“Estou preocupado com o que está a acontecer às forças de segurança em Portugal”

MARITIMO vs ACADEMICA
Adelino Camacho é o novo coordenador regional da ASPP-PSP.

 

Chama-se Adelino Oliveira Camacho, é subcomissário da PSP e a partir de agora é ele o rosto mais visível da defesa do sindicalismo policial na Madeira. Sério, compenetrado, é todavia também capaz de extroversão e diversão – no gosto que cultiva pelo desporto, na prática do atletismo e chegando ao expoente descontraído de até desfilar, mascarado,no Carnaval. Investido das funções de secretário nacional da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP) e, por inerência, coordenador da mesma na Região, vem substituir o ‘histórico’ Jorge Silva. Diz-se consciente da “muita responsabilidade” que carregará sobre os ombros. Mostra-se enfático quanto à necessidade de resolver os problemas que afectam o quotidiano policial, satisfeito por se terem ultrapassado os tempos em que as hierarquias viam com desconfiança o sindicalismo nas forças policiais e preocupado, à escala global, com o aumento da insegurança das populações face a desafios tão complexos como o terrorismo. O Funchal Notícias apresenta uma entrevista com este oficial, que comanda na Região a Unidade Especial de Polícia (UEP), que inclui o Corpo de Segurança Pessoal e outras unidades, no dia em que, na sede da ASPP/PSP-Madeira, às 12 horas, tomam posse os novos secretários de divisão e respectivos delegados sindicais dos serviços e esquadras do Comando Regional da Madeira (na ocasião, estará presente o presidente da Direcção Nacional da ASPP-PSP. Paulo Rodrigues).

Funchal Notícias – Como novo coordenador regional da ASPP, que responsabilidade julga cair agora sobre si?

Adelino Camacho – Sou secretário nacional da ASPP-PSP, que por sua vez superintende a ASPP a nível regional, sendo por inerência coordenador regional. A responsabilidade deste cargo é grande e muito abrangente, mas não é nada que eu não conheça. No entanto, reconheço que não é fácil, porque, para além da exigência do meu trabalho no dia-a-dia, tenho que encontrar tempo parta me dedicar à causa  e aos problemas que afectam a nossa Polícia e o nosso Comando Regional.

FN – Que balanço faz da gestão anterior?

AC – Na verdade, fez muito por nós. E em tempos muito difíceis, em que o sindicalismo não era aceite, nem era do agrado dos nossos superiores, e muito menos da estrutura governamental. Com o passar dos anos, este mentalidade foi mudando e hoje em dia, para mim, é para mim um dos pilares da democracia. Na minha opinião, e na opinião da grande maioria dos profissionais da PSP no Comando Regional, o Jorge Silva foi o nosso guia. Foi quem abriu todos os caminhos, inclusive na mudança de mentalidades. Lembro-me de que quando cheguei ao Comando, os sindicalistas só podiam falar nos corredores.

FN – O que atraiu um comissário para o sindicalismo, nem sempre bem acolhido pelas hierarquias?

AC – A grande maioria da hierarquia da PSP é sócia dos sindicatos existentes em toda a nossa estrutura. Muitos deles ocupam cargos de dirigentes sindicais de norte a sul, incluindo as ilhas da Madeira e dos Açores. De facto, em tempos isto não era bem visto nem aceite, mas hoje em dia é uma situação normalíssima. Anormal seria não existirem oficiais nas estruturas sindicais. Os nossos problemas são transversais a todas as categorias. Daí achar que é interessante lutar interna e externamente por direitos que são nossos, que já tinham sido adquiridos há décadas, e que ao longo do tempo foram sendo retirados de forma injusta. A função de sindicalista é vista como uma motivação, para não perdermos mais regalias que foram difíceis de conquistar, e para nos ajudarmos uns aos outros, independentemente do sindicato ao qual pertençamos.

FN – A luta para a afirmação de uma entidade capaz de defender os direitos da polícia civil foi longa, talvez precisamente porque muitos entendiam a PSP como uma força militarizada ou paramilitar, sujeita a um tipo de disciplina que não admitia veleidades de sindicalismos. O anterior presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim, era uma destas pessoas, e manifestou-se repetidamente contra o sindicalismo nas forças de segurança. Acha que foi mais difícil para a ASPP e o movimento que a precedeu implantar-se na Madeira do que no continente?

AC – É verdade que o percurso do sindicalismo na PSP e nas forças de segurança no seu geral foi longa e de difícil gestão par a hierarquia, bem como para a tutela. Gostaria de realçar que, do nosso ponto de vista, a PSP não é nem pode ser uma força militar, isto apesar de estar uniformizada e armada. No entanto, com o evoluir dos anos e em especial a partir do ano 2000, temos conseguido acompanhar a maioria das polícias europeias, embora reconheça que ainda estamos um pouco “atrasados” ao nível não só da remuneração mas também a nível de equipamentos… e, claro, no facto de não termos consignado o direito à greve na Constituição, nas nossas leis orgânicas e estatutos. Greve que, obviamente seria exercida garantindo o normal funcionamento da instituição, sem pôr em causa a segurança, a paz pública e a salvaguarda dos bens dos nossos concidadãos.

