“O cristianismo e o marxismo não são incompatíveis nem inconciliáveis”

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Funchal Notícias – Edgar Silva, o senhor tem assumido como bandeira de campanha (e já antes da campanha assumia essas críticas) um confronto directo, de certa forma, com o ex-presidente da Câmara Municipal do Funchal, Miguel Albuquerque, que agora é presidente do PSD-M. Contesta fortemente a política que ele desenvolveu na CMF, e preocupa-o agora a forma como poderá desenvolver essa mesma política enquanto hipotético presidente do Governo Regional. Já disse, inclusive, que poderá ser mesmo pior que Alberto João Jardim, na sua perspectiva. Porquê?

Edgar Silva – Não há, em nenhuma das nossas intervenções, qualquer questão de ordem pessoal. Há uma crítica fundamentada às políticas, ao partido que tem, ao longo de praticamente 40 anos, responsabilidades de governo na Região, e também responsabilidades de governo no plano autárquico. O PSD, ao longo de 38 anos… Se toda a Região Autónoma da Madeira está nesta situação de falência, de insolvência, isso deve-se a um conjunto de políticas, que têm responsáveis, e que têm a ver com o PSD, onde também o dr. Miguel Albuquerque esteve a vários níveis, responsabilizado por essas mesmas políticas. O que está em causa são as políticas do PSD, e não as pessoas. Não há qualquer intenção de ataque pessoal, há um conjunto de políticas e a necessidade de apontar os responsáveis por esta situação desastrosa, de destruição, de falência, de insolvência, a que nos chegámos. Isso deve-se às responsabilidades do PSD e do CDS no Governo da República, e do próprio PS, porque há questões que não são dissociadas, na situação a que chegámos hoje, de um conjunto de impactos de políticas nacionais, mas e sobretudo, daqueles que têm a responsabilidade do Governo da Região. O PSD de Miguel Albuquerque é o interlocutor directo, privilegiado, até na comunicação, com Pedro Passos Coelho, no plano nacional, tem-no assumido até, em vários momentos, explicitamente, e houve até quem dissesse, numa outra candidatura, que Miguel Albuquerque, quanto às políticas, é gémeo de Pedro Passos Coelho. A ideia para a qual tendemos é que não, é até bem pior, porque vai ao ponto de criticar o Governo da República, dizendo que pecou por defeito. Por exemplo, em relação à necessidade do despedimento de 40 mil funcionários públicos [Miguel Albuquerque] defende que essa é uma meta necessária. Albuquerque critica ainda o Governo do PSD e do CDS, que já é responsável por tantas das políticas de terrorismo social que têm impacto tão desastroso para o país e para a Região, por não ter sido tão rigoroso quanto deveria no corte dos direitos, no corte dos rendimentos e particularmente em relação à administração pública, mas também em outras áreas. O PSD de Miguel Albuquerque está longe de ser irmão gémeo… Isto não quer dizer que nós estejamos a elogiar ou a ter uma avaliação positiva daqueles que são os responsáveis pelas desastrosas políticas de terrorismo social que estão a destruir o país, e a levar também a Região a uma situação de desastre. Bem pelo contrário. O que estamos a dizer é que já é brutal todo o impacto destas políticas que o PSD e o CDS estão a impor ao país e à Região, porque nos está a penalizar triplamente (veja-se em tudo quanto tem a ver com aquilo a que nós chamamos o ‘Programa de Agressão ao Povo e à Região’, oficialmente o Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF), imposto pela ‘troika’ estrangeira na base de uma lógica agiota que está a impor sacrifícios brutais ao povo, aos trabalhadores, ao conjunto dos residentes na RAM). A insularidade soma custos às medidas nacionais (de austeridade). E depois somos triplamente penalizados com um programa que é exclusivamente destinado a quem vive na Região.

Se esta tripla penalização já é desastrosa, traz um rumo desgraçado ao povo e à Região, o PSD de Miguel Albuquerque acha que ainda se deveria ir mais longe. Ora, nós consideramos que esse rumo que o PSD de Miguel Albuquerque corporiza não serve para o futuro da Região.

FN – Miguel Albuquerque é mais refinado que Alberto João Jardim? É mais democrata, ou é só aparência?

ES – A comparação não se faz Alberto João Jardim/Miguel Albuquerque. É o PSD. É o PSD que está em causa. Mas o PSD de Miguel Albuquerque, na relação com Pedro Passos Coelho e com a governação em Lisboa, tem uma perspectiva de que (são palavras dele) se deveria ter ido ainda muito mais longe, neste ataque aos direitos, à dignidade, aos rendimentos, no roubo aos salários, aos pensionistas… Que esse ataque deveria ser ainda mais incisivo, mais brutal na sua intervenção e nas suas consequências. E portanto, no que diz respeito ao projecto de desenvolvimento, ao modelo de sociedade, àquilo que propõem, nós não temos dúvida relativamente a esta afirmação: é bem pior do que a anterior governação, na Região e na República. Este rumo que Miguel Albuquerque corporiza, por aquilo que tem dito, por aquilo que tem apresentado, seria terrível, e não serve de modo nenhum os interesses regionais, na nossa perspectiva.

FN – A classe média tem sido bastante sacrificada, da forma que descreveu. O que pensa das notícias recentes que dão conta de que personalidades como Pedro Passos Coelho ou António Costa não terem pago as suas contribuições ao fisco como deveriam? Acha que isso afecta a sua credibilidade política?

