Wolinski: recordar quem morreu pelo cartoon

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É uma exposição notável, e a merecer indubitavelmente uma visita. Wolinski, cartoonista rebelde toda a vida, uma referência do contra-poder e da irreverência em França, é evocado numa exposição temporária patente no Museu de Imprensa, em Câmara de Lobos. Um espaço em boa hora aproveitado para recuperar a memória dos antigos métodos de impressão tipográfica, através do restauro de múltiplas máquinas utilizadas para esse fim, que constituem um conjunto assinalável pelo significado e pela importância que já tiveram na imprensa regional.

Quanto à importância de Georges Wolinski numa coisa muito singela e tão mal compreendida mas necessária em comunicação social – a liberdade de expressão – cumpre recordar que foi um expoente da mesma e que, em conformidade, acabou a sua existência por causa dela: foi um dos cartoonistas fuzilados por fogo de Kalashnikov a 7 de Janeiro último, na redacção do jornal satírico Charlie Hebdo. Juntamente com nomes sonantes do jornalismo irreverente francês como Charb, Cabu, Honoré e Tignous, entre vários outros, tombou devido ao poder dos seus desenhos, e das ideias que defendia.

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Wolinski não era um qualquer: dizia que o humor era o caminho mais curto entre duas pessoas e vivia por causa dele e em função dele. A sátira era poderosa, e abalava, como poucas armas, as instituições mais sólidas. França, país com um forte pendor racionalista mas por vezes conservador, teve o mérito de lhe reconhecer o alcance do génio e da obra: Jacques Chirac, então presidente da República, agraciou-o em 2005 com a comenda de Cavaleiro da Legião de Honra. Conquistou também o Grande Prémio da cidade de Angoulême, durante o 32º Festival de Banda Desenhada. Portugal contou com a sua prestimosa colaboração durante uma década (de 2004 a 2014), quando exerceu as funções de presidente do júri do PortoCartoon – World Festival. Além do mais, foi um forte apoiante da criação do Museu de Imprensa no nosso país, e nele esteve múltiplas vezes, inclusive na companhia da então ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima.

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Colaborou com uma lista impressionante de publicações, como Hara-Kiri, que posteriormente daria lugar ao Charlie Hebdo; L’Enragé, jornal que fundou com Siné, durante a crise do Maio de 68; L’Humanité; Libération; Le Nouvelle Observateur; L’Echo des Savanes, entre outras. Isto para não falar dos seus livros, de argumentos para filmes, de textos para teatro.

Esta exposição patente em Câmara de Lobos, vinda do Museu Nacional de Imprensa, inclui numerosos desenhos originais de Wolinski, além de livros, revistas e múltiplos jornais Charlie. Conforme salienta Luis Humberto Marcos, que comissariou a exposição original no Museu Nacional de Imprensa, a mesma mostra o traço singular do autor de humor mais editado em França.

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“Georges Wolinski ultrapassou o tempo de Daumier (40 anos) no exercício da profissão de jornalista. Fez do desenho humorístico o melhor conceito da crónica jornalística. Atuou com o lápis aguçado sobre poderes, preconceitos e tabus. Nele, a figura da mulher raramente está ausente. Wolinski tem o sumo prazer em desnudar a mulher. E fá-lo elegantemente. De forma obsessiva, quer vê-lo belo, provocante, atrevido, sensual”. O percurso profissional aqui retratado, de muitas décadas, resulta porém numa “pequena exposição sobre um longo traço inconfundível, vibrante, de humor corrosivo e libertino. Também poético”.

Sublinha também Luís Humberto Marcos: “Em 2012 o Museu Nacional da Imprensa apresentou, no Porto, a 1ª exposição dele fora de França. Wolinski esteve presente e combinámos fazer outras mostras. A Madeira estava no horizonte e ele manifestou vivo interesse em vir abri-la. Ceifaram-lhe a vida. Fica a torrente de humor”.

O também director do MNI frisa que esta mostra constitui, também, uma homenagem aos jornalistas assassinados durante o ‘massacre de Paris’. “Mas é sobretudo o sinal de uma evidência: Wolinski-inconformista, fica para a história como um esteta do humor e do amor!”.

A exposição bem o sublinha. Lourenço Freitas é o responsável pelo Museu de Imprensa de Câmara de Lobos e em boa hora conseguiu trazer esta mostra à Madeira. A sua actualidade é incontestável: o poder do cartoon está na ordem do dia, a defesa do jornalismo satírico foi assumida sem ambiguidades pelo povo e pelo governo francês e congéneres europeus e o fundamentalismo religioso, que entende ser aceitável perseguir e/ou assassinar pessoas por fazerem desenhos “ofensivos”, inequivocamente condenado.

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