Maria de Jesus, filha do ‘Feiticeiro da Calheta’: o que Max fez “não foi justo”

wpid-feiticeiro-da-calheta-010.jpg.jpegFotos: Rui Marote

A exposição dedicada à primeira Festa das Vindimas, realizada no Funchal em 1938, e na qual assume particular destaque a figura de João Gomes de Sousa, o ‘Feiticeiro da Calheta’, foi hoje à tarde inaugurada no espaço Infoart da Secretaria Regional da Economia, Turismo e Cultura. Presentes, entre outras entidades, estiveram o secretário, Eduardo Jesus, o presidente da Câmara Municipal da Calheta, Carlos Teles, e a única filha de João Gomes de Sousa, Maria de Jesus Gomes de Sousa Agrela.

Há muitos anos residente na Venezuela, esta madeirense está a pensar regressar mais dia, menos dia, à sua terra natal.

Numa breve conversa com o Funchal Notícias recordou como ela própria começou a escrever quadras para o seu pai interpretar em público, ele que, sendo analfabeto, mesmo assim sabia de cor milhares de versos.

“Meu pai dizia: Maria, aprende a ler a escrever, que logo que o saibas, tu é que vais escrever-me os versos. E assim era. Quando eram histórias que se desenvolviam muito rapidamente, da actualidade internacional e que ele queria retratar, como o sequestro do navio Santa Maria, ou a chegada dos astronautas à Lua, ele chamava-me para o ajudar”, recorda.

Como era analfabeto, quando criava versos, ou quando recitava versos criados por outros, como Manuel Baeta, avô daquele que mais tarde veio a ser o presidente da Câmara da Calheta, tinha de repeti-los muitas vezes para os fixar. O auxílio de uma filha letrada foi-lhe, portanto, precioso.

Tanto, que acabou por recompensá-lo com a compra de um colar para Maria de Jesus, que ainda hoje o possui, conforme afirma, sorrindo.

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João Gomes de Sousa acabou por ser o criador dos versos que dariam origem, mais tarde, ao famoso Bailinho da Madeira, celebrizado pelo cantor Max. Este último apropriou-se de algumas quadras do ‘Feiticeiro’ e ganhou muito dinheiro à sua conta, enquanto João Gomes de Sousa permanecia na pobreza da qual nunca tinha conseguido sair. Ele próprio estava consciente da importância dos seus versos, pois Maria de Jesus recorda que o mesmo lhe disse que os preservasse bem, “pois é um grande tesouro que tu tens aí”, afirmava, e de cuja valia só mais tarde as pessoas se aperceberiam.

Na Calheta não era muito fácil o acesso às informações internacionais, que o ‘Feiticeiro’ gostava de retratar nos seus poemas, qual diário da actualidade. A nossa interlocutora recorda que só vinha um jornal para o Lombo do Brasil, onde residiam. Mas quando realizavam a sua leitura, seu pai era rápido a começar a gizar os versos, que Maria anotava. Antes de vierem para o Funchal divulgá-los, tudo era revisto. E já ficavam fixados na mente do autor.

Por causa da situação anteriormente descrita referente ao ‘Bailinho da Madeira’, teve um sério desaguisado com Max. Este último acabou por lhe pagar uma quantia irrisória, por ter utilizado os seus versos como inspiração.

“Tanto dinheiro que ele [Max] ganhou com aquilo, e o meu pai, velhinho e pobre, nada. Não foi justo. Pagou-lhe 20 escudos: uma miséria”, lamenta.