Drogas sintéticas mais perigosas levam novos casos à Unidade de Tratamento da Toxicodependência

unidade de tratamento da toxicodependência

O serviço regional de Saúde tem a funcionar a Unidade de Tratamento da Toxicodependência, uma estrutura que opera na valência do serviço da Psiquiatria e que proporciona acompanhamento clínico, psicológico e social a quem queira reabilitar-se. Atualmente não há lista de espera nas consultas destinadas à problemática. Apesar do processo doloroso e difícil, há casos de sucesso na luta contra as drogas. As sintéticas, pelo contrário, são desafio e causam preocupação.

Com o aparecimento das chamadas drogas sintéticas agravaram-se os sintomas e as sequelas associadas à toxicodependência.

Um novo perfil do fenómeno que teve o seu pico em 2012 com a abertura das smartshops. Atualmente, a lei não permite a venda em espaços públicos de substâncias psicoativas, mas o acesso a estes produtos perigosos mantém-se camuflado com as novas tecnologias a manterem o negócio longe dos olhos das autoridades e à curta distância de um clique.

Se o fenómeno, popularmente conhecido por “bloom”, deixou de fazer notícia nas páginas dos jornais, pelos casos extremos e de emergência, o mesmo não se poderá dizer do consumo e dos efeitos que estas drogas de laboratório causam nos indivíduos e na própria sociedade. São sequelas gravíssimas do ponto de vista físico e psicológico, que comprometem não só a segurança e inserção dos indivíduos, como todo o equilíbrio e funcionalidade familiar e social.

Do ponto de vista de efeitos secundários e de sequelas irreversíveis, as novas drogas são mais graves do que as ditas clássicas (cocaína, heroína, canábis). Quem conhece os dois mundos não hesita em afirmar que as sintéticas são um inferno bem mais doloroso e difícil de largar, lançando os indivíduos para quadros de deterioração física e psicológica graves. São altamente viciantes e o acesso mais fácil torna o consumo descontrolado. O pior são os efeitos. Para além de sérios riscos físicos que podem ir até à amputação, estas substâncias levam a sérias alterações do comportamento e do pensamento, através de quadros psicóticos e de esquizofrenia muito extremos, em que o indivíduo perde completamente a noção da realidade, colocando em risco a sua segurança e integridade bem como de terceiros. São sintomas que, infelizmente, poderão ser permanentes.

“Associado a estas novas drogas há algo que nos preocupa e que tem requisitado muitos recursos. É o facto de se manterem os sintomas mesmo após cessar os consumos. Um em cada cinco indivíduos mantem a sintomatologia mesmo depois de parar”, explica Licínio Santos, técnico da Unidade de Tratamento da Toxicodependência (UTT) do Centro Hospitalar do Funchal.

bbc.com
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Novos casos com as drogas sintéticas

Esta é a estrutura que ao nível regional lida com os casos graves de adição. Um trabalho multidisciplinar em que estão envolvidos médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, em parceria com centros de saúde, centro prisional e outros serviços clínicos.

Licínio Santos reconhece que o aparecimento das drogas sintéticas trouxe novos desafios também na abordagem terapêutica. Desde já, o aumento exponencial do fenómeno, em 2012, levou a uma procura acima do esperado pelos serviços que, face à capacidade limitada, teve de recorrer às unidades de saúde mental a fim de garantir os internamentos.

Atualmente, o fenómeno está controlado do ponto de vista dos efeitos extremos e públicos, mas nada garante que os consumos tenham diminuído. Licínio Santos diz mesmo que, após o episódio das smartshops, a evolução da problemática se tem mantido sem grandes oscilações.

A Unidade de Tratamento da Toxicodependência, a funcionar na valência do Serviço de Psiquiatria do SESARAM, continua a receber novos casos à conta das drogas sintéticas. “Penso que apesar da informação, há ainda um certo grau de falta de consciência quanto aos efeitos devastadores”, salienta.

Por uma questão de sigilo, o psiquiatra não quer falar em números. Diz ser mais proveitoso alertar a população para os riscos associados a estas novas substâncias e dar a conhecer que tratamentos e alternativas estão ao dispor dos doentes no sentido de ajudar a enfrentar e a debelar o problema.

“Alto limiar de exigência”

A UTT destina-se a utentes a partir dos 18 anos idades. Funciona em duas grandes frentes, consoante o tipo e o grau de envolvimento do indivíduo no processo de reabilitação.

O mais aconselhável será sempre o tratamento de “Alto limiar de exigência”, que implica um grande compromisso do utente na recuperação e, como tal, potenciador de melhores resultados a médio e a longo prazo, quer no tratamento dos sintomas, quer na prevenção de recaídas.

Na base da intervenção está a metodologia do projeto terapêutico. Isto é, a cada utente é proposto um tratamento rigoroso onde se garante um acompanhamento integrado ao nível médico, de enfermagem e de assistência social.

