Figuras públicas rendidas a animais desde Einstein a Amália

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Rosário Martins

Uma empatia com os animais desde que se conhece. É assim que Thomas Dellinger se posiciona em relação aos animais, não só domésticos. Não é por acaso, aliás, que escolheu a profissão de biólogo e se especializou em “Etologia”, a ciência do comportamento animal.

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Na sua casa, este professor universitário tem uma cadela labrador e três gatos vadios que decidiu acolher (dois machos e uma fêmea). Todos estão esterilizados.

Dellinger é um estrangeiro que abraçou a Madeira para viver e trabalhar. Sabe que há quem trate bem os animais, assim como quem trata mal. Reconhece que “ainda se vê com frequência cães presos a correntes de menos de metro, gatos e cães desnutridos, animais errantes na urbe e ferais no campo”.

O nosso interlocutor aproveitou a iniciativa inédita da Câmara Municipal do Funchal, denominada Orçamento Participativo, para propor um Projeto de Monitorização de Cães e Gatos (domésticos, errantes e ferais) para o concelho do Funchal.

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Na sua ótica, a problemática dos animais domésticos é típica das sociedades modernas. “Por um lado, os animais domésticos de companhia, em especial cães e gatos, têm funções importantes de melhoria da qualidade de vida das pessoas, desde a saúde psíquica até à saúde física, incluindo o controlo de pestes como ratazanas e morganhos. Por outro lado, um excesso de animais de companhia cria pressões sobre a sociedade e o ambiente. O abandono dos animais, os quais se constituem errantes e mesmo ferais, tem impactos sobre a segurança de pessoas e bens (mordeduras, acidentes de viação), assim como sobre a fauna autóctone (predação a lagartixas, aves, etc.), em que, a condição de ilha, com a sua maior vulnerabilidade ambiental e ecológica, ainda aumenta, podendo mesmo levar à extinção de espécies. Acresce que a imagem de destino turístico de excelência sofre com turistas a alertarem e intervirem relativamente ao problema dos animais errantes”.

Quais as soluções?

O biólogo está habituado a intervir nos problemas com método e racionalidade. Por isso mesmo, a elaboração de um plano de ação para minimizar estes problemas implica, primeiro, “estimar os tamanhos populacionais destas espécies e, em segundo lugar, estimar e monitorizar as suas trajetórias numéricas populacionais. Em terceiro lugar, é necessário saber quais os ambientes que preferem e, em quarto, apurar que densidades se podem encontrar em cada um deles. Em quinto lugar, é preciso saber o impacto que cães e gatos têm sobre a fauna autóctone, determinando a dieta de animais errantes e ferais, assim como o sucesso e impacto da caça dos gatos domésticos”.

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Por outras palavras, o professor universitário recomenda como essencial “saber o tamanho do problema para poder, com o melhor conhecimento possível, delinear estratégias apropriadas e eticamente aceitáveis para o minimizar”.

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Por isso, a proposta de Thomas Dellinger, incide sobre três eixos de intervenção:

  • Projeto-piloto de 1 ano para estabelecer e afinar metodologias de censo.
  • Procura de parceiros noutras cidades europeias de forma a estabelecer um consórcio para aplicar a financiamento Europeu.
  • Projeto principal de acordo com o programa de financiamento disponível.

Liliana: “eles vivem muito pouco”

Liliana Rodrigues é outra apaixonada incondicional pelos animais. A professora universitária e atual eurodeputada no Parlamento Europeu, eleita pelo PS, recusa colocar a questão no sentido de preferir os animais às pessoas. Há que relativizar as coisas. “Eu não colocaria as coisas nesses termos. Conheço pessoas espantosas. Seres humanos únicos dispostos a fazerem valer aquilo que nos orienta na nossa humanidade: os valores da liberdade e da igualdade. Quando oiço dizer que os animais são mais leais do que as pessoas fico sempre muito surpreendida. As pessoas também são leais. Umas mais que outras. Mas ainda existem pessoas assim. Eu tenho essa sorte. Se pensarmos mais profundamente e se levarmos a discussão a um outro nível, de facto somos todos animais e todos queremos o nosso espaço, o nosso lugar no mundo. E todos queremos ter quem cuide de nós. Os animais são capazes de o fazer de uma forma espantosa. Agora há uma coisa de que tenho imensa pena em relação aos cães e aos gatos: vivem muito pouco”.