ES – Estas situações vergonhosas que têm vindo a público de facto envergonham o país e descredibilizam-no até, à escala das relações internacionais. Correspondem, no plano interno, a uma concepção profundamente corruptível e corruptora, de uma determinada prática. No fundo,  a ideia que está aqui bem presente, é a de que alguns cidadãos, pelos cargos que exercem, pelo poder que têm, de influência privilegiada na comunicação com as cúpulas de algumas instituições, podem se dar ao luxo de contornar aqueles que são deveres elementares de qualquer cidadão. Em relação a Pedro Passos Coelho, a situação recentemente trazida a lume foi antes de ser governo, mas já há muitos anos detentor de cargo público. Esta ideia de que há uma casta de uns eleitos na sociedade portuguesa, que têm este especial privilégio de contornar a lei, de, através do jeitinho, estarem de algum modo não acima da lei, mas com a capacidade de, pelas suas influências, contornar, fintar as instituições quanto àquilo que é o cumprimento dos deveres. Esta ideia de fazer pequena batota, de fintar as instituições… No fundo, o jeitinho… Esta concepção de corrupção, isto não é… sendo já grave correspondendo a uma atitude, a um acto pessoal, individual, ainda por cima vindo de quem vem, isto é tanto mais grave quanto corresponde a uma concepção da vida política, da organização do próprio Estado, de funcionamento do Estado. Corresponde por isso, e é esse o carácter mais perverso de todo este fenómeno, sem diminuir a gravidade dos actos individualmente considerados, isto é particularmente grave quanto corresponde a uma visão mais estruturante, que não hesitamos também em referir que está directamente associada a uma cultura da corrupção. É uma cultura da corrupção, tanto mais extensiva depois, quanto a oportunidade e a possibilidade do mesmo mecanismo e a mesma lógica se ir alargando e alastrando, onde o importante é safar-se, ficar isento, eximir-se de deveres que a nqualquer cidadão, o próprio Estado e aqueles que exercem funções hoje são implacavelmente intervenientes no sentido de fazerem cumprir a outros, aquilo que eles não são capazes de cumprir para si. Esta visão profundamente corrupta do que é o exercício da prática política, do que são os deveres de cidadania, e este auto-afirmar de privilégio, de isenção de deveres, isto é perigoso e é perverso. É desprestigiante para o país, ter altos dignitários do Estado com práticas de tão baixo nível, mas é também desprestigiante aos olhos dos cidadãos e é sobretudo gerador de uma grande indignação.

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FN – Passando para o plano regional, uma notícia avançada pelo Funchal Notícias e que fez movimentar um bocado as opiniões foi relativa a Adolfo Brazão, uma personagem que é apontada na lista de Miguel Albuquerque às próximas eleições nas intenções de candidatura àquele que é, ao fim e ao cabo, hierarquicamente, o cargo mais alto da Região, o de presidente da Assembleia Legislativa Regional. Adolfo Brazão está actualmente a ser penhorado num processo no qual, por ser fiador da esposa, tem de pagar cerca de 800 mil euros. Um dos comentários ouvidos nos ‘mentideros’ funchalenses foi o de que, realmente, era difícil uma pessoa recusar ser fiadora da própria esposa, principalmente se se tratava, como ele alega, o objectivo era salvar uma empresa, e salvaguardar postos de trabalho; mas ao mesmo tempo, aponta-se se não terá sido esse tipo de irresponsabilidade, o de prometer pagar dinheiro que não se tem, que conduziu a própria Região ao descalabro financeiro em que se encontra actualmente. Considera que a credibilidade política de Adolfo Brazão para um tal cargo foi afectada por esta notícia?

ES – Mas, sem qualquer hesitação, sim. Descredibiliza e tira legitimidade. Poderíamos falar doutros exemplos, além desse que refere). Um determinado candidato é responsável pela gestão duma unidade hoteleira, tem um projecto hoteleiro. E, na sua gestão e direcção, levou essa unidade hoteleira à falência, à insolvência, se não é capaz de pôr de pé e tornar viável um seu projecto, considerado de excelência, inicialmente, no sector turístico e hoteleiro, se na concepção desse modelo e na sua gestão o levou à falência, obviamente, tal como no caso que refere, esse candidato a deputado e que é apontado também nas listas de Miguel Albuquerque como putativo candidato a presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, é óbvio que, nessas situações, quando a vida pessoal, empresarial, quando a intervenção do cidadão é, em si mesma, contrária a tudo aquilo que na prática, referente ao desenvolvimento regional, apregoam, é óbvio que descredibiliza por completo, tira até legitimidade. Referindo-me a esta situação de um dos destacados candidatos do PSD na área económica, que é apontado também como candidato a responsabilidades governativas na área do turismo e na área económica, se na sua unidade hoteleira, a levou à insolvência, que credibilidade e legitimidade tem para que, naquilo que é de todos, na gestão de opções desenvolvimento, que legitimidade terá para assumi-las, quando naquilo que era seu revelou uma incapacidade, uma incompetência… E, no caso anterior que refere, criou condições para que, na sua vida pessoal, na sua vida financeira e empresarial também, que é isso que está em causa, levou a situações de gastos, opções gestionárias completamente irracionais. Isso tira legitimidade e credibilidade, obviamente que sim. No caso de uma das unidades hoteleiras que estou a referir, o Choupana Hills, é um caso desses. E também é uma situação concreta. Estas situações tiram legitimidade e tiram credibilidade.

FN – Do mesmo modo que vocês criticam o PSD, também têm criticado a liderança socialista. Não seria uma alternativa possível e viável, e a CDU nunca terá considerado a possibilidade de coligar-se com ela ou apoiá-la?

ES – A CDU, em si mesma, é uma coligação. É um projecto de coligação, que envolve o PCP, o Partido Ecologista ‘Os Verdes’ e a associação Intervenção Democrática. A CDU, como coligação, tem uma proposta, um projecto próprio, tem soluções próprias para os mais graves problemas da Região. Nós temos a clara percepção de que a CDU, neste contexto político, não será a força a quem serão pedidas, directamente, responsabilidades de governo. O que está neste momento em causa é a eleição de deputados para que o parlamento, na sua composição, exerça as suas funções de encontrar soluções de governo, para que depois se desenvolva toda a actividade que compete ao parlamento, de legislar, de exercer a sua competência fiscalizadora, e acompanhar todos os actos de governo. Quanto às soluções de governo, o que está em causa agora é a eleição de deputados, é o que neste momento está a ser considerado, porque estas eleições de 29 de Março não são eleições para a formação de um governo… Há alguma errada propaganda, de que o candidato A ou B é candidato a presidente do Governo. Não há candidatos a presidente do Governo. São todos os candidatos, em todas as listas, candidatos ao parlamento regional, à eleição de deputados na Assembleia Legislativa da Madeira. É isso que está em causa. O resto é falsa propaganda. O que agora se pode colocar: mas na base do parlamento, ter-se-ão que encontrar soluções de governo. É verdade. Tudo isso vai depender da composição do parlamento. Neste momento, o grande desafio que se coloca aos cidadãos, no nosso entender, é este, e nós temos de nos esforçar, em todo um trabalho de pedagogia democrática e informativa,  para fazer saber que o parlamento precisa de deputados que estejam a tempo inteiro, que não tenham ao mesmo tempo a responsabilidade de gerir negócios, empresas e um conjunto de outras actividades que nada têm a ver com a actividade cívica, com a actividade de representação dos cidadãos e da Região. Do que o parlamento precisa é de deputados de corpo inteiro a tempo inteiro, de deputados com uma única cara, não duas caras, deputados que, numa linha de coerência e de compromisso com as populações, sejam capazes, no parlamento, de ter capacidade de proposta, de ter capacidade de iniciativa, de conhecer os problemas da Região, de conhecer os diferentes dossiers, e não só capacidade propositiva, mas também capacidade de competência para o exercício da actividade crítica àqueles que venham a exercer os actos de governo. É isso que neste momento está em jogo, é disso que se trata, nestas eleições de 29 de Março. A CDU, ao longo deste último mandato, só com um deputado, teve, e tem essa prova dada, de ter sido não só o mais proponente, com maior número de iniciativas, mas também o deputado que maior número de iniciativas legislativas, quer propostas de lei à Assembleia da República, quer propostas de decreto legislativo regional, de audições parlamentares, de projectos de resolução, apresentou. Foi quem teve não só maior número de iniciativas apresentadas, mas maior número de iniciativas aprovadas no parlamento e a maior parte delas, aprovadas por unanimidade. É esse património de trabalho, de informação responsável naquele que é o órgão primeiro de governo próprio da Região, é esse património, essas provas dadas, que temos para apresentar aos cidadãos. Se um deputado desenvolveu mais trabalho do que os outros 46 no parlamento, isso quer dizer que se a CDU tiver mais votos e mais eleitos, e portanto se tivermos mais deputados, muito maior e muito mais intensivo certamente será esse sentido de intervenção, de capacidade propositiva e também de intervenção fiscalizadora daquela que é a prática de governo.

FN – A vossa dedicação é reconhecida. Mas vocês têm sido fortemente penalizados nas eleições. Dá quase a ideia de que o povo se serve de vós, em certas situações, para denunciar casos difíceis, e depois, na hora da eleição, acaba por deitar o voto noutro partido. Isto não é algo que descoroçoa quem trabalha?

ES – Acho que há um reconhecimento. Aliás, isso é um dado objectivo. Basta acompanhar aquilo que é a intervenção, o trabalho no parlamento. Há dados objectivos que confirmam essa capacidade de iniciativa, de proposta, e também denúncia dos problemas, que é uma experiência de trabalho que a CDU tem para demonstrar. Também é verdade que junto das populações, junto dos trabalhadores, em relação a vários sectores de intervenção sócio-laboral, nós temos, e muitas vezes por contacto directo, temos também junto das pessoas esse património de confiança. As pessoas contam com a CDU quando se trata de lutar, quando se trata de intervir. Também sabemos, e temos também que o reconhecer, que na hora do voto, o voto é proporcionado tantas vezes por um conjunto de outros factores, e, de longe, há uma diferença muito grande entre o reconhecimento do trabalho, o reconhecimento de que a CDU é merecedora de confiança, que se pode contactar… mas na verdade nem toda a gente deu o passo de perceber que também na hora de votar é preciso confiar na CDU. Isso é longo trabalho que temos pela frente, e não é fácil, devemos confessar.

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FN – É um trabalho que já vem desempenhando há quase 20 anos. Não se sente cansado, não sente que é altura de dar lugar a outro, também para haver uma renovação no partido?

