Kirill: o ucraniano que brinca com o tempo

Kirill é natural de Carcóvia, Ucrânia, mas a técnica de vídeo timelapse já o trouxe a Portugal.
Kirill é natural de Carcóvia, Ucrânia, mas a técnica de vídeo timelapse já o trouxe a Portugal. (Foto “Time Lapse Itália”)

Kirill Neiezhmakov é definitivamente um dos “timelapsers” mais promissores e provavelmente o mais jovem artista nesta arte inovadora de imagem em movimento. Esteve na Madeira em maio último para umas curtas férias e já fez furor nas redes sociais com o seu vídeo sobre Portugal.

O Funchal Notícias fez referência ao seu trabalho e à sua paixão pelas viagens a 14 de junho, sublinhando a mais-valia da visita deste jovem ucraniano na promoção da Região, dada o prestígio e admiração que o seu trabalho tem vindo a conquistar além-fronteiras. Na altura, Kirill deixou em aberto a possibilidade de realizar um pequeno filme em timelapse-hyperlapse sobre a Madeira.

Em entrevista divulgada na revista digital “Time Lapse Italia”, o videasta ucraniano fala das suas experiências e da forma como vê o mundo. Para Kirill, o equipamento é secundário. Na área da imagem e do vídeo a precisão e a procura pela excelência são fundamentais. Muito crítico em relação ao seu trabalho, atribui à pesquisa e ao aperfeiçoamento constantes o sucesso alcançado.

Como consegue produzir sequências hyperlapse de forma tão suave e de tão grande qualidade? Qual é o seu segredo?
KN – O meu segredo é um botão chamado “criar obra-prima”, que eu uso sempre no meu trabalho. Tento fazer a próxima imagem muito semelhante à anterior (refiro-me a posição do ponto de focagem).
A precisão é fundamental neste trabalho. Com um bom equipamento, é possível conseguir uma boa estabilização. Eu não tenho dispositivos especiais como um dolly, carros ou gruas. Eu uso apenas o tripé. A minha primeira câmara foi uma Canon SX230, muito compacta, mas com a qual tenho um resultado muito bom.
Metade do material usado na minha primeira gravação em timelapse (Carcóvia 2012) foi com esta câmara. Alguns pensam que o equipamento é o único aspeto determinante neste trabalho. Mas eu julgo que qualquer equipamento é bom desde que se queira fazer algo fantástico. Culpe-se a pessoa, não a câmara!

A fotografia é a sua principal área de negócio? A criação de vídeos em timelapse é uma atividade rentável ou você simplesmente desenvolve este segmento para se divertir?
KN – Há dois anos comecei a fazer timelapse só por diversão. Certo dia, vi um hyperlapse e fiquei muito impressionado. Perguntei-me sobre o que seria necessário saber para fazer algo assim. Comecei a pesquisar alguns materiais, mas encontrei apenas pequenos relatos desta técnica em fóruns.
Hoje temos muito mais informações sobre esta técnica na Internet. Mas há pouco mais de dois anos tive de pesquisar detalhe a detalhe e juntar todas as peças que fui encontrando. Feito este trabalho, fiquei com uma ideia global e comecei a fotografar. É claro que tem falhas, mas o que importa é corrigir e tentar fazer melhor da próxima vez. Ao comparar o meu trabalho com hyperlapses muito bons, procuro sempre analisar o que será necessário fazer no sentido de equiparar em termos de qualidade.
Sempre que fazia fotografias de menor desempenho, dizia para mim mesmo que teria de suplantar o modelo. Esta estratégia permitiu-me continuar a estudar, a tentar diferentes métodos e a comparar os resultados. Logo que consegui cerca de 80 mil fotos decidi fazer um vídeo sobre Carcóvia. Foi meu primeiro projeto. O vídeo final tinha mais 6 minutos (eu usei cerca de metade do material filmado).
Após este portefólio tornei-me um pouco famoso na minha cidade. Tive ainda algumas propostas comerciais. Agora a maior parte do meu trabalho é fazer timelapse. É o que de mais gosto.

É consensual a ideia de que produzir vídeos de timelapse de alta qualidade pode de alguma forma trazer benefícios para uma carreira de autor. Concorda com isso? E se assim for, como é sua vida e carreira mudaram com este tipo de produção?
KN – Sim. O timelapse mudou muito a minha vida. Mas agora eu preciso pensar em algo novo, com a técnica do timelapse, e vai funcionar perfeitamente. Visto que muitas pessoas querem fazer timelapse eu preciso trabalhar ainda mais, de forma a fazer melhor do que a maioria.

Na sua opinião, quem é o maior timelapser que você conhece e admira?
KN – Tenho dois timelapsers favoritos. O primeiro é Artem Pryadko (zweizwei). As suas hyperlapses são de grande qualidade. Muitas das suas obras são referência para mim, enquanto estudiosos da técnica de timelapse. O segundo é Robert Whitworth. Ele tem obras incomuns e muitos detalhes inteligentes. Eu fui realmente inspirado pelo trabalho destes dois artistas.

Há interesse em saber como você percebe o mercado profissional da produção em timelapse, especialmente em seu país. Acha que há margem para se tornar um autor reconhecido e ganhar notoriedade na Ucrânia, ou já existem grandes autores fazendo o mesmo trabalho?
KN – No meu país, esta técnica começa a surgir em alguns programas de televisão e anúncio, mas muitas pessoas ainda não a conhecem. Há quem pense que timelapse se faz como como um vídeo normal, mas um pouco mais rápido. Quando se aperceberam do investimento necessário à produção destes filmes ficaram admirados (na minha cidade, não em outro países). No entanto, a maioria reconheceu que o preço até era justo em comparação com outros produtores de vídeo. O principal problema é a falta de conhecimento sobre esta técnica. Mas tive já  alguns pedidos de outros países (Rússia, França, Israel, Cazaquistão). Espero consolidar o meu trabalho em outros países através de grandes projetos.

Sobre grandes autores na Ucrânia… Acho que temos apenas alguns fotógrafos que realmente fazem bons projetos de hyperlapse. A maioria, porém, tem um nível inferior ao meu. É por isso que a produção de timelapses de qualidade na Ucrânia é algo de exclusivo.

De qualquer forma, acho que mais pessoas irão agora apreciar meus trabalhos e eu vou ter mais oportunidades de viajar e realizar projetos fantásticos!

O que é…

… fotografia timelapse? É, de certa forma, o processo contrário à fotografia de alta velocidade: regista fotogramas intervalados por tempo considerável mas que, vistos em sequência e a uma velocidade normal, tornam evidentes processos que só ocorrem lentamente e não são facilmente apercebíveis por nós. Por exemplo, as mudanças que ocorrem no céu ao longo de todo um dia, ou mesmo o processo de decomposição da matéria orgânica na natureza… é uma técnica que nos permite olhar para o que nos rodeia com outros olhos e ver transformações de uma maneira célere e muito interessante.

… Hyperlapse? É uma técnica cinemática de movimentação de câmara, que vai progressivamente alterando a perspetiva.