Relativamente ao anterior presidente do Governo Regional, conheço perfeitamente a opinião do senhor ex-presidente, dr. Alberto João, e fiquei sempre com a sensação de que se referia a situações de protestos na rua com polícias uniformizados, e não propriamente à existência do sindicalismo nas forças de segurança. Muito sinceramente, ninguém gosta de ver polícias fardados na rua a protestar e ainda por cima, colegas contra colegas, como já aconteceu num passado recente. Até eu não gosto de assistir a este cenário, que pode comprometer a nossa própria função e ferir a Constituição. Pode mesmo provocar um sentimento irreversível de insegurança.

Naturalmente que a ASPP-PSP teve momentos difíceis em todo o território nacional e a Madeira não fugiu à regra. No tempo do Jorge Silva, muitas vezes, os polícias, para falarem de qualquer assunto de natureza sindical e de carácter reivindicativo, tinham de se esconder e não podiam ser vistos em grupo, caso contrário eram severamente ‘perseguidos’. Felizmente, hoje em dia isto já não acontece.

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Com Cristiano Ronaldo, de quem diz ser amigo. O subcomissário dirige na Região a Unidade Especial de Polícia, que inclui os guarda-costas das personalidades

FN – Como avalia a actual liderança da PSP do ponto de vista da relação com os sindicalistas, e que espera da anunciada futura comandante (Madalena Amaral, segundo noticiou o DN-Madeira)?

AC – Directamente e sem rodeios, a actual liderança da PSP no Comando Regional da Madeira é, na generalidade, positiva. Seria absurdo da minha parte dizer que não, apesar de ser ‘suspeito’. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Infelizmente nos últimos anos temos tido comandantes regionais que estão apenas meses no Comando Regional e isto não chega. Felizmente o senhor superintendente Miguel Mendes cumpriu a sua comissão de serviço, tendo por isso tido algum tempo para efectuar as mudanças que achou mais convenientes para o CRM. Esteve bem em muitos processos, tal como na reivindicação do protocolo das coimas, que por direito era dinheiro da PSP resultante das infracções ao Código da Estrada, bem como no apetrechamento dos meios materiais da Força Destacada da Unidade Especial de Polícia, na criação do Grupo Operacional Cinotécnico e todas as infraestruturas realizadas na base da Penteada. Todos temos qualidades, virtudes e defeitos. O Sr. Comandante Regional não foge à regra, mas no cômputo geral esteve bem, porque teve tempo para conhecer as pessoas e os seus profissionais, e quando é assim é mais fácil gerir um comando.

Relativamente à pergunta do novo comandante regional, digo apenas que o nosso comandante regional é o superintendente Miguel Mendes… tudo o que foi dito e escrito não é oficial.

FN – A frota automóvel foi renovada. De que outros meios necessita urgentemente a PSP?

AC – Como disse na resposta à pergunta anterior, a PSP recebeu meios materiais oriundos do Governo Regional  no âmbito do protocolo… uma percentagem do dinheiro das coimas é da PSP e como tal foi aplicado, e segundo sei vai continuar a ser. Mas já é tempo do Ministério da Administração Interna preocupar-se com o Comando Regional da Madeira, que existe e tem muitas carências. Precisa urgentemente de outro material para além de algumas viaturas para equipar os profissionais, nomeadamente na vertente das comunicações. Os nossos rádios emissores-receptores têm dado algumas dores de cabeça. Mas ainda mais importantes seriam os melhoramentos nas instalações, por exemplo nas esquadras da Ponta do Sol, Santa Cruz, Machico e em Porto Santo, que estão completamente degradadas.

FN – Neste momento, quais são as principais reivindicações dos polícias?

AC – São muitas e transversais a todo o território nacional: para além do tão aguardado Estatuto Profissional (pré-aposentação e aposentação, bem como os escalões de remuneração, passando pelas promoções), a própria Lei Orgânica e especialmente na assistência na doença e regulamento disciplinar completamente obsoleto. Do meu ponto de vista ainda é mais gritante a situação do SAD (Serviços de Assistência na Doença): na Madeira e nos Açores não há praticamente médicos especialistas previstos. Não consigo perceber porquê, uma vez que todos pagamos o mesmo valor que os colegas do restante território nacional. Considero, aliás, que estes dois últimos pontos serão aqueles em que a ASPP-PSP regional vai apostar ao longo deste triénio (2015-2018) por forma a minimizar este problema que está a afectar a todos, mas especialmente aos nossos colegas aposentados. A intenção de total mudança do regulamento disciplinar é um dos baluartes da nossa equipa. Não posso também deixar de referir o famoso subsídio de risco e de insularidade que os polícias bem merecem, e que será novamente abordado e reivindicado por nós.

