Edgar Silva: Classe média é o “novo rosto” da pobreza

edgar_silva002 Assume-se como a voz dos excluídos e tem dado a cara pela luta contra a pobreza. Já dormiu na rua, viveu dois anos numa barraca de madeira, num dos bairros mais degradados de Lisboa, e chegou a ser detido por causa dos “meninos das caixinhas”. Embora tenha trocado o sacerdócio pela política, continua a ser conhecido como o Pe. Edgar. O homem que reconhece à Igreja Católica o mérito de lhe ter incutido valores como a humanidade não perdoa o facto de a instituição claudicar perante outros interesses que não os dos mais desfavorecidos. Edgar Silva preocupa-se com o aumento da “avalanche dos novos pobres” e com o massacre a uma classe média que vive desesperada num “universo de silêncios e repressão”.

 

Funchal Notícias – Como carateriza o fenómeno da pobreza na Madeira?

Edgar Silva – Estamos numa situação de regressão muito grande. Se até 2000 houve um recuperar de indicadores muitos negativos nas taxas e severidade da pobreza, a partir de 2010 regista-se uma profunda regressão social devido às políticas que o Governo da República tem implementado. Veja-se a emigração forçada, os cortes nos subsídios de desemprego. Mais de metade dos desempregados não tem acesso a qualquer apoio.

FN – Fala-se em 23 mil desempregados na Região.

ES – Segundo os números oficiais, passámos de 7 para 18 por cento. Muitos destes números estão dissimulados por aquelas pessoas que estão em cursos e estágios. Não são trabalhadores, não têm rendimentos adequados, mas oficialmente não são desempregados.

FN – Qual a sua perceção sobre o fenómeno atualmente?

ES – Temos um problema, os números oficiais só serão revelados daqui a um ou dois anos. A Cáritas recentemente revelou que, de 2013 para 2014, a pobreza aumentou 15 por cento no país. Os números do INE revelam que, entre 2011 e 2013, o agravamento é de 30 por cento. Na Madeira, atendendo à taxa de desemprego, aos cortes nas prestações sociais e no abono, que atingem 40 mil famílias no todo nacional e cerca de mil na Região, só pode significar que a pobreza está a crescer.

FN – Por que é que os vossos números nunca coincidem com os do Governo Regional?

ES – Para o Governo Regional a pobreza foi sempre um lugar tabu, não existia. A Madeira tinha de ser uma região rica com o maior PIB. Chegaram ao ridículo de negar os 32% relativos a 2000 e que estavam inscritos na candidatura do Programa Plurifundos à União Europeia. O secretário da tutela falou em 5%, coisa que nem a Dinamarca consegue. Mais tarde afastaram o responsável pela Segurança Social, quando confirmou os dados.

FN – Quais as zonas ou grupos mais expostos?

ES – Bastas ir às zonas altas do Funchal para ver homens entre os 40 e os 60 anos sem perspetivas, sem nada para fazer. Gente que vem da área da construção civil, do comércio e até da hotelaria. Temos ainda os idosos, os problemas das toxicodependências. Temos focos de consumo impressionantes. A parte sul do Bairro da Nogueira é um supermercado de droga. Até a polícia tem medo de lá entrar.

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 “Avalanche de novos pobres”

FN – Há pessoas que têm emprego, mas estão com dificuldades. O que mudou no perfil da pobreza?

ES – Há os novos rostos da pobreza. Há que distinguir a pobreza absoluta, a chamada miséria atroz, da “avalanche dos novos pobres”. São aqueles que estavam associados à classe média baixa e que, em virtude do desemprego e dos cortes dos rendimentos e salários, vivem em situação de brutal pobreza. Como têm património, muito embora com dívidas a instituições bancárias, ficam excluídas de qualquer apoio social. Perdendo um salário ou mesmo dois, deixam de ter condições para manter quer o património quer a subsistência da família. Não aparentando condições de pobreza, estão em situação de sufoco e desespero. Veja-se, por exemplo, o caso de pequenos empresários. A empresa faliu e essas pessoas não têm acesso sequer a subsídio de desemprego. Vivem em situação de insolvência com o todo o seu património penhorado.

FN – Perante a chamada pobreza extrema, este novo grupo é então mais castigado. Não haverá o risco de conflitualidade social?

ES – É de esperar o agudizar da conflitualidade, como também de formas desesperadas de enfrentar a vida e até de violência no seio familiar. A Região aparece nos primeiros lugares na violência contra os idosos e doméstica. Porquê? Porque estas emoções são reprimidas e caladas no silêncio da casa por vergonha e receio de reprovação social.

FN – Trabalhar com este perfil de pobreza sugere novos desafios?

ES – É mais difícil, sem dúvida. Trata-se de universo de muitos silêncios, de muita contenção e repressão, pelo que é complicado mobilizar, agregar e organizar os processos de reivindicação para transformar a realidade.

FN – Qual é a solução?

