madeira, fora do Funchal, é que não era tão cosmopolita. A cidade do Funchal sempre o foi. Aquela relação amor/ódio de que falava, não é bem com a cidade do Funchal, é mais com uma realidade que implica a ilha toda, tanto exterior como interior. Abrange relações sociais, relações de poder… pronto.

luis viveiros

FN – Relaciona-se com o carácter dos próprios madeirenses?

LV – Não. Mais com o carácter, se calhar, dos governantes (risos), não dos madeirenses, que eles têm um bom carácter. E como a Madeira era um espaço pequeno, um pouco claustrofóbico, eu, como adolescente, senti-me um pouco aprisionado. Em Lisboa, eu encontrei o oposto. A liberdade, o anonimato. Não ser conhecido por ninguém… Um indivíduo está à vontade para, quando muito, pensar o que quer, exprimir o que quer, e não ter contrariedades, não se sentir constrangido com a sua expressão. Mas de qualquer maneira, isso são coisas passadas, que hoje em dia não se colocam…

FN – Nunca colocou a hipótese de voltar à Madeira para viver? 

LV – Não. A minha ideia é bem clara. Quando eu puder, gostava de andar cá e lá. Um pé cá, um pé em Lisboa… Mas viver definitivamente, não, não me estou a ver… O ideal seria uns meses cá no Verão, depois voltar lá… Essa seria a minha ideia.

FN – Como definiria a principal preocupação expressa na sua poesia?

LV – No fundo, aquilo que tento, mais ou menos, é exprimir o prazer, o desprazer, de um ser humano que procura compreender algumas coisas que o rodeiam. Procura compreender, no fundo, a sua vida. São questões como, quem sou eu, para onde vou, o que quero que a sociedade me dê, o que quero dar à sociedade… São angústias de um ser humano, acima de tudo, na sua relação social com as pessoas.

FN – Considera-se de algum modo um poeta existencialista?

LV – Acho que não, sinceramente. Mas está lá… Eu considero-me mais um poeta hedonista. E nessa preocupação hedonista, poderemos ter esse ponto existencialista. Mas, acima de tudo, sou um hedonista…

FN – Dentro desse hedonismo, você tem algumas referências culturais que são inultrapassáveis, como a literatura, o jazz… Sei que é um grande apreciador de jazz… Isso também se reflecte no seu gosto pela vida e naquilo que escreve.

LV – No prazer de estar vivo, o prazer de tentar exprimir esse prazer, de viver. Temos referências hedonistas como, por exemplo, o Walt Whitman na literatura… Temos noutro campo o Pablo Neruda,,, O José Luís Borges, que me marcou bastante… Eu aprecio muito… E temos por exemplo na música o hedonismo do jazz, que é uma coisa forte.

FN – Para si, de certa maneira, a literatura e a poesia caminham a par e passo?

LV – Sim, sim. Digamos que eu tenho fome de uma coisa e doutra. E para mim ouvir música e ler são duas faces da mesma moeda. É fundamental.

FN – Busca agora, de certa forma, uma aproximação ao público madeirense, após algum distanciamento, através desta sua participação na Feira do Livro e desta sua sessão de apresentação do livro na galeria ‘Porta 33’. É uma maneira de reatar pontes que de certa maneira estavam interrompidas?

LV – Exacto. É o regresso, que eu espero que não seja interrompido. É, claramente, para mim, um regresso para manter uma presença, daqui para a frente, mais assídua. Espero que não haja mais nenhum percalço que me impeça de estar cá. Faço tenções de, daqui para a frente, conforme eu for publicando algum livro, que eu o faça aqui. Tenho este caso [‘Caminhos’] e já tenho um pronto, que será publicado daqui a mais ou menos um ano, que farei o que puder para concretizar também o lançamento cá, de forma a que daqui para a frente, possa realizar essa apetência que tenho, de marcar presença cá e lá. ‘Caminhos’ já foi originalmente lançado em Oeiras, em Julho último, no Teatro Eunice Muñoz.

luis viveiros livro

Nascido em Machico, em 1953, Luís Viveiros começou a publicar na revista ‘Margem’, da CMF. Participou na III Exposição de Poesia Ilustrada (CMF, 1989), na ‘Poet’Arte 90’ (AEM, 1990), ‘Vers’Arte 91’ (AEM, 1991), ‘Olhares Atlânticos’ (AEM, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, 1991) e na antologia ‘O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses’. Está representado nas colectâneas ‘Ilha 3’ (1991), ‘Ilha 4’ (1994), ‘Ilha 5 (2008) e na colectânea ‘Poeti Contemporanei dell’Isola di Madera’ (Universidade de Trieste/DRAC, 2001). Publicou ainda as obras ‘Primeiras Angústias’ (CMF, 1982), ‘Poeira dos Dias’ (Edições Piaget, 1998) e ‘Fagulhas’ (Edições Piaget, 2005).