Outro dos problemas do CRM é a exigência da tutela das 40 horas semanais para o pessoal das secretárias. Exigimos rapidamente que sejam aplicadas as 36 horas semanais. Por incrível que pareça, nem sequer fomos consultados sobre esta matéria, o que é de lamentar. O Ministério da Administração Interna tem de definir de uma vez por todas o que quer aplicar aos polícias: ou aplica o regime da Função Pública à PSP (que a ASPP pediu inclusive a inconstitucionalidade) mas que seja aplicado no seu todo, com os deveres mas também com os direitos, pagando entre outros, horas extra, noites, feriados e fins-de-semana, direitos estes que sempre foram vedados aos polícias… ou segue a nossa opinião, a de que temos de ter um regime específico, de acordo com as nossas particularidades, e que em tempos o MAI admitiu ser uma mais-valia para o país.

FN – Como está actualmente a adesão ao movimento sindical na PSP-Madeira?

AC- Tem sido normal, como nos anos anteriores. Isto embora existam muitos sindicatos. Creio que já vai nos 14. Sem querer beliscar nenhum nem ser desbocado, isto não faz sentido. Desculpem-me a sinceridade, mas deviam existir apenas dois a três sindicatos fortes e dinâmicos. Seria mais fácil negociar com a tutela.

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O atletismo é um dos seus gostos pessoais

FN – Existe uma divergência de interesses ao nível sindical entre agentes e oficiais?

AC – Se esta pergunta fosse feita nos anos 90, respondia-lhe nitidamente que sim. Hoje em dia,  já não acontece muito. Existem muitos oficiais noutros sindicatos que não exclusivamente o sindicato afeto a oficiais, como é o caso da ASPP-PSP. Reconheço que existem divergências, em especial em alguns artigos propostos para o novo Estatuto da PSP, nomeadamente na progressão na carreira.

FN – Chefia na Madeira a Unidade Especial de Polícia (UEP) com competências e atribuições próprias e exigentes. Continuará a fazê-lo? Consegue conciliar essas actividades sem problemas, com o exercício do sindicalismo?

AC – É verdade que chefio a Força Destacada da Unidade Especial de Polícia, que engloba o Corpo de Segurança Pessoal, as Equipas de Inactivação de Engenhos Explosivos e Segurança em Subsolo e o Grupo Operacional Cinotécnico. Acumulo também funções no Núcleo de Formação do Comando Regional da Madeira. Tal como os outros serviços do comando, tem competências e atribuições próprias e exigentes, mas cada uma na sua especialidade. Nada é incompatível. O sindicalismo, além de estar consignado na lei, só é praticado depois de cumprir o meu horário normal de serviço e às vezes na hora de almoço. Já faço isto há vários anos, pelo que não é nada de novo para mim.

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Numa entrega de prémios na PSP: atrás de Adelino, o então presidente da CMF e hoje chefe do Executivo madeirense, Miguel Albuquerque

FN – Quem é o subcomissário Adelino? Quais os seus interesses e hobbys? Como escolheu a profissão de polícia?

AC – Sinceramente, não gosto de falar de mim. Prefiro que sejam os meus superiores hierárquicos e os meus colegas a fazê-lo. Posso apenas dizer que sou uma pessoa normal, divertida e acima de tudo, um profissional de polícia. Não considero que o posto seja o mais importante, mas sim o brio, a dedicação e a vontade de ajudar os outros. O trabalho de equipa é fundamental para o sucesso. Como gosto de desafios, não olho para trás, mas simplesmente para a frente. Hobbys, tenho alguns, muitos, mas prefiro guardá-los para mim. Quem me conhece sabe perfeitamente do que falo. Desporto, obviamente que gosto, sem desporto não conseguia viver.

A escolha da profissão também foi interessante e disputada. Aos 18 anos alistei-me no Exército como voluntário. Estive 7 meses em Cascais no CIACC-Cidadela (Centro de Instrução de Artilharia Anti-Aérea). Vim posteriormente para o Funchal, para o antigo GAG-2, onde fui instrutor, pois desempenhei a função de furriel miliciano. Entre os 19 e os 20 anos, concorri a uma série de empregos, desde bancos e empresas à PSP. Passei nos testes físicos, escritos e psicotécnicos e voltei para o continente, para a Escola Prática de Polícia (EPP). Uma vez na Escola, recebi uma notificação de um banco, dizendo que eu tinha passado nos testes e pedindo-me que me apresentasse para trabalhar. Renunciei ao banco porque já estava a gostar da PSP e ainda bem. Acho que fiz a escolha certa. É verdade que ser polícia é sempre um risco iminente, mas o prazer e o gosto de ser polícia ainda é maior.

Estou preocupado com o que está a acontecer às forças de segurança em Portugal. O nosso problema não é só o défice, não é só o euro, não é só a dívida… Não podemos estar desmotivados e preocupados com coisas banais. Sem querer ser pessimista, vejam bem o que está a acontecer ao mundo, em especial o terrorismo… Isto sim, é preocupante. Por isso precisamos que as forças de segurança façam o seu trabalho na sua plenitude para podermos evitar este flagelo que dia após dia está a atormentar o nosso planeta. Por favor, reflictam sobre isto.