A crise da habitação deixou de ser um problema sectorial para se tornar um dos principais obstáculos ao projeto de vida dos jovens europeus. Em 2025, 9,1% das pessoas com idades entre 15 e 29 anos na União Europeia viviam em agregados que gastavam mais de 40% do rendimento disponível em habitação, face a 7,7% da população total.
O fenómeno é particularmente visível nas grandes cidades, onde a combinação entre salários baixos, contratos precários, procura intensa e oferta limitada empurra o custo das rendas para níveis incompatíveis com a independência habitacional. Entre 2010 e o primeiro trimestre de 2025, as rendas subiram 27,8% na UE, enquanto os preços da habitação aumentaram ainda mais depressa.
Uma geração adiada
O impacto não se resume à conta da renda. A dificuldade em encontrar uma casa acessível atrasa a saída da casa dos pais, condiciona a mobilidade para estudo ou trabalho, dificulta a constituição de família e amplia a exposição a habitação sobrelotada ou de má qualidade.
Em 2024, a idade média de saída da casa parental na UE situava-se nos 26,2 anos, mas variava entre os 21,4 anos na Finlândia e os 31,3 anos na Croácia. Além disso, cerca de três em cada dez jovens europeus entre os 16 e os 29 anos viviam em condições de sobrelotação, uma taxa 9,2 pontos percentuais superior à da população em geral.
A rua como resposta
A frustração tem traduzido-se em protestos em vários países. Em outubro de 2026, mobilizações em França, Itália, Bélgica, Espanha, Portugal e Albânia colocaram a habitação no centro de um conjunto mais vasto de reivindicações sobre custo de vida, salários e serviços públicos.
Em Espanha e Portugal, acampamentos em cidades como Madrid, Barcelona, Lisboa e Porto exigiram mais habitação pública e acessível. A exigência central é simples: uma casa não deve ser um privilégio reservado a quem tem poupanças, heranças ou rendimentos elevados, mas uma condição básica para participar plenamente na vida económica e social.
Países com realidades muito diferentes
O indicador mais usado para medir o problema é a taxa de sobrecarga com os custos da habitação: a proporção de pessoas que gastam mais de 40% do rendimento disponível em renda, energia, água e encargos associados. Os valores variam fortemente entre países, refletindo não só os preços, mas também o momento em que os jovens abandonam a casa dos pais e o acesso a habitação social.
| País | Jovens com sobrecarga habitacional (15–29 anos) |
Situação mais relevante |
|---|---|---|
| Grécia | 25,6% | Um dos valores mais elevados da UE; o problema persiste mesmo com saída tardia da casa parental. |
| Dinamarca | 26,9% | Mercado de arrendamento caro e forte disparidade face à população geral. |
| Países Baixos | Cerca de 15% | Mercado de arrendamento muito pressionado, sobretudo nas áreas urbanas. |
| Alemanha | Cerca de 15% | Cidades universitárias e metropolitanas com forte pressão sobre rendas. |
| Suécia | Cerca de 13,5% | Escassez de habitação acessível nas grandes áreas urbanas. |
| Portugal | 6,3%(população total, 2025) | Média nacional mais baixa, mas com forte concentração do problema em Lisboa, onde a taxa atinge 10%; os arrendatários a preços de mercado são especialmente afetados. |
| Croácia | 1,5% | Valor muito baixo entre jovens, associado em parte à saída tardia da casa parental. |
| Chipre | 2,3% | Também entre os países com menor sobrecarga juvenil. |
| Eslovénia | 3,1% | Um dos menores valores da UE. |
| Roménia | — | Apresenta a maior taxa de sobrelotação juvenil da UE: 60,4%. |
O que está em causa
Os números mostram que não existe uma única “crise europeia da habitação”, mas várias crises com causas comuns. Nos países nórdicos e na Alemanha, o problema está fortemente ligado à escassez e ao custo do arrendamento urbano; no Sul da Europa, soma-se a precariedade laboral e a insuficiência de habitação pública; no Leste europeu, a sobrelotação e a qualidade das habitações assumem maior peso.
Para os jovens, a consequência é a mesma: a habitação deixou de ser o ponto de partida para a autonomia e passou, em muitos casos, a ser o principal obstáculo. Sem mais oferta acessível, proteção dos arrendatários e políticas que liguem as rendas aos rendimentos locais, a promessa europeia da mobilidade e da igualdade de oportunidades continuará a esbarrar na porta fechada de um mercado imobiliário inacessível.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





