
Nelson Veríssimo
Jerónimo Dias Leite, o primeiro cronista da Madeira, explicou a origem do topónimo Ponta do Pargo: «Da Calheta passou o capitão (Zarco) abaixo até à derradeira ponta sobre o mar, donde parece que não há mais terra, e, estando aqui, lhe trouxeram os do batel de Tristão e do batel de Álvaro Afonso um peixe que parecia pargo de maravilhosa grandeza e o maior que até àquele tempo tinham visto, pela razão do qual peixe ficou nome àquela ponta a do Pargo.»
Não se conhece a data da instituição desta freguesia. Contudo, em 1518 existia já a paróquia da Ponta do Pargo, com sede na capela de São Pedro.

A matriz sofreu diversas reedificações, nomeadamente nos finais do século XVII, na década de 1850 e nos meados do XX. Sobre a cornija do portal lateral do lado poente, assenta uma pedra de armas esculpida com as insígnias pontifícias – tiara papal sobre as chaves de São Pedro cruzadas em aspa –, numa clara alusão ao orago do templo. A chave do arco de volta perfeita apresenta decoração estriada e uma inