
Miguel Albuquerque deu-nos ontem mais uma das suas aulas de gestão e desenvolvimento económico. Desta vez ficámos a saber que a principal âncora do Porto Santo não é aquela insignificância de nove quilómetros de areia dourada que durante décadas vendeu a ilha ao mundo.
Não.
Segundo o presidente do Governo Regional, a principal âncora do Porto Santo é, “sem sombra de dúvidas”, o golfe.
E atenção: ninguém de bom senso discute a importância do golfe para o Porto Santo. Os números mostram que é uma aposta importante, sobretudo para combater um dos maiores problemas da ilha: a sazonalidade.
Em 2025, o Porto Santo Golfe bateu o seu recorde, com 39.749 voltas, cerca de 1,5 milhões de euros de receitas e mais de 500 mil euros de resultado líquido. Mais de 60% dos jogadores foram dinamarqueses e a procura concentra-se sobretudo entre janeiro e maio e entre setembro e dezembro.
Excelente.
É precisamente aí que o golfe demonstra todo o seu valor: traz pessoas à ilha quando a praia, naturalmente, traz menos. Ajuda hotéis, restaurantes, rent-a-cars, táxis e outros serviços a trabalhar durante a época baixa.
Mas uma coisa é dizer isto. Outra, completamente diferente, é transformar o golfe na “principal âncora do Porto Santo, sem sombra de dúvidas”. Porque depois aparecem uns números chatos.
Só em 2024, o Porto Santo registou praticamente 500 mil dormidas turísticas. Em 2023, foram cerca de 515 mil dormidas, quase 119 mil hóspedes e mais de 36 milhões de euros de proveitos apenas no alojamento turístico.
Compare-se a dimensão destes números com os cerca de 1,5 milhões de euros de receitas diretas do campo de golfe em 2025.
Naturalmente, não podemos concluir que o golfe representa apenas determinada percentagem da economia turística, porque um golfista também dorme, come, bebe, apanha táxis, aluga carros e deixa dinheiro na economia local.
Mas os números ajudam, pelo menos, a perceber as ordens de grandeza.
E há mais. Em 2023, das 33.900 voltas realizadas no Porto Santo Golfe, 27.778 estavam associadas à operação escandinávia. Mais de 80%.
Isto demonstra precisamente aquilo que me parece evidente: o golfe é uma extraordinária ferramenta para captar determinados mercados e levar turistas ao Porto Santo durante os meses em que o turismo balnear perde força.
Ou seja, é uma excelente âncora da época baixa.
Mas aparentemente isso já não chega.
Agora é preciso promovê-lo a âncora principal da ilha. Talvez alguém devesse avisar também o Turismo da Madeira.
É que a promoção oficial continua a apresentar o Porto Santo como uma ilha famosa pela sua praia de areia dourada com nove quilómetros. A mesma praia que já foi distinguida como Melhor Praia da Europa.
Aliás, até a própria empresa pública responsável pelo Porto Santo Golfe reconheceu nos seus relatórios o efeito positivo dessa distinção na procura turística da ilha.
Tem graça.
Até o golfe reconhece a importância da praia.
Mas o presidente do Governo já descobriu que afinal andámos todos enganados estes anos todos.
Também será certamente por causa do golfe que os hotéis foram sendo construídos junto ao mar. Será por causa do golfe que milhares de madeirenses atravessam todos os verões para o Porto Santo. Será pelo golfe que as imagens promocionais mostram aquela enorme extensão de areia dourada e aquele mar. E deve ser também por causa do golfe que, no terceiro trimestre de 2025, nada menos que 81,3% das dormidas no Porto Santo foram de residentes em Portugal. Talvez fossem todos à procura do buraco 18…
O curioso é que ninguém precisa de diminuir o golfe para reconhecer aquilo que ele representa.
Pelo contrário.
O golfe pode ser uma das melhores apostas que o Porto Santo fez para combater a sazonalidade. Pode justificar investimento público. Pode gerar emprego. Pode trazer mercados com maior poder de compra e pode ajudar a manter a economia da ilha viva durante os meses em que o sol e a praia já não conseguem encher hotéis.
Tudo isso é defensável.
Agora querer convencer-nos de que a principal âncora do Porto Santo não é a praia, mas “sem sombra de dúvidas” o golfe, já é outra modalidade.
E talvez nem seja golfe. É mais tiro ao alvo. Porque há uma diferença enorme entre dizer que precisamos de diversificar o produto turístico do Porto Santo e tentar reescrever aquilo que durante décadas colocou a ilha no mapa.
A praia é a âncora natural. O golfe é uma excelente âncora complementar, particularmente importante na época baixa.
E ainda bem que existe.
Não precisamos é de transformar uma boa aposta num novo dogma governamental só porque politicamente dá jeito justificar os milhões que estão e continuarão a ser investidos nesta área. Até porque, se há coisa que os números demonstram, é precisamente isto: o golfe ajuda o Porto Santo a viver quando a praia descansa. Não substitui a praia. A não ser, claro, na cabeça de quem governa.
E aí, reconheço, há muito que se joga num campo diferente do nosso.
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