Crónica de “quase nada”

Irene-Lucília--iconDe vez em quando fico na expectativa de que uma pequena crónica possa surgir deste meu deambular pelas terras. Nem sempre o que vejo, e o que o ver me suscita, é fácil de expor num texto que possa interessar aos leitores. E por isso convenho em que será melhor reservar-me ao silêncio e à ausência, do que tentar expor-me por conta do vazio. Mas hoje decidi-me arriscar sobre a falta de assunto e recordar apenas aquilo que acontece quando resolvo percorrer um caminho antigo no meio de nada, a não ser casas, poios, ribeiros fundos, veredas íngremes, na escalada duma colina sobranceira à cidade.

Assim, vou ao encontro da frescura da manhã, antes do sol, dos espaços que me definem habitante duma terra de sortilégios, que não se revê apenas nas luminosas piscinas dos hotéis, mas também nas praias ensolaradas de calhau rolado; nas mordomias oferecidas expressamente aos forasteiros, mas também na fruição espontânea duma orografia particular que proporciona, tantas vezes, experiências surpreendentes. Pelas encostas fora a ilha possui uma interioridade expressiva do modo de vida do madeirense remediado que partilha uma dualidade entre o rural e o urbano, aquele que possui uma parcela de terra alcandorada e nela constrói a moradia possível, erguida no socalco, como um pequeno trono onde ostenta o reino dos seus afectos, rodeado duma diversidade de valias, pecúlio modesto, mas suficiente para assegurar uma parte importante da subsistência.

Escolho estes percursos tão próximos e, na sua maior parte, tão desconhecidos, para sentir a vida na mais pura asserção do seu significado : “ Sentido que anuncia e interpreta o mundo”. Descubro então uma multiplicidade de perspectivas que a paisagem vai oferecendo, à medida em que se galga uma rampa, ou se desenha uma curva, se encontra uma casa envolta em vinha, um minúsculo terraço que mais não serve senão para respirar mais alto, ou suster uma planta – martírio, de onde pendem maracujás. Depois a subida acentua-se e surgem três andares suspensos no abismo com varandas à volta e uma infinidade de flores, flores de todas as cores, verdes de todos os matizes. A altura da encosta não conta. Lá em cima, há um caminho largo que facilita uma entrada mais cómoda. Por isso as casas sobem. Vão à procura de caminhos.

Dos pontos mais recônditos desprendem-se os sons: vocalizos de um galo tenor, cacarejos assustados, um balido desgarrado, o rosnar raivoso, talvez de um cão pastor, o latido metálico dum rafeiro. O resto são prolongados silêncios, o cheiro a feno de algumas zonas baldias e a longínqua vaga fétida de qualquer galinheiro. Sinais de presença que distinguem o lugar. Detenho-me na observação das ervas. Ervas das mais variadas espécies, um emaranhado de herbáceas entre as ainda vivas, as murchas e as mortas, uma teia densa e complexa que, apesar do evidente abandono, me traz à lembrança outros olhares que não apenas o meu. Movido pela acutilância visual dum pintor, o gesto de olhar as ervas pode extrair delas espantosas minúcias, impensáveis profundidades, grafismos delicados. Albercht Dürer possuía esse saber ver, para além da macro forma das coisas, a espectacularidade do pormenor, o infinitamente pequeno, o microcosmos que se ampliava aos seus olhos com a importância do grandioso.

Enquanto subo a rampa revejo a obra do pintor onde esse dom de observar se regista de modo particular: O Grande Pedaço de Relva, ou simplesmente O Dente-de Leão, onde se identificam claramente a Tanchagem, o Malmequer, ou Margarida, o Dente-de-Leão, uma pequena bananeira e várias gramíneas. Dürer baseou o seu trabalho na observação profunda da Natureza por influência do filósofo e cientista medieval Alberto Magno, dominicano venerado como santo pela igreja católica e estudioso de Aristóteles, com obra de destaque introduzida no debate académico na Universidade de Paris , antecessor e professor de Tomás de Aquino, os dois, figuras eminentes do pensamento humanista.

O Grande Pedaço de Relva despertou em José Saramago uma belíssima página literária, em que o escritor traduz por palavras o que Dürer procurou fixar nesta aguarela. É este entrecruzar de experiências que acorda nos curiosos e atentos a vontade de “conhecer”. As paisagens, por mais vulgares que pareçam, contêm para quem as procura, o que o olhar consagra como mensagem da Criação. E foi este o objectivo do pintor ao realizar esta obra, veiculadora da intencionalidade de toda a sua pintura. Afirmam os académicos que, apesar do caos aparente, a disposição das plantas e a combinação entre elas dispõem no quadro um senso de ordem que o fundo claro faz realçar. Há nele uma nítida ideia de chamar a atenção para o que para muitos poderá significar, somente, anarquia e insignificância.

Prosseguindo, vereda fora, concebo este louvor à manhã e à terra, e, ao deixar seguir livremente os passos por entre raras casas e socalcos esquecidos, dou por bem vivido este meu tempo da ilha. Pedaços de paisagem onde me sinto feliz. Lugares de “quase nada” onde tantas vezes, de verdade, me encontro.

É assim, nesta espantosa ascensão dos sonhos, que vivem muitos dos nossos conterrâneos, arquitectos duma exacta medida de haveres que mantém a autêntica fisionomia da terra, aquela que mais a caracteriza como paisagem original, distinta e humanizada.


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