ES – A CDU é a candidatura que apresentou uma lista de maior e mais profunda renovação. Nós fizemos uma renovação de alto a baixo. E temos hoje um conjunto de novos quadros, não só enquanto dirigentes do PCP, mas no âmbito da CDU há um conjunto de novas pessoas que assumem nesta candidatura uma nova visibilidade e um outro nível de responsabilidade. Nós estamos a trabalhar para que essa interacção entre a continuidade do trabalho, entre a continuação do projecto, e a renovação, o rejuvenescimento se faça com naturalidade. Estamos fortemente empenhados em que isso aconteça.

FN – Porque é que a CDU não integrou a coligação ‘Mudança’ na Câmara do Funchal? Houve oposição, do comité central, a nível nacional?

ES – A própria vida veio a demonstrar que tínhamos razão. A grande crítica que nós fazíamos era que não bastava agregar partidos, se tudo isto não assentasse, em primeiro lugar, na definição de um projecto. Em primeiro lugar, são necessários compromissos concretos, que vinculem as várias partes, em relação não só a um projecto a apresentar à cidade e aos cidadãos, e um projecto que vinculasse em primeiro lugar, que fosse um elemento aglutinador e de compromisso, dos que viessem a integrar a coligação. Nós, embora insistentemente colocássemos esta tónica, o que nos foi colocado foi de que o projecto não era importante, o importante era somar partes. Ora, desde logo, passados meses após as eleições e a tomada de posse daqueles que eram eleitos na lista da Mudança, metade dos vereadores foram embora, três vereadores entraram em conflito, e tudo se desagregou. Como se isso não bastasse, um dos partidos, neste caso o PND, já saiu da coligação Mudança, e mais ainda, agora até na chamada candidatura da coligação Mudança para estas eleições de 29 de Março, já o Bloco de Esquerda nem integra essa candidatura. Ou seja, a vida veio a demonstrar que tínhamos razão. A ideia de que importa apenas somar, agregar, independentemente de para onde se vai, do que se vai fazer, do modelo, do projecto de desenvolvimento que temos, isso faz com que tudo o resto venha a falhar a curto e a médio prazo, como aconteceu. Nós temos um projecto próprio. Não colocamos de parte a possibilidade de, sempre que apareçam propostas devidamente fundamentadas, e que sejam as que melhor sirvam a cidade e os cidadãos, nós as apoiarmos, as defendermos, e nessa medida as viabilizarmos. Agora, aquele projecto, naquela candidatura Mudança, falhou, desde logo, por falta de elemento de consistência.

FN – Qual é o peso das decisões de Lisboa na vida política do PCP-Madeira? Há quem diga que vocês têm uma forte centralização, continuam a ter uma convergência de interesses muito sólida…

ES – Nós temos uma linha de coerência. Uma proposta que é por nós votada no parlamento regional, e que vá à Assembleia da República, não terá lá uma votação contrária à que tivemos aqui na Madeira. Nós apresentámos uma proposta em relação à construção do novo hospital. Uma resolução que depois foi levada à Assembleia da República. Os partidos que aqui votaram a favor, quando chega à Assembleia da República, muitos dos partidos que aqui se diziam a favor, lá votam contra. Ainda agora se viu. Aquando do encerramento dos trabalhos aqui no parlamento regional, foram aprovadas várias propostas que foram para a Assembleia da República. Vejam-se aquelas sobre a reforma do regime fiscal defendida por Miguel de Sousa. Nem o seu partido o defendeu. Nós aqui na Madeira votámos a favor. Na Assembleia da República, se não fosse a iniciativa dos eleitos da CDU, nem agendamento teria a proposta vinda da Madeira, porque nem o PSD nem o CDS defendiam sequer o seu agendamento.  Ora, essas incoerências, esses partidos que têm duas caras, uma coisa dizem em Lisboa, outra coisa dizem aqui, parece que quando aterram no aeroporto são travestidos, de manhã são Maria, à tarde são João… Ora, isso não pode ser. Há um projecto, uma linha de compromisso, e o que nós temos é este cuidado em ter uma necessária articulação, uma coerência, entre aquilo que anunciamos, e o que fazemos aqui, em Lisboa e em Bruxelas. Não vamos aqui defender uma coisa, e depois, de forma desarticulada e completamente contraditória, dizer, ah, mas isso… Em relação às ligações aéreas entre a Madeira e o continente: aqui PS, PSD, CDS defenderam a proposta que a CDU apontava, ao abrigo do princípio da continuidade territorial, em que o valor deveria corresponder ao custo da ligação rodoviária entre Lisboa e o concelho mais distante da capital, que neste caso seria Melgaço. Isso deveria corresponder a cerca de 40 euros, que é o que pagam em Canárias os lá residentes, quando se deslocam para o continente espanhol. E nós propusemos isto aqui na Madeira, onde foi votado por unanimidade. Chega a Lisboa, já nem o agendamento garantem esta iniciativa, e tudo fazem para impedir a sua aplicação. Estas contradições… nós não nos identificamos com esse modelo, com essa prática. Em relação à Madeira: nós temos uma direcção regional, temos organismos próprios de direcção, também integramos a direcção nacional, temos membros da Madeira que também integram os organismos de direcção do partido… Não me parece que haver diálogo, articulação, comunicação, em si mesmo seja algo reprovável.

FN – E em termos ideológicos? Onde é que se situa actualmente o PCP? É marxista/leninista? Já não se classifica assim? Como é que se classifica ideologicamente o PCP moderno?

