O poeta do povo morreu há 42 anos

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“Não te quero senão porque te quero/ e de querer-te a não te querer chego/ e de esperar-te quando não te espero/ passa o meu coração do frio ao fogo./ Quero-te só porque a ti te quero/ Odeio-te sem fim e odiando te rogo/ e a medida do meu amor viajante,/é não te ver e amar-te, como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,/ seu raio cruel meu coração inteiro,/roubando-me a chave do sossego,/ nesta história só eu me morro,/ e morrerei amor porque te quero,/ porque te quero amor,/ a sangue e fogo”.

Só uma pequena amostra daquilo que era capaz Pablo Neruda, dos maravilhosos poemas onde cantava a vida, a liberdade, o amor e a alma. Nasceu a 12 de Julho de 1904, em Parral, no sul do Chile, baptizado Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto, nome que mais tarde alteraria legalmente para o pseudónimo literário entretanto adoptado: Pablo Neruda, uma homenagem ao escritor checo, Jan Neruda.

Era o início de uma vida que seria marcada pela militância poética, política e ideológica.

Estátua de Neruda, em Santiago
Estátua de Neruda, em Santiago

Desde cedo que as letras o chamaram: vendeu tudo o que tinha em 1923, para financiar a publicação de ‘Crepusculario’, o seu primeiro livro, a que se seguiriam, em breve, ‘Veinte Poemas de Amor y una cancion desesperada’, que o catapultou para a fama. Os estudos, esses, ficaram pelo caminho: com vinte anos de idade, já sabia que a escrita seria o seu ‘métier’.

Mesmo assim, conseguiu prosseguir uma carreira de diplomata e conhecer muitos países do mundo. Foi cônsul na Birmânia, e depois em Buenos Aires, Argentina, onde conheceria Federico García Lorca. Posteriormente, em Madrid, estabeleceria relações de amizade com o escritor espanhol Miguel Altolaguirre.

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A casa de Neruda em Isla Negra

Fundaram juntos uma revista, a ‘Caballo verde’, de poesia, em 1935. No ano seguinte, o começo da mortandade que foi a Guerra Civil de Espanha cortou cerce os bons tempos que passara naquele país. Registou em crónica as suas experiências do conflito incluindo a execução de García Lorca em ‘España en el corazón’, em 1937.

Partiria depois para Paris,ajudando a realojar refugiados republicanos no Chile.

Em 1938, estava de regresso ao seu país, escrevendo. Foi nomeado cônsul no México em 1939, onde permaneceu por quatro anos. Quando regressou em 1943, juntou-se ao Partido Comunista e foi eleito para o Senado. Mais tarde, o governo chileno viraria à direita e declararia o comunismo ilegal. Neruda foi expulso do Senado e teve de passar à clandestinidade. Foram os tempos de escrita e publicação de ‘Canto general’ (1950).

Hoje em dia ainda se realizam leituras de poemas em casa de Pablo Neruda
Hoje em dia ainda se realizam leituras de poemas em casa de Pablo Neruda

O governo retirou em 1952 a ordem de prisão para autores de esquerda e figuras políticas. Foi a altura em que Pablo Neruda regressou e casou com a sua terceira esposa, Matilde Urrutia. Já fora casado com Maria Antonieta Haagenar Vogelzang e Delia del Carril, mas ambas as uniões tinham acabado em divórcio.

Prosseguiu durante os vinte e um anos seguintes uma prestigiada carreira na literatura que o consagraria como um poeta do povo, mas também amplamente premiado nos círculos académicos e políticos. Recebeu o Nobel da Literatura em 1971.

Morreria em 23 de Setembro de 1973, apenas doze dias depois da derrota do regime democrático do Chile, o de Salvador Allende, presidente eleito, de inspiração socialista. Encontrava-se já gravemente doente com cancro da próstata, algo que o obrigou a terminar a carreira diplomática quando era embaixador em França.

Uma polémica surgiria após a sua morte, com alegações de que Neruda teria sido morto com uma injecção letal por ordens do regime de Augusto Pinochet, quando foi transferido de urgência de uma das suas casas, esta na Isla Negra, uma área costeira próxima, para a capital Santiago. Certo é que a sua casa em Santiago foi devassada e os livros, queimados.Em 2013, os resultados de exames toxicológicos, realizados após a exumação do corpo do poeta, confirmaram que de facto Neruda morrera de cancro.

Foi enterrado no Cementerio General, onde estiveram os mais destacados membros do PC do Chile. Cercados por soldados armados, mesmo assim ouviram-se gritos de elogio a Neruda e a Allende. E ouviu-se a Internacional Socialista. Não faltou quem sofresse as consequências por esse atrevimento.

Foi sepultado na sua propriedade em Isla Negra. As suas memórias foram publicadas póstumamente: ‘Confesso que vivi’.

Para a posteridade deixou um conjunto de obras importantíssimas e singulares, marcadas por uma enorme humanidade e lirismo, apesar das iniciais influências modernistas.