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Outra questão de fundo reside em saber o que pode ser feito em defesa da causa animal. Neste âmbito, Liliana Rodrigues considera que “há ainda um longo percurso a fazer em relação à causa animal”. Sem dourar a pílula e no seu estilo habitualmente frontal, coloca o dedo na ferida: “De facto, não há nem nunca houve uma verdadeira política animal (não apenas na Madeira mas também em Portugal). O abate constante de animais é sintoma disso. Por outro lado, vendo as condições em que se encontram esses animais, nos supostos abrigos, penso que devemos fazer uma séria reflexão e discussão sobre a eutanásia animal. Se é verdade que o abandono é um drama, não menos verdade será que nunca se fez tanta campanha como agora pela adoção. A criminalização dos maus tratos a animais é um sinal de que há vontade política de mudar a situação. Mas é preciso mais. Bem mais. É preciso mais educação, mais sensibilização e mais civismo. É preciso, por exemplo, oferecer condições para que as famílias que têm animais domésticos possam esterilizá-los. Garantir que as despesas de saúde de cães e gatos sejam incluídas numa rubrica específica em termos de despesas fiscais. É preciso mais coragem política”.

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O atual panorama não é muito favorável aos animais. Mas poderia ser bem pior. Liliana Rodrigues recorda-o: “A situação dos animais, e insisto nos cães e gatos, só não é pior porque muitas associações e gente de bem olham por eles”.

Falando de perdas. É possível fazer o luto por um animal? A resposta da nossa interlocutora é curta mas significativa: “Se passasse quase 20 anos com um ser vivo não choraria a sua morte?”

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 As atuais funções da deputada, em Estrasburgo e Bruxelas, privam-na da companhia dos seus animais. “Viajo demasiado para exigir isso de um gato ou de um cão. Quando adotamos um ser vivo é para lhe dedicar parte da vida. Aqui não me é possível”. Por isso, as saudades são inevitáveis: “Sinto muito a falta dos meus animais. Um já está comigo há 11 anos. Tenho dois gatos (um casal, Tigre e Serena) e três cães (duas fêmeas, Corisca e Amália, e um macho, Fidel) na Madeira. A Amália (cadela branca) foi a minha prenda de Natal. Estava a morrer no Paúl da Serra. Foi abandonada”.

Um Einstein na família Prada

José Prada é outro adepto dos animais, para além do Direito e da política, claro está. Não se cansa de mostrar o seu cão nas redes sociais, tal a afinidade que mantém com estes seres vivos. “Desde sempre tive animais. Na casa dos meus pais, tivemos variadíssimos cães (desde rafeiros aos de raça), papagaio, pássaros, peixes e outros. Também tivemos um cavalo (o Taipira) que foi vendido quando fui estudar para Lisboa. Ou seja, desde criança adoro animais”.

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Neste momento, faz-lhe também companhia um Jack Russel, o Einstein de Alterrial. “É um cão escolhido pela minha filha, Maria Margarida, que está com a família faz 3 anos. Costumo dizer a brincar que é o meu neto. Faz parte da família e é nosso companheiro e dos meus pais”.

Tem uma visão otimista sobre a relação dos madeirenses com os animais, apesar de não ser a ideal. “As pessoas gostam muito. Basta dar uma volta pelas ruas e é rara a casa que não tem um cão. O madeirense trata bem os seus animais. Infelizmente, começa a haver alguns cães abandonados. Fico triste com esta situação e espero que não aumente. Basta haver um animal abandonado que não é bom. É mesmo preocupante”.

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Os gastos com os animais também não são de modo a onerar orçamentos. Neste momento, como tem apenas o Einstein gasta “o normal” com “a ração, veterinário e banhos”.

Afinal, o amor tudo supera, desde gastos a contrariedades.

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