Doentes hipertensos da Madeira correm maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares

 

hipertensãoO risco cardiovascular global dos doentes hipertensos na Ilha da Madeira é mais grave do que em Portugal Continental, revela o estudo “Avaliação e Controlo da Hipertensão Arterial em Medicina Geral e Familiar n aRegião Autónoma da Madeira” (CONTROL-RAM), coordenado pelo professor Luís Martins, Director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santa Maria da Feira, com o apoio da Faculdade Ciências da Saúde da Universidade Fernando Pessoa.

“O estudo CONTROL-RAM tem o objectivo de avaliar o perfil clínico de pacientes hipertensos, a gestão da hipertensão, assim como as taxas de controlo da pressão arterial no contexto dos cuidados de saúde primários na Região Autónoma da Madeira (RAM) em comparação com Portugal Continental (estudo Conta, 2011)”, refere o coordenador do estudo.

O perfil de risco cardiovascular dos hipertensos é mais grave na Madeira do que em Portugal em todos os escalões, excepto no escalão de baixo risco. De referir que é no terceiro pior escalão (alto risco) que se verifica uma maior diferença entre a RAM (31,3%) e Portugal Continental (27,6%).

No que diz respeito ao grau de controlo da pressão arterial, este é melhor na região autónoma (50,9%) do que em Portugal Continental (46,5%), embora neste último se tenha vindo a observar, ao longo dos anos, um aumento considerável desta percentagem (estudo PHYSA, 2012 – 42,6% e estudo PAP, 2003 – 11,2%).

No que se refere às co-morbilidades, verificou-se que a dislipidemia (64,7%) é a mais prevalente nos hipertensos da RAM, seguido da diabetes (28,8%) e das lesões em órgãos-alvo (25,6%). Quando comparados estes resultados com os dados do continente (8,2%), a população hipertensa na RAM apresenta maior prevalência de doença arterial coronária (10,2%), enquanto a prevalência de acidente vascular cerebral é equivalente (9,1%).

O estudo mostra ainda importantes diferenças entre géneros, com os homens a apresentarem um maior risco cardiovascular nos escalões de risco alto (36,6%) e risco muito alto (22,9%), e um pior controlo da pressão arterial (40,5%) do que as mulheres (57,2%).

No que se refere à utilização de fármacos para tratar a hipertensão arterial, verificou-se que a utilização de três ou mais fármacos é maior na RAM (24,2%) do que em Portugal Continental (15,2%).

“A identificação dos factores responsáveis pelas diferenças entre a RAM e Portugal Continental é necessária para implementar políticas específicas de prevenção destinadas a melhorar o diagnóstico, tratamento e controlo da hipertensão”, explica o professor Luís Martins

O estudo CONTROL-RAM contou ainda com uma vasta equipa de investigadores, composta por Fernando Pinto, cardiologista do Hospital Sta. Maria da Feira, Rui Cernadas, vice-presidente da ARS norte, J. Araújo, da SESARAM, e o professor Jorge Polónia, Consultor de Hipertensão do Hospital Pedro Hispano e de 69 Especialistas de Medicina Geral e Familiar da RAM. Para além do apoio da Universidade Fernando Pessoa fizeram também parte desta investigação o Departamento de Cardiologia do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga, a Administração Regional de Saúde do Norte, o Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira, a Faculdade de Medicina do Porto e o Hospital Pedro Hispano.

 Metodologia do estudo

Estudo epidemiológico transversal, prospectivo, de uma amostra de adultos hipertensos residentes na RAM (961 indivíduos: 363 homens e 598 mulheres com idade média a variar entre os 21 e os 94 anos de idade), seguidos em Centros de Saúde. Um total de 69 médicos de clínica geral (de um total de 141 que trabalham na ilha) em 23 centros de cuidados primários participaram no estudo. Os investigadores e centros envolvidos foram escolhidos para representarem todo o sistema de saúde público da ilha.

Cada investigador incluiu todos os pacientes que participaram da consulta de cuidados primários durante as duas últimas semanas de Dezembro de 2014, tendo preenchido os critérios de inclusão: 1) pacientes de ambos os sexos; com pelo menos 18 anos de idade, 2) com diagnóstico estabelecido de hipertensão e 3) tratados para a hipertensão durante pelo menos 3 meses anteriores à inclusão. Os dados bio-demográficos, factores de risco cardiovascular, lesão de órgãos, história de doença cardiovascular e risco cardiovascular global individual foram definidos de acordo com as Orientações Europeias 2013. A presença de lesões de órgãos subclínica, doença cardiovascular e tratamento anti-hipertensivo real (tipo e número de drogas) foram registados a partir dos registos clínicos do paciente. Em todos os pacientes, a pressão arterial foi medida em 2 momentos distintos no mesmo dia por um médico e um enfermeiro (3 medições cada).

Sobre a Hipertensão

A hipertensão, ou também conhecida como ‘tensão alta’, é uma doença crónica que não apresenta sintomas mas afecta e danifica artérias e vários órgãos vitais do corpo humano. Mundialmente esta patologia mata cerca 9,4 milhões de pessoas por ano, estimando-se que afecte outros 1.5 biliões.

Em Portugal, a hipertensão atinge 42,2% da população adulta, mas cerca de ¼ dos hipertensos desconhece que tem a doença e só 74,9% dos hipertensos estão medicados. Actualmente 42,6% das pessoas com hipertensão têm a doença controlada. Um outro factor preocupante é que uma percentagem cada vez maior de jovens e crianças sofre de hipertensão, o que se atribui ao consumo excessivo de sal aliado à falta de exercício físico e à obesidade.