Desde que comecei nestas lides que são a escrita que ganhei tanto mais. Tanto mais bocadinhos de eu, porque me conheço melhor e me observo de fora e, tanto mais do tempo, do tempo de qualidade, do tempo despendido a teorizar e a metaforizar, do tempo em que estou comigo e com este aglomerar de folhas brancas à disposição, que surgem a cada enter dado.
Diz-se que isto da escrita tem muito que se lhe diga, e ainda mais que se lhe sinta, estamos vulneráveis e permeáveis às influências externas (se escolhermos deixar-nos levar) é tudo muito mais visual e mais palpável. E se há dias em que o tempo não pára e avança sem pedir licença, há outros em que parece que não dá tempo, o relógio pára e o mundo gira assim em modo câmara-lenta. Hoje é o dia. Um dia em que eu gostaria de tratar o tempo por “tu” pará-lo ou “mandá-lo à sua vida” e voltar só daqui a uns aninhos, como quem tem um comando para pôr e dispor.
Pois que deve ser isto que todos sentem quando perdem alguém que lhes é muito querido, uma referência para a vida, uma boa parte da sua identidade, um bocadinho do que se é e de tudo o que já se foi. É este desnorteio um tanto-ou-quanto agitado que nos deixa a sentir que estamos em modo: montanha russa de emocional, e que “só mais uma voltinha” pode significar um vómito compulsivo de emoções que nos tolda o discernimento. Hoje é o dia de empatizar (ainda mais) com as perdas de uma vida, de tirar a bata e de perceber que o que fica é precisamente igual a si, sem teorias nem status, igual a si. Porque todos os dias são dias de aprender-aceitar-e-sorrir (nem sempre por esta ordem, mas sempre com este intuito) de anuir a este processo, independentemente do tempo que disponibilizamos a cada etapa.
Hoje é o (meu) dia, e eu por aqui espero, por aqui fico.
Cheila Martins
Membro Efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses
E-mail: cheilamartins@hotmail.com
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