ES – O marxismo é um instrumento de análise… não só um instrumento de política económica, mas na análise das relações sociais, na avaliação das relações de poder, na compreensão dos factores que decidem o andamento dos processos de desenvolvimento, o marxismo é uma grelha, um instrumento de análise, de compreensão, e desse ponto de vista, é um instrumento que, do ponto de vista político, ideológico, nós não consideramos dispensável. É um instrumento importante para a compreensão dos fenómenos sociais, é um instrumento de análise científica para a compreensão e avaliação daquela que é a vida concreta e o desenvolvimento da história. Mas uma coisa é ter um instrumento, uma ferramenta auxiliar, outra coisa é fazer disso um dogma. E nós não fazemos da filosofia marxista, da análise marxista da sociedade um qualquer dogma. O que é importante é o contexto concreto em que vivemos, são os aspectos de contextualização de cada uma das realidades, seja regional, seja nacional, e portanto, desse ponto de vista, nós não encaramos esses instrumentos de análise como uma qualquer visão de dogmatismo. Vemos como auxiliares para uma compreensão dos fenómenos do desenvolvimento da história.

FN – Sentem que conseguiram evoluir, ao contrário de alguns pequenos partidos que ainda hoje se situam a uma extrema-esquerda bastante radical?

ES – Falando aqui no quadro da CDU, mas também no contexto do PCP, há sobretudo um esforço muito grande de actualização, de acompanhamento dos grandes sinais dos tempos… Há uma linha de efectivo ‘aggiornamento’, de renovação, de rejuvenescimento, que desde logo é bem visível na composição do organismos de direcção… Por exemplo, na representação na Assembleia da República, hoje, o grupo parlamentar do PCP é o mais jovem, com uma série de jovens de diferentes áreas de formação, e que dão contributos que em nada ficam atrás de outros históricos que no passado deram, e continuarão a dar outras formas de contribuição… Mas há de facto essa linha de profunda renovação e rejuvenescimento que, a todos os níveis, eu acho que estão a acompanhar  nossa intervenção.

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FN – Os sindicatos sempre foram um campo fértil de militantes do PCP. É legitimo pensar que o PCP está a perder terreno para outras forças políticas neste domínio específico?

ES – Não me parece. Em primeiro lugar, o PCP olha o movimento sindical como um movimento autónomo, respeitando a independência desses movimentos sociais, de livre organização dos trabalhadores, e existem em todos os sindicatos, desde os dos professores aos dos enfermeiros, ao da hotelaria, à construção civil, existem sindicatos e sindicalistas com referências de memória, com uma cultura política nem sempre coincidente. Nós não olhamos para o movimento sindical com uma qualquer ambição aglutinadora, ou de dominação. A concepção que temos é que essas estruturas, as estruturas referentes à livre organização dos trabalhadores, constitui uma componente fundamental para o aprofundamento da democracia. Porque a organização dos trabalhadores para a defesa dos seus direitos a partir dos seus locais de trabalho, essa livre organização dos trabalhadores é fundamental até para um progresso civilizacional, porque é pela capacidade de organização dos trabalhadores nas suas empresas e locais de trabalho, a partir dos seus interesses de classe, é, enquanto trabalhadores, na defesa dos seus direitos, que a própria democracia se aprofunda, progride, na medida em que há uma conquista de direitos, na medida em que há uma afirmação dos direitos… é a própria sociedade que cresce do ponto de vista da sua afirmação e evolução civilizacional. É nessa pespectiva que nós entramos nos sindicatos: como mediações indispensáveis para a construção da democracia. No respeito pela autonomia de cada uma dessas estruturas. Nós não temos uma avaliação em relação ao movimento sindical em relação a qualquer ganho ou qualquer prejuízo… O importante é que os trabalhadores estejam organizados nos seus sindicatos.

FN – Foi padre. Isso influenciou de alguma forma a sua visão política?

ES – Sim. Eu fui durante anos padre católico, e assumo-me como cristão, e tenho a consciência de que essa experiência, essa vivência, essa memória, em primeiro lugar estando viva em mim, e essas opções fundamentais não foram postas de parte, e é na fidelidade a essa opção fundamental em relação àqueles que são os mais fracos, os mais pobres, os mais desfavorecidos, mas também aquelas que são aquelas articulações, estes elos de memória com o desejo e o compromisso de construção de objectivos de justiça social de maior solidariedade e fraternidade… eu sou muito daquilo que aprendi de todo um percurso na Igreja Católica. E portanto, toda a minha formação, como cidadão, teve muito a ver com um percurso que fiz no seio da Igreja Católica, e acho que estou muito ainda… não queria dizer dependente, mas estou muito, ainda, associado a essa memória. Eu não seria o que sou sem essa aprendizagem.

FN – Uma dupla pergunta: o que pensa da doutrina social da Igreja, e nunca lhe foi difícil conciliar o cristianismo com o marxismo?

