O recuo de Portugal no tempo

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Diz o senso comum que as famílias devem tentar poupar quando estão empregadas, para poder gastar quando, por algum acaso, ficam sem o trabalho ou quando surge uma emergência. Muitos dirão que o mesmo se devia passar com o país. Ou seja, os governos devem ter uma atitude contra-cíclica em relação à evolução da economia. Isto é, o país deve poupar (cortar nos gastos públicos, aumentar impostos) nos tempos bons, de forma a poder adoptar uma política menos restritiva nos tempos menos bons. Ao “injectar” dinheiro, adoptando uma política orçamental expansionista, isto é aumentando a despesa pública e diminuindo os impostos, o Estado promove o crescimento da economia. Apesar da extrapolação do particular (a família) para o todo (o país) não ser correcta em economia, a verdade é que a política contra-cíclica faz sentido.

Contudo, o país tem passado por momentos difíceis, e uma vez com a aceitação da troika no país, o governo teve de aceitar as imposições feitas por esta trindade económica. O Governo de Portugal portou-se assim de forma pro-cíclica (cortando a despesa e aumentando impostos em tempo de recessão), o que teve consequências desastrosas na economia e na vida das pessoas.

Uma ideia a ter em conta, quando acontece uma recessão no país, é que é normal que os valores importantes do desenvolvimento do país “regridam”, devido ao impacto negativo que o desempenho da economia tem. Neste artigo vou analisar quanto o nosso país “recuou no tempo”, fazendo uma comparação dos valores registados em 2013 com os que foram registados anteriormente.

Começando por analisar os dados relativos à taxa de risco de pobreza (após transferências sociais), observa-se que os valores em 2013 foram de 19,5%, procurando na base de dados um valor semelhante, constata-se que um valor próximo se encontra em 2004, com 19,4%. Isto significa que os esforços do governo para reduzir esta taxa regrediram nove anos.

Atendendo ainda nas famílias, os dados da poupança bruta de 2013 (10 545,5 milhões de euros), são comparados com os valores de 2001 (10 536,8 milhões de euros). A diferença de anos entre estes dois valores é de doze.

Observando a taxa de desemprego de 2013 (16,2%), não se consegue encontrar valor semelhante na base de dados do PORDATA, sendo que nesta estão registados dados desde 1983, ou seja, em trinta anos a taxa de desemprego atingiu valores recorde. Sendo esta taxa uma das possíveis explicações para a regressão da taxa de pobreza e da poupança bruta das famílias.

Tendo o país uma taxa de desemprego tão alta, não é de admirar que a emigração aumente, o que explica os valores da emigração total registados em 2013 que foram de 128 108 indivíduos, sendo este valor comparado com os níveis de 1966 (120 239 indivíduos), ou seja, houve um recuo de quarenta e sete anos. Porém, observando a emigração total melhor, vê-se que se decompõe em emigração permanente e emigração temporária. Relativamente aos últimos anos, constata-se que são maior o número de pessoas que emigra temporariamente do que as que permanecem no estrangeiro, o que significará que os emigrantes temporários possam trazer para o país novas ideias e Portugal não perde assim o seu capital humano.

Quanto ao investimento em formação bruta de capital (isto é, a ampliação da capacidade produtiva futura de uma economia), o total em 2013 foi de 24 706,5 milhões de euros, que só pode ser comparado com os níveis de 1996 com 22 452,3. Ou seja, houve um retrocesso de 17 anos. Observando ao pormenor repara-se que o investimento em formação bruta de capital se divide em privado e em público, sendo o investimento privado constantemente superior ao público. Constata-se também que o investimento privado tem diminuído desde 2008, podendo significar uma fuga de capitais devido ao rebentamento da crise.

Relativamente às despesas na educação, em 2013 foram de 7 108,4 milhões de euros, sendo comparável com os níveis 2004 (7 132,1 milhões de euros), ou seja, nove anos de diferença entre estes valores. Porém, a verdade é que o investimento na educação andou sempre, nestes últimos anos, por volta dos 7 000 milhões de euros, tendo atingido o seu pico em 2010 com 8 559 milhões de euros. Quanto às despesas feitas na saúde, observa-se um declínio de 9 anos, entre 2013 (8 588,8 milhões) e 2004 (8 454 milhões).

Estes retrocessos nos importantes valores da economia foram o resultado não só da recessão de 2008 como também da austeridade imposta, uma vez que esta teve efeitos imediatos e nefastos na economia. Apesar de tudo é expectável que haja crescimento da economia no futuro próximo. Contudo, infelizmente, na minha opinião, serão precisos anos para que os melhores valores registados na economia portuguesa voltem a constar nas bases de dados estatísticas nacionais.