Sente-se o incómodo

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Os Madeirenses estão, finalmente, confrontados com o mais que previsível desastre financeiro que, durante trinta e três anos, os governantes, em nome dos eleitores, geraram. Considerei apenas o período de 1978 a 2011 pois os últimos quatro anos, por muito que se esconda, são já vividos no “olho do furacão”.

       Nas regras levianas, criadas há dezenas de anos, incluíram-se preceitos inexequíveis que, na hora da verdade, agora sentida por todos, se revelam totalmente incompreensíveis aos eleitores. Criaram-se mordomias inerentes ao exercício de funções políticas que estavam muito para além daquilo que o bom senso recomendaria. Todos nos recordamos dos primeiros braços de ferro da ALM com o Tribunal de Contas quando o dito Tribunal quis – acho que tinha esse direito – controlar as despesas da ALM. Recordamos o Sr. deputado Jaime Ramos que, pelo seu comportamento truculento, assumiu a peleja. Com mais parecer ou menos parecer jurídico, ao que consta pagos a peso de ouro, a questão ultrapassou-se. A imagem pública dos detentores de cargos políticos, logo aí, saiu beliscada. Pareciam não querer ser controlados. Passados tantos anos aferimos, o grau de descida aos infernos da imagem da classe política, pelo riso trocista provocado pela já célebre frase do Pres. cessante: não elejam, no dia 29, aqueles que querem ir para a política enriquecer.

       As quezílias com o Tribunal de Contas vieram a revelar-se uma verdadeira novela com imensos capítulos. A opinião pública que, normalmente, apreende os problemas pela metade, começou agora, finalmente, a ficar atenta para a questão do Jackpot. Referir-se nos jornais, durante anos, que circos e outros espectáculos eram pagos pelo dinheiro dos impostos não surtiu efeito. Ninguém esteve para ligar a “tontices”! O Jackpot, sendo parcela importante na despesa pública no que respeita aos partidos, não é, porém, a única questão preocupante neste processo. A pressão da opinião pública levou à sua redução. Não posso deixar de concordar, mas o problema do financiamento da Democracia é bem mais profundo. Vamos a ele!

       Esta questão, como é óbvio, respeita a todos os partidos e, mais ainda, a todos nós que pagamos impostos. Talvez por defeito meu, só vi o PPD/PSD, através de um membro de anteriores Comissões Políticas, escrever sobre o tema. Não sei aquilo que pensarão os outros partidos, mas vou ousar ter opinião de “pagador de impostos”.

       Os partidos são essenciais à democracia, sem eles ela não existe. O financiamento público aos partidos pode justificar-se sem dúvida nenhuma. Isso, porém, tem de ser acompanhado por comportamentos que credibilizem o exercício de funções políticas aos olhos dos eleitores. A este financiamento directo aos partidos juntam-se significativas benesses sob diversas outras formas aos detentores de cargos políticos. Se a reformas, remunerações e outras alcavalas, juntarmos toda uma literatura que prolifera no País, temos os agentes políticos com uma imagem, eticamente, pouco recomendável. Isso não é indiferente aos eleitores por mais que finjam não saber. Comportamentos destes, no passado, levaram a que se dissesse, em 1924, na então AR: “Eu que nunca choro, chorei lágrimas de fel e de sangue, lágrimas de raiva e desespero pelos desesperos da Pátria amordaçada pelas quadrilhas partidárias vorazes que se esfaimam a roer os ossos de Portugal”. Aquele conceito de Pátria é coisa do passado. Hoje, o novo conceito, apenas abarca os Banqueiros e seus Compinchas, tudo é permitido a esses cavalheiros e nós pagamos. A diferença estará em que o risco da própria vida passou “à própria bolsa”, hoje não se combate por causas colectivas: por exemplo, a Independência Nacional. O Bem Comum, no passado, tinha algo que a todos irmanava. Hoje querem impor-nos como Bem Comum o pagamento de dívidas de que nunca nos explicaram as consequências. Estamos na presença de fortes sintomas de meros interesses de grupo serem apresentados como Interesses Colectivos. Salvaguardam-se os interesses de Banqueiros e seus Compinchas. Esses sim, têm direito a Pátria e a impor sacrifícios na salvaguarda dos seus interesses.

Os sentimentos dos Seres Humanos, porém, mantêm-se, geração após geração. Costuma dizer-se que se as barbas do vizinho ardem, melhor é colocar as nossas de molho. É a situação que se vive no País e na RAM. A descredibilização das elites é uma triste realidade como preconizava o desabafo citado. Determinem as regras adequadas de financiamento público aos partidos, mas respeitem-nos quando fixarem as condições auto-remuneratórias, não esqueçam que são escrutinados. Teremos mais quatro anos pela frente a partir do fim de Março. Estou em crer que se não arrepiarmos caminho na credibilização do sistema, teremos um Syriza em 2019. Não, não é um Syriza à dimensão do dr. Alberto João. Será, sim, um grito de revolta dos eleitores por não acreditarem nas suas elites.