ES – É uma batalha a longo prazo e tem escala a nível global. Tem de haver uma inversão das prioridades. Vivemos numa situação em que o que conta é apenas a especulação financeira, garantir às grandes instituições bancárias lucros na base da especulação. Este massacrar dos países mais pobres e o ataque brutal à chamada classe média à escala europeia tem de acabar, sob pena de legitimarem processos de radicalização e de se acentuarem lógicas belicistas.

A erradicação da pobreza tem de estar no topo da agenda política. Há que tocar nas causas estruturais para além da resposta mais assistencialista. Não basta o Banco Alimentar e a Conferência de S. Vicente de Paulo. Embora importantes, são apenas paliativos. Se não houver uma mudança de fundo, essa lógica acaba por ser perversa, porque é manter o pobre na sua pobreza. Esse esmolar para sossegar a consciência acaba por fazer do pobre um instrumento para legitimar privilégios sem questionar os ricos.

FN – E como se muda esta lógica assistencialista, sobretudo depois de um período de subsidiodependência?

ES – Tem de se promover o trabalho e emprego com direitos. É preciso agora apostar nas “vias rápidas” da educação, da formação e qualificação dos ativos. Depois, é preciso mecanismos de apoios à criação de empresas geradoras de emprego.

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Ninguém opta pelos pobres impunemente

FN – Como é que a questão da pobreza o interpelou enquanto indivíduo e cidadão?

ES – Boa parte da minha formação devo-a, grande parte, a um percurso feito a partir da minha ligação à Igreja Católica. Como cidadão e cristão fui despertando para certos valores pela via de uma aprendizagem que culminou, até enquanto padre, com esse compromisso com os mais pobres.

Depois, estudei Teologia na Universidade Católica, em Lisboa, e aí fui provocado pela pobreza mais descalça, e dá-se o despertar da consciência ética e social sobretudo por sentir a intolerância perante a injustiça social.

Durante essa época do curso, nos anos 80, verifica-se também o crescimento das chamadas “Teorias da Libertação”, assente na opção preferencial pelos mais pobres, identificando-se sobretudo com a sua causa libertadora. Toda essa aprendizagem, em que o marxismo era uma grelha de leitura da realidade, levando a uma praxis e compromissos transformadores, constituiu uma etapa muito importante, até porque nos obrigava a ser consequentes. Não só pelo repto motivado pela intolerância, mas pela necessidade de intervir junto dos mais pobres, organizando-os para a transformação da realidade.

FN – Trata-se de uma opção arriscada, essa de dar poder aos pobres. Não terá sido pacífico, então?

ES – Não. Ninguém faz essa opção preferencial pelos pobres de forma impune. Traz sempre profundas consequências, pessoais, sociais…

FN – Pensou nisso antes de abraçar esta missão?

ES – Penso que até foi mais desafiante. Havia as experiências das chamadas Igrejas da Libertação na América Latina, com figuras como Óscar Romero, que até acabou assassinado, os irmãos Boff no Brasil, Frei Beto, ainda hoje um dos grandes teólogos na área progressista, e outros, conhecidos como intelectuais orgânicos, que defendiam o pensamento ligado à ação e projetando a ação para a reflexão. É o caso de Ignacio Ellacuría que acabou também assassinado na sua universidade com mais nove companheiros jesuítas. Portanto, esse compromisso pelos mais pobres foi sendo interiorizado graças a essas experiências e a tantas outras.

 FN – No seu caso, como passou do pensamento à ação concreta?

ES – Estive seis anos a estudar em Lisboa. Durante esse período, trabalhei em alguns dos bairros mais desfavorecidos, como o Prior Velho, a Curraleira, Olivais Sul, e junto de grupos marginalizados como os ciganos e pessoas de rua. Foi um mergulhar na realidade dos mais pobres que originou muitos questionamentos. Cheguei a viver dois anos numa barraca de madeira no bairro da Curraleira, conhecido pela prostituição e tráfico de droga, sem água quente e com casa de banho no exterior. Isso mudou-me muito.

Já na Madeira, estava a trabalhar no Seminário Diocesano do Funchal e fui chamado porque havia um problema com uma família. Acabei por dormir com essa família na rua, durante alguns dias. Marcou-me também por ser altura de Páscoa.

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Pobreza era tabu

 FN – Por quê a vinda para a Madeira, o que o motivou a exercer esse compromisso na Região, sobretudo numa altura em que se iniciava o período áureo das obras públicas?

ES – Por volta de 1985-87, sempre que vinha de férias à Madeira, como estudante, era também interpelado pelas situações que aqui aconteciam. Então, durante as férias grandes, comecei a contactar e trabalhar com as pessoas que viviam em barracas e furnas na periferia do Funchal. Lembro-me da Fundoa, dos bairros de lata na ribeira de Santo António, nas Madalenas, no Beco da Escola, na Ribeira de João Gomes, e também na zona do Ilhéu e em bairros como a Casa do Porrão e Belém em Câmara de Lobos. Toda essa inserção gerou um desassossego muito grande nas autoridades.

