Beirute – a cidade que recusa desaparecer

Ao passear pela cidade é comum deparar com vários locais e prédios parcialmente destruidos por bombas
Ao passear pela cidade é comum deparar com vários locais e prédios parcialmente destruidos por bombas

Rui Marote (texto e fotos)

Também sou filho de Deus!

Já na sala de embarque em Dhaka, Bangladesh, surge uma surpresa. A Emirates, companhia dos Emirados Árabes Unidos, convida-me a viajar em Business Class. Uma dádiva que caiu dos céus em solo muçulmano. No interior do Boeing 777-300 e na poltrona 5b, começava a instalar-me. Eis que surge uma hospedeira lourinha de olhos azuis, e que num inglês de Oxford dá as boas vindas e faz uma demonstração de como devo utilizar as ferramentas digitais ao meu dispor. O plasma nas costas do cadeirão a minha frente e o iPad no meu lado esquerdo, os comandos do cadeirão que até faz cama, e a documentação incluindo o menu e  a programação televisiva.
Calmamente passo os olhos pelo menu e selecciono os pratos e bebidas preferidas num manjar dos deuses a deliciar-me durante o voo EK 587.
Avião em rota de cruzeiro, e como aperitivo um Chivas Regal de 18 anos com caju, amêndoas,passas, amendoins e pinhões.
Surge novamente a hospedeira e, com dificuldade, digo -lhe que o meu Inglês era da Dona Gabriela que insistia na gramática mas que na conversação era nulo.
A jovem sorri e exclama: qual é a sua nacionalidade? De imediato retorqui: português, da Ilha da Madeira. Uma gargalhada e experime-se na língua de Camões:.”Nasci em Portugal, estudei em Lisboa, os meus pais são ucranianos e vivem no Algarve .Finalizei o meu curso e naã arranjava emprego, e concorri para a Emirates. O meu nome e Erica”. Respondi: estamos a jogar na mesma equipa! Agora tudo se torna mais fácil. Vamos à ementa: Como entrada,” traditional Arabic Mezze”, Prato principal: Nihari Ghoshi (carneiro),diversas qualidades de pão e, para acompanhar, um vinho da Califórnia, uma autêntica pomada. Para sobremesa, tarte de morango e mango, café e um Bailey’s Irish Cream como digestivo. Erica interrompe com uma tábua de queijos com uvas e um Porto Malvasia.
Concerteza, replico….Uma viagem de 4h45 Dhaka -Dubai cheia de mordomias.
Deus quer que disfrutemos do melhor, ou não fosse também eu Filho de Deus. Caros leitores aqui têm, como se diz na gíria jornalística, o “nariz de cera”, já em discurso directo antes de pisar solo libanês.

BEIRUTE, antes tarde do que nunca! Quando pensei visitar essa cidade 90 por cento das pessoas franziram a testa e retorceram a boca quando mencionava o nome. Beirute?!?!! A
minha curiosidade aumentava. Adoro ir para lugares aonde a maioria das pessoas tem medo de ir-sobretudo quando sei que esse medo é absolutamente infundado.
Esta é uma cidade fascinante, árabe, cristã ,francesa, traumatizada pela guerra mas cheia de vontade de viver e se divertir.
Está é no meio de um barril de pólvora. Síria ao Norte e a Leste, e Israel ao Sul.
Recebeu o apelido de “Paris do Oriente” pela sua atmosfera cosmopolita. A cidade esta dividida em duas partes: Beirute Ocidental, habitada por muçulmanos sunitas, e a oriental, habitada pelos cristãos. Os muçulmanos xiitas e palestinianos vivem em bairros reconhecidamente marcados. Hoje, apesar dos riscos de uma viagem a região (que de forma alguma deve afastar quem deseja visitá-la) o que sinto é que se está numa cidade segura, apesar de me cruzar de vez em quando com soldados armados e até tanques de guerra.
Os libaneses demonstram a sua coragem e seu dinamismo ao pôr em marcha projectos de reconstrução da zona central da cidade, com a construção de novos edifícios e restauro de antigos prédios.
Quando projectei esta viagem, tentei contactar a embaixada do Líbano em Lisboa. Acontece que o Líbano não tem representação diplomática em Portugal. Na Internet descobri que todos os assuntos são tratados com a embaixada do Líbano em Itália.
Enviei um mail na língua de Camões e em menos de 18 horas, recebi resposta em Italiano.
Os portugueses não necessitam de visto. Mas há regras. A primeira e não existir no passaporte um carimbo de entrada em Israel. O ofício finalizava com um ‘buona giornata’ (boa viagem).
Israel e o Libano nao têm relações diplomáticas.
Hoje no aeroporto o meu passaporte foi vasculhado folha por folha, e fui bombardeado com imensas perguntas. Não tenho cara de Rabin, muito menos de judeu ortodoxo. Se fosse indiano aí talvez… Quantas vezes em Dhaka fui abordado em lingua bengali, a pedir uma informação. Mas logo que o carimbo soou na página do meu passaporte, respirei de alívio.
A história de Beirute e muito antiga. O seu nome aparece em inscrições que datam de 14 a.c.
Era uma cidade fenícia na antiguidade. Em 1920 os franceses designaram a cidade como capital do Líbano e o pais só se libertou da Franca em 1943, quando foi declarada a independência. A arquitetura e a língua absorveram muitos elementos da cultura francesa. Houve uma guerra civil que durou 15anos, de 1975 a 1990 .Após 16 anos de calma, veio a guerra com Israel em Julho de 2006 um ataque de 34 dias que devastou Beirute, Em 14 de Fevereiro de 2005, o primeiro ministro Rafi Hariri foi morto com outras pessoas,quando uma carga de explosivos foi detonada na passagem de sua comitiva para o hotel Saint George’s.
Beirute é uma cidade que sobreviveu a tantas destruições que merece ser chamada de cidade que se recusa a desaparecer.

O hotel Saint George parcialmente destruído e agora em recuperação; a praça em frente em homenagem ao ex-primeiro ministro R. Hariri, morto quando uma carga de explosivos foi detonada na passagem da sua comitiva
O hotel Saint George parcialmente destruído e agora em recuperação; a praça em frente em homenagem ao ex-primeiro ministro R. Hariri, morto quando uma carga de explosivos foi detonada na passagem da sua comitiva
Nos tapumes das obras da mesquita, apesar de terem passados 15 anos, a imagem do ex-primeiro ministro está sempre presente.
Nos tapumes das obras da mesquita, apesar de terem passados 15 anos, a imagem do ex-primeiro ministro está sempre presente.
A guerra civil que durou 15 anos (entre cristãos e muçulmanos) dividiu a cidade por questões étnicas e religiosas. O templo cristão continua destruído, mas a mesquita está reerguida.
A guerra civil que durou 15 anos (entre cristãos e muçulmanos) dividiu a cidade por questões étnicas e religiosas. O templo cristão continua destruído, mas a mesquita está reerguida.
Beirute é uma cidade asseada: ruas impecáveis que começam a ser manchadas pela chegada de refugiados sírios reduzidos à pobreza
Beirute é uma cidade asseada: ruas impecáveis que começam a ser manchadas pela chegada de refugiados sírios reduzidos à pobreza