ES – O cristianismo e o marxismo não são incompatíveis nem inconciliáveis. Não que se trate de duas ideologias… O cristianismo tem a ver com o plano da fé, a vivência da fé, o marxismo tem a ver com o plano ideológico, com uma vivência ideológica. O marxismo é um pensamento filosófico que tem uma matriz ideológica própria, e existem muitas outras linhas de pensamento filosófico com uma matriz ideológica própria de estruturação… O cristianismo nem é um dogma, mas não é uma ideologia. O marxismo também não corresponde a um dogma, e muito menos a uma fé. São dois universos diferentes, mas que podem ser colocados em interacção. O marxismo pode ser um instrumento muito importante, útil e indispensável para que um cristão possa ser consequente com os seus valores de fé. O marxismo é um instrumento, uma ferramenta complementar, e que em muito pode ajudar um cristão a ser consequente. O cristianismo dá-nos valores, no cristianismo estamos associados a uma vivência da fé… O marxismo, para um cristão, é uma contribuição para a análise, para  a compreensão dos fenómenos sociais, e que nos projecta para a prática, para a intervenção. Quando a um cristão se coloca esta questão, esta necessidade: eu quero intervir, eu quero contribuir para a formação de um mundo novo, o marxismo ajuda à materialização, ajuda ao levar à prática, porque nos impele para uma práxis, para um agir consequente, e desse ponto de vista de modo nenhum são incompatíveis, são universos diferentes, mas que podem ser complementares. O marxismo pode, em muito, ajudar o cristão a ser consequente.

FN – E como vê a doutrina social da Igreja, actualmente?

ES – A doutrina social da Igreja não é uma ideologia, nem é um manual de intervenção política, nem é um catálogo ou um catecismo quanto à organização da sociedade nas questões sociais. Corresponde a um universo de interpretação e de apelo a um conjunto de valores que devem depois ter materialização na intervenção política.

FN – O CDS assume-se como democrata-cristão. Considera que de facto o é?

ES – Quem o diz é a própria hierarquia da Igreja, já desde o Concílio Vaticano II não há nenhum partido dos católicos, nem dos cristãos, nem o pensamento cristão pode ser apropriável por um qualquer partido. O que a Igreja Católica e o cristianismo considera é que cada cristão, cada católico, neste caso, em consciência, deve fazer um livre opção por aqueles partidos que permitam levar à prática, da melhor forma, aquilo em que o cristão diz acreditar. Mas nenhum partido se pode arvorar como representantivo dos cristãos, e do pensamento social da Igreja muito menos. Isso contrariaria tudo quanto a própria Igreja tem afirmado.

FN – O CDS tem-se afirmado como muito actuante. Mas ao mesmo tempo, há severos receios de que se venha a assumir como uma espécie de muleta do PSD, nos eventuais resultados eleitorais que se admite poderem vir a acontecer. Como veria uma coligação do PSD com o CDS? Acha que o CDS seria um contributo pior ainda, para aquilo que já critica no PSD?

ES – Acho que seria algo terrível. Como se não bastasse o PSD de Miguel Albuquerque apontar para orientações que ainda são mais brutais do que aquelas que são defendidas por Passos Coelho e Paulo Portas, nós aqui na Madeira, depois de um conjunto de décadas de maioria absoluta do PSD, com todas as arbitrariedades e abusos de poder, e com tudo o que foram erradas políticas de desenvolvimento regional, se aí a política de direita levou a situações desastrosas, tão desastrosas como aquelas que hoje vemos, o facto de o PSD não ter maioria absoluta e precisar do CDS como uma bengala para construir uma maioria absoluta seria desastroso, seria terrível, porque levaria a que a política de direita que está a ser imposta por Passos Coelho e Paulo Portas no plano nacional, aqui ganhasse um ritmo e uma intensidade muito mais feroz, com uma agravante: é que teria não só uma base social e eleitoral mais vasta, mas teria uma suposta legitimidade para ainda cavar mais nestas políticas de terrorismo social.

FN – José Manuel Rodrigues afirma-se contrário ao posicionamento do partido ao nível nacional, nas questões que afectam efectivamente a Madeira. Não acredita?

ES – Olhe, quando o CDS e o PSD estão no Governo, e quando José Manuel Rodrigues, que é membro dos órgãos nacionais do partido, estão já a preparar as próximas eleições legislativas, onde o PSD e o CDS vão concorrer em coligação, quer naquela que foi a prática de governo, quer naquela que é a perspectiva de futuro, estiveram sempre em sintonia. É óbvio que agora, tal como noutras situações o fizeram, há alguma hipocrisia ou algum discurso de circunstância, que pode levar a que digam “ah, isso são coisas lá de Lisboa”, como se aqui na Madeira fosse outro partido. Mas no essencial, em relação à política de direita, nunca, em situação alguma, o CDS defendeu algo substancialmente diferente daquilo que defende o PSD. Aliás, o José Manuel Rodrigues, quando se apresentou como candidato à Câmara, nas últimas eleições autárquicas, apresentou-se como o legítimo herdeiro de Fernão de Ornelas e o mais digno representante de Miguel Albuquerque, e consequentemente da sua herança. Ora, se na última eleição autárquica assim se apresentou José Manuel Rodrigues, não é preciso dizer mais nada, quanto à profunda u total identificação entre o CDS de José Manuel Rodrigues, e o PSD de Miguel Albuquerque. Ao contrário do que diz um cartaz do CDS, que faz esta pergunta, “não querem mais do mesmo”, a resposta de José Manuel Rodrigues, na forma como se apresentou nas últimas autárquicas, dá a resposta: seria mais do mesmo.

 FN – Como vê a actual situação de pobreza na Madeira, e sua evolução desde o tempo em que acompanhava os “meninos das caixinhas”?