 FN – O Edgar e os seus companheiros tiveram essencialmente o mérito de agitar as águas e dar visibilidade a um problema que todos conheciam mas ninguém admitia. Inclusive, é a partir dessa altura que se começa a denunciar a pedofilia.

ES – Admito, a nossa intervenção ganhou uma dimensão para além da que alguma vez imagináramos. Foi a partir do trabalho exaustivo na criação de grupos de rua que começámos a ser confrontados com a questão da agressão, da violência direta para os afastar das zonas turísticas. A dada altura, começaram a aparecer também os problemas da exploração sexual, por parte de turistas e não só, destes mais pobres e sobretudo de crianças. Certo dia, decidimos organizar um encontro dos seis grupos de rua que funcionavam no Funchal e montámos uma exposição de desenhos feitos pelas crianças, com a finalidade de abordarem as suas vivências e problemas. Pedimos autorização ao Bispo, na altura D. Teodoro, para montar os expositores junto ao Museu de Arte Sacra. Para além do Prelado, foram convidados os membros do Governo e o comandante da Polícia. Foi num sábado à tarde e quando todos lá chegaram foi como um murro na barriga, houve um silêncio de morte.

FN – O desenhos foram o ponto de viragem. Até então, as autoridades não se tinham apercebido de quão profundo era o vosso trabalho.

ES – Sim, estávamos a expor feridas, a tocar em assuntos tabu. Foi aí que percebemos também que estávamos a gerar incómodos.

FN – O que aconteceu a partir daí?

ES – Numa primeira fase, ninguém bloqueou o projeto. No entanto, com o avançar das dinâmicas próprias dos grupos – recorde-se que a maioria daquelas crianças de Câmara de Lobos não sabia ler nem escrever -, os próprios meninos começaram a dizer que gostariam de identificar quem os havia agredido, a escrever o nome do agente, e quiseram aprender a ler e a escrever. Surgiu então a ideia da Escola Aberta, que começou primeiro por ser na rua e depois passou para um barracão e, finalmente, instalou-se num edifício na Calçada de Santa Clara. A ideia era a alfabetização numa aproximação à rua e muitos aprenderam a ler e a escrever ali.

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Desilusão com D. Teodoro

FN – Mas o projeto terminou. Quando é que surgem os obstáculos?

ES – Quando se agudizaram as situações de denúncia, sobretudo a partir da formalização de uma queixa à Amnistia Internacional e à Provedoria da Justiça sobre a violência contra as crianças de rua, em particular os abusos sexuais de menores. Então, tudo mudou. Da parte da Diocese, muito pressionada que terá sido por parte das autoridades governativas, a atitude passou a ser de obstaculização, de procurar desmantelar todo o processo. Fecharam a Escola Aberta e cortaram todos os apoios.

 FN – Houve outros casos em que o então Bispo lhe tenha falhado?

ES – Sim, há um caso sobre o qual nunca falei. Teve a ver com os miúdos de rua. Era uma manhã de sábado e ao impedir um polícia de bater num desses miúdos, acabei detido. Na segunda-feira seguinte, antes de me apresentar a Tribunal, recebo um telefonema muito cedo para me apresentar no Paço Episcopal. Quando lá cheguei, apercebi-me que não era para me garantir qualquer apoio, mas sim para advertir que não fizesse qualquer referência a eventuais agressões policiais. Aliás, o termo foi que tivesse “alguma lisura”, na abordagem dessa questão. Ainda hoje sinto arrepio quando ouço essa expressão. Foi um momento de desilusão e tristeza.

 FN – Poderão esses acontecimentos ter estado na origem da sua rutura com a Diocese, inclusive na suspensão do sacerdócio?

ES – Eu continuo a assumir-me como cristão e essa opção é consciente. Sou o que sou e estou onde estou devo-o à Igreja Católica, e devo muito para o bem e para o mal, sobretudo os valores de humanidade que me foram incutidos. Agora, quando a Igreja é pressionada pelo poder político, claudica e atraiçoa os valores e opções; não é fiel aos seus deveres.

 FN – O Papa Francisco tem sido muito assertivo na defesa pelos mais fracos. Acha que a Igreja estará mais fortalecida ou imune a essas pressões?

ES – Dentro da Igreja, o Papa Francisco é alvo de muitas críticas por parte de setores mais conservadores. No entanto, é um sinal de grande esperança para a Igreja e para a Humanidade. Tem sido um modelo pela sua credibilidade e denúncia, por exemplo, em relação aos baixos salários e aos imigrantes vindos do Norte de África.

 FN – Como deputado, o Edgar tem tido também uma intervenção muito crítica e atuante em relação aos fenómenos de exclusão social, raramente compreendida pelo partido da maioria. O que o aborrece na ação política?

ES – Gera alguma indignação ver a intervenção política reduzida a processos da palhaçada e abandalhamento, quando deveria ser a mais exigente em prol da causa comum. Faz-nos regredir e descredibiliza.