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Em Portugal e em Espanha, a crise da habitação deixou de ser um tema técnico para se tornar o principal motor de uma vaga de protestos liderada por jovens. As acampadas em Lisboa, no Porto e em Madrid mostram uma exigência comum: o direito a viver com autonomia nas cidades onde se estuda e se trabalha.
A pressão é particularmente forte porque, em ambos os países, os salários iniciais e a precariedade laboral não acompanham o ritmo de subida das rendas e dos preços das casas. O resultado é uma geração que adia a saída de casa, aceita deslocações longas ou habitações inadequadas e vê a compra de uma casa como um objetivo cada vez mais distante.
Portugal: preços em espiral
Portugal viveu uma das valorizações imobiliárias mais intensas da União Europeia. Entre 2015 e 2024, os preços das habitações subiram 124%, cerca do dobro da média europeia no mesmo período.
O impacto é desigual no território. Em 2025, a taxa de sobrecarga com os custos da habitação era de 6,3% no conjunto do país, mas chegava a 10% em Lisboa e a 8,6% no Algarve, regiões onde a procura turística, a escassez de oferta e os rendimentos locais criam pressões adicionais.
Para os jovens, a dificuldade não se limita à compra. Os manifestantes denunciam aumentos de renda que podem atingir 100 ou 200 euros de um ano para o outro, num contexto em que reclamam a reposição de limites às rendas e a revogação da nova legislação do arrendamento.
Espanha: rendas e despejos
Em Espanha, o estopim político foi o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, em Madrid, após um aumento de renda associado à compra do imóvel por uma empresa imobiliária. O caso transformou-se num símbolo nacional da vulnerabilidade dos inquilinos e alimentou protestos em dezenas de cidades.
As reivindicações espanholas concentram-se na redução das rendas, no fim dos despejos abusivos e na limitação da aquisição de habitação por fundos de investimento. O governo de Pedro Sánchez apresentou medidas para habitação acessível, mas não conseguiu aprovação parlamentar suficiente, o que contribuiu para a convocação de eleições antecipadas em novembro.
Duas crises, respostas diferentes
Portugal e Espanha partilham pressões semelhantes, mas a crise manifesta-se de formas distintas. Em Portugal, a narrativa pública dá grande peso à explosão dos preços de compra e à pressão sobre Lisboa e o Porto; em Espanha, o conflito em torno das rendas, dos despejos e do papel dos grandes proprietários institucionais está mais em evidência.
| Dimensão | Portugal | Espanha |
|---|---|---|
| Principal gatilho dos protestos | Aumento acentuado dos preços da habitação e das rendas, combinado com salários baixos e custo de vida. | Caso do despejo de Maricarmen Abascal em Madrid, que se tornou símbolo da insegurança dos inquilinos. |
| Evolução dos preços | As habitações subiram 124% entre 2015 e 2024, cerca do dobro da média da UE. | O aumento das rendas e a pressão do mercado de arrendamento nas grandes cidades estão no centro da contestação. |
| Territórios mais pressionados | Lisboa e Porto, com forte concentração de procura, turismo e escassez de habitação acessível. | Madrid, Barcelona e outras grandes cidades, onde as rendas e os despejos mobilizam movimentos de inquilinos. |
| Principais reivindicações | Limites às rendas, revogação da nova lei do arrendamento, mais habitação pública e uso de imóveis do Estado para rendas acessíveis. | Rendas mais baixas, proteção contra despejos, regulação dos fundos de investimento e mais habitação acessível. |
| Forma de mobilização | Acampadas no Rossio, em Lisboa, e na Praça de D. João I, no Porto, com ligação a sindicatos e movimentos juvenis. | Acampamento na Puerta del Sol, em Madrid, e manifestações em mais de 50 cidades. |
| Resposta política | Pressão sobre o Governo de Luís Montenegro, acusado pelos manifestantes de favorecer proprietários e o setor imobiliário. | Medidas do Governo socialista não obtiveram apoio parlamentar suficiente; a habitação tornou-se tema central das eleições antecipadas. |
A proximidade entre os movimentos é evidente. Os jovens portugueses instalados no Rossio inspiraram-se nas acampadas espanholas e defenderam uma “greve geral ibérica” a 11 de novembro, em articulação com a paralisação convocada em Espanha.
No Porto, os manifestantes anunciaram a intenção de manter a ocupação até ao final do ano, enquanto em Lisboa as assembleias procuram transformar o protesto numa pressão política sustentada junto dos sindicatos e das instituições. O lema repetido nas ruas — “rendas de luxo, ordenados de lixo” — resume a perceção de que o problema não é apenas o preço da casa, mas a relação entre esse preço e aquilo que o trabalho permite pagar.
O desafio político
A questão colocada a Lisboa e a Madrid é a mesma: como aumentar a oferta de habitação efetivamente acessível sem deixar o mercado imobiliário a definir sozinho quem pode viver nas cidades. Isso implica mais habitação pública e cooperativa, regulação equilibrada do arrendamento, controlo da conversão de habitação em alojamento turístico e medidas que protejam inquilinos vulneráveis.
Para os jovens portugueses e espanhóis, a habitação tornou-se o teste prático da promessa de mobilidade social. Enquanto uma casa continuar a consumir uma parte desproporcionada do salário, a revolta não será apenas sobre imóveis: será sobre o direito a construir um futuro no próprio país.
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