“O utente assina um contrato terapêutico e é obrigado a respeitá-lo. Havendo incumprimento no acordo – duas faltas consecutivas às consultas e dois testes positivos -, deixa de integrar o projeto terapêutico de “Alto limiar de exigência”. Tanto o tratamento como o acompanhamento na dependência de fármacos é muito rigoroso. O utente tem de assumir as consequências”, sustenta Licínio Santos.

Caso o doente não queira ou não consiga cumprir com os procedimentos preconizados, será adotada uma nova linha de atuação. Passa então a integrar o tratamento de “Baixo limiar de exigência”, cuja metodologia incide na minimização dos danos e na redução de riscos. No entanto, o acompanhamento psicológico estará sempre presente, no sentido de recapacitar o indivíduo no controlo da sua doença, podendo sempre regressar a um maior nível de envolvimento e de reabilitação.

"A carrinha da metadona", como é conhecida na gíria dos dependentes, na sua habitual intervenção na zona da baixa funchalense. (Foto: Rui Marote)
“A carrinha da metadona”, como é conhecida na gíria dos dependentes, na sua habitual intervenção na zona da baixa funchalense. (Foto: Rui Marote)

É no âmbito desta intervenção que funciona a unidade móvel da UTT. Uma carrinha desloca-se diariamente aos locais de maior incidência de consumo, a horas definidas, onde os técnicos procedem à distribuição e recolha de kits e à administração de medicamentos que reduzem o impulso ao consumo, como é o caso da conhecida metadona.

Há casos de sucesso

A principal porta de acesso à Unidade de Tratamento da Toxicodependência é a Consulta de Acolhimento, que decorre todas as quartas-feiras e está aberta a quem voluntariamente queira reabilitar-se. Basta marcar e aparecer. Neste momento, não há lista de espera, “o que significa que os serviços têm conseguido responder à demanda”, sublinha o psiquiatra, para quem a toxicodependência está na ordem do dia na lista das preocupações do sistema regional de saúde.

“Quem procura ajuda não pode encontrar portas fechadas. Temos tido esse cuidado de dar a resposta atempada e adequada”.

A primeira consulta será sempre para uma avaliação integrada multidisciplinar (enfermagem, clínica, psicológica e serviço social). Caso a equipa assim o entenda, poderá verificar-se numa primeira abordagem o internamento.

“Se o utente tiver consumos compulsivos, deterioração física e psicológica acentuada, uma rede familiar débil ou nula, ou se ainda apresentar risco de incumprimento da terapêutica e perigo em termos de efeitos, poderá ser proposto o seu internamento”, explica Licínio Santos.

Em casos mais graves de transtorno psiquiátrico, o internamento compulsivo poderá acontecer a pedido dos familiares. Mas é de evitar, porque grande parte do tratamento assenta na motivação e vontade do próprio.

Em regime ambulatório, os doentes recebem o acompanhamento integrado na mesma, inclusive a medicação agonista, para alívio do impulso e do risco do consumo, vulgarmente conhecida por metadona. Numa primeira fase, este e outros os medicamentos são ministrados na própria UTT. Assim que o utente esteja estabilizado, passam a ser administrados em articulação com os centros de saúde de proximidade e inclusive com os serviços clínicos do estabelecimento prisional do Funchal.

Falar em cura nem sempre é o mais indicado. A toxicodependência é uma doença crónica recidivante e, tal como a diabetes e a hipertensão, é passível de ser controlada, mas o risco de uma recaída está sempre presente. “Por isso é que não se pode falar de curas milagrosas em doenças que são autoinduzidas.”

No entanto, os serviços têm conseguido reabilitar muitos casos a partir do tratamento de “Alto limiar de exigência”, ao ponto de os utentes cumprirem com os objetivos propostos.

“Inexistência de consumos ou de recaídas, estar inserido no seu meio sócio-familiar, cumprir com um projeto de vida, manter relacionamentos equilibrados são metas que temos alcançado”.

Educação e família estruturada protegem

Na valência da Unidade de Tratamento da Toxicodependência, a funcionar num edifício junto ao Hospital dos Marmeleiros, encontra-se igualmente a Subunidade de Intervenção Familiar. Uma estrutura que procura integrar o agregado familiar no processo de reabilitação do utente.

Licínio Santos esclarece que a toxicodependência é um fenómeno transversal a todos os grupos socioeconómicos, havendo contudo fatores de riscos que podem potenciar a situação de consumo e dependência, como sejam o desemprego, a precariedade laboral e a baixa escolarização.

Pelo contrário, como fator de proteção, o médico não hesita em apontar uma base familiar sólida nos valores e nos afetos. “A educação passa pela família e pelos exemplos e valores que elas transmitem”.

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