Caros jovens, o senhor Benjamim Pereira, presidente do IHRU, recebe 6.484,31 euros por mês e tem a coragem de perguntar se vocês estão disponíveis para o “nível de sacrifício” dos vossos avós e pais. É uma pergunta legítima, feita por alguém que conhece o peso de uma prestação habitacional sobretudo através de extratos bancários confortavelmente arredondados.
Com 6.484,31 euros, dá para pagar uma renda, poupar, pagar impostos, fazer férias e ainda sobrar dinheiro para aconselhar os outros sobre emigração. Já com um salário mínimo, o jovem consegue escolher entre pagar casa, comer, ir ao médico ou ter esperança — mas não tudo ao mesmo tempo. É por isso que se diz que a juventude é a idade da escolha.
A matemática da empatia
Os avós emigraram para comprar casa. Os pais emigraram durante 20 anos. Os jovens de hoje, porém, são acusados de falta de espírito de sacrifício porque não querem emigrar, trabalhar dois empregos, morrer de renda e ainda agradecer ao Estado pela oportunidade de ouvir isto de quem ganha mais de 6.400 euros mensais.
É verdade que os tempos mudaram: antes, sacrificava-se a distância; agora, sacrifica-se a aritmética. Quando o preço das casas triplicou e o salário mínimo nem chegou a metade desse aumento, o problema já não é falta de coragem — é falta de multiplicação.
Um exemplo para a nação
Benjamim Pereira não precisa de emigrar, de fazer cooperativa nem de dividir um quarto com três desconhecidos. Recebe um salário que permite olhar para a crise habitacional com a distância elegante de quem está do lado de cima da escada e pergunta, genuinamente, porque é que os de baixo não sobem mais depressa.
Por isso, jovens, sigam o exemplo: sacrifiquem-se. Só não esperem que quem recebe 6.484,31 euros por mês perceba exatamente o que significa escolher entre a renda e a vida. Isso seria pedir demasiado — quase tanto como pedir casas a preços que acompanhem os salários.
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