ES – Nós tivemos uma situação, sobretudo a partir do final da década de 90, e a partir do início do séc. XXI, até 2010, 2014… sobretudo até 2010. Nessa altura, nos anos 80, início dos anos 90, foram muitas as denúncias do agravamento da situação da pobreza, da miséria e da fome, e na sequência de um conjunto de políticas quer de âmbito europeu, de âmbito nacional, e também de algumas intervenções no plano regional, os problemas referentes à pobreza mais descalça em muito foram superados. E houve um avanço, quanto à execução de políticas sociais, que em muito amenizaram uma boa parte dos gravíssimos problemas de pobreza e miséria. Ora, esses passos que foram dados, que permitiram que a Região tivesse reduzido algumas das suas taxas de pobreza, todo esse avanço, sobretudo até 2010, teve, a partir daí, uma nova fase, e particularmente a partir de 2011, com um agravamento ano após ano, nós estamos a regredir outra vez. A Madeira estava na casa dos 32, 35 por cento de taxas de pobreza, as mais elevadas do país. Nós, embora fôssemos a região com maior número de pobres de Portugal, entre o final de 1980 e até 2000, progredimos sensivelmente. E viemos dando passos, só que entrámos numa linha de regressão. Estas políticas, o PAEF, todos os cortes que já vêm do governo socialista, os cortes no abono de família, os cortes realizados já com o PSD e o CDS, no subsídio de desemprego, o aumento do desemprego –que foi dos 7 aos 18 por cento (agora veio para os 15 por cento)… Temos a mais elevada taxa de Portugal de desemprego jovem… Ou seja, há um conjunto de situações, devido a estas políticas de terrorismo social, que estão a impor um retrocesso em relação a progressos que tínhamos feito. E estamos a voltar às taxas do início dos anos 80. Nós passámos dos 35, 32 por cento, para os 18 a 20 por cento na taxa de pobreza… Hoje estaremos de certeza, na melhor das hipóteses, na casa dos 35 por cento da população em situação de pobreza absoluta. Ora, esta é uma situação gravíssima. Para muita gente, a vida ficou num verdadeiro desespero. E é com grande preocupação que assumimos esta situação de profunda regressão social, de agravamento das grandes desigualdades sociais, e o aparecimento de fenómenos de pobreza que nós só tínhamos visto na década de 80. Em muitos casos, estamos de novo a voltar àqueles casos de pobreza mais descalça, de meninos das caixinhas… situações de prostituição outra vez para vencer a fome, situações de emigração forçada, situações de desespero profundo. Enquanto problema social, esta situação é inquietante. Não é boa conselheira para ninguém.

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FN – Como analisa o actual estado do sistema de saúde na RAM?

ES – A saúde é uma das áreas que nós vemos com grande preocupação, porque estes últimos anos têm correspondido também a uma descaracterização do sistema regional de saúde. Se depois de 1974, com a autonomia, e a partir de 1976, o sector da saúde foi aquele em que as pessoas mais sentiram benefícios, era um pouco a ‘jóia da coroa’, foi onde se registaram ganhos efectivos de progresso humano e social… O sistema regional de saúde era, no seu modelo, bastante progressista, socialmente avançado, nós nos últimos anos temos assistido a um conjunto de políticas que visam descaracterizar o sistema regional de saúde. Temos problemas de promiscuidade entre o sector público e o sector privado, temos neste momento um conjunto de ameaças, situações que o PSD quer impor, de ‘quem quer ter saúde paga, se tem dinheiro paga, se não tem dinheiro aguenta’, esta situação com o corte nas comparticipações, o transporte de doentes pago ao quilómetro, pior ainda do que um serviço de táxi, um conjunto de cuidados, de prestações na área da saúde tendencialmente pagas… A tentativa de desarticular o sistema de proximidade, na linha da prevenção e cuidados de saúde, nomeadamente ao nível das urgências nos Centros de Saúde, descentralizadas… o fecho das urgências no Porto Moniz, Santana, Ribeira Brava, a tentativa de fechar alguns centros de saúde, e o PSD de Miguel Albuquerque que já anunciou essa intenção, e outros partidos têm também ido neste sentido, de anunciar uma reforma desta rede de centros de saúde apontando para o seu encerramento… A questão do novo hospital, que é outro problema, uma necessidade, algo que é imperioso para o progresso na área da saúde, para respostas adequadas e modernas na área da saúde aos cidadãos residentes na Região e não só… Nós vemos aqui também uma grande hipocrisia e contradição entre aqueles que dizem cá uma coisa, e lá defendem outra. Por exemplo, em 2010 foi aprovada uma resolução referente à construção do novo hospital. Essa resolução foi aprovada na Assembleia da República, por nossa iniciativa, só o PS votou contra, na altura, mas o PSD e o CDS votaram a favor, dizia três coisas: que o novo hospital era um projecto de interesse comum, teria carácter público e seria financiado enquanto projecto de interesse nacional, pelo Orçamento de Estado. Isto foi aprovado em 2010. Desde então, esta resolução vinculou o Estado português a todo o apoio necessário à construção do novo hospital da Madeira. Na altura, o governo era PS. Depois, o CDS e o PSD, no governo, que votaram a favor desta resolução, tudo têm feito para impedir a concretização da mesma. O projecto do novo hospital está feito, pode ser ainda objecto de alguma reformulação, mas a grande questão que hoje se coloca é o financiamento. E este tem que ser, tal como foi aprovado pela Assembleia da República, a partir do Orçamento de Estado. E é nesse sentido que nós vamos insistir e intervir. Mas preocupa-nos ver um conjunto de outros partidos, alguns deles que votaram a favor desta resolução, a colocar uma série de outras questões completamente laterais, com divagações sobre como é que vai ser o financiamento, a procurar outras soluções… só há uma solução, é a que foi aprovada pela Assembleia da República e que vincula o Estado. E o que temos que fazer é isso, exigir que se dê cumprimento à mesma. É com preocupação que vemos estas situações de alguma inércia, e sobretudo de descaracterização do serviço de saúde.

FN – O dr. Alberto João Jardim foi um adversário feroz, para si, e o Edgar Silva para ele. Que leitura faz da situação actual do dr. Alberto João Jardim, relegado para um papel secundário agora no partido, mas mantendo o mesmo tipo de intervenção diária no Jornal da Madeira, no qual critica inclusive sectores do seu próprio partido?

ES – Há questões que são do foro interno do PSD, e têm que ser os próprios militantes do PSD a decidir. Agora, há uma questão que tem a ver com o exercício de funções públicas, o exercício de cargos de governo, sejam eles no plano legislativo, na Assembleia, ou na composição do governo. Nós temos que perceber, e essa é uma concepção que nunca pode deixar de estar presente no cidadão que se candidata, que exerce determinado tipo de funções, que em democracia, tudo é transitório. Em democracia, não se tem por profissão ser presidente do Governo. Isso não é profissão. Nem é profissão ser deputado. É uma  função. E as pessoas têm que perceber que a qualquer momento a vontade popular pode-se alterar, e aqueles que são eleitos hoje, amanhã deixarão rapidamente de o ser. E portanto nós temos que ter é uma visão de que, num determinado momento, podemos ser chamados a exercer determinada função, e que a devemos fazer com a maior competência e dedicação à causa pública. Mas tem que haver uma hora para sair. Quem está no exercício de cargos públicos nem sempre consegue interiorizar essa perspectiva, essa percepção de construir o momento da saída, o tal momento em que imperiosamente é necessário sair. E se não se sai a bem, sai a mal. Neste caso, até sairá um pouco a pontapé. É lamentável.

FN – A estigmatização, o facto de ser apodado, constantemente de ‘comuna’ nunca foi algo que o incomodou pessoalmente, relativamente à linguagem do dr. Alberto João Jardim?

ES – O dr. Alberto João Jardim muitas vezes usou e abusou do mais vil preconceito, de insinuações iníquas, da instrumentalização do preconceito, da difamação… mas muito para acicatar e alimentar ódios. Nós, na vida política, nesta intervenção enquanto cidadãos, não quer dizer que estejamos de acordo, ou que sejamos indiferentes a tais registos, sobretudo naquilo que tem a ver com o agudizar de processos de hostilização, porque isso não é digno nem aceitável em democracia… Em vez de projectar o diálogo das diferenças, e promover o respeito e tolerância pelas minorias, tantas das vezes houve a prevalência da prepotência, de um absolutismo bacoco, houve muitas vezes visões autoritárias que se sobrepuseram… sobretudo, muitas vezes, o ataque pessoal, o ataque mais vil, foi regra. Mas nós temos também que ter capacidade de resistência suficiente para enfrentar essas situações.

FN – Quem é Edgar Silva? Quais são os seus hobbys, os seus interesses pessoais, aquilo que não é imediatamente visível ao cidadão eleitor?

ES – Os meus hobbys… Gostaria de ter mais tempo para algumas coisas. Não tenho muito hobbys, pois o muito tempo livre, não o tenho… Normalmente o meu tempo é quase todo preenchido pela intervenção pública. Gostaria de ter mais tempo para ler, para tirar algumas notas, para desenvolver outro tipo de actividades, de projectos. Há coisas que gosto muito de fazer na área social… Gostaria de ter um pouco mais de tempo para fruir alguns aspectos da vida social e cultural, mas é muito exigente, esta intervenção que somos chamados a ter. Eu muitas vezes sinto que a gestão do tempo nem sempre é fácil. Tempo livre tenho-o apenas ao domingo à tarde, às vezes, um pouco, e depois tenho muita coisa para preparar… procuro ter muitas leituras diversificadas, quase de forma paralela, mas as limitações que a vida a que estamos obrigados nos impõe dá-nos pouco tempo para uma visão muito individualizada do tempo. Há coisas às vezes que faço quando posso, ir a um teatro, ver um filme ou assistir a um concerto… É mais fácil, muitas vezes, pegar num livro e ler uma passagem dum texto ou de um poema. Mas são percursos quase fugazes…

FN  – Gosta mais de música, literatura, teatro… quais as suas referências literárias e culturais?

ES – No meio do trabalho, da azáfama, uma coisa que me ajuda muito é por exemplo ler poesia. Dá-me lucidez, dá-me oportunidade de sentir que tenho coração, transporta-me para outro universo de valores, para outros olhares sobre a própria vida… Isso é indispensável, e é difícil não gerir o tempo sem que recorra a esse matar de sede. Mais até do que disponibilidade para muitas outras evasões, a poesia faz falta.

FN – Quem são os seus autores favoritos?

ES – Ah, eu gosto muito de Sophia de Mello Breyner, de Eugénio de Andrade…  Mas também depende dos momentos. Às vezes preciso também de textos que são mais cheios de fogo, não só os portugueses, como Raul Brandão… Gosto também de alguns poetas que me transportam mais para a mobilização de valores de justiça, para uma visão quase de compromisso, de acção… Os poetas, eu procuro-os muito em função da sede de cada um dos dias. Depende. Mas há alguns que são de eleição, que são predilectos, e nos acompanham nas viagens. Tenho particular apreço por Eugénio de Andrade, Sophia… são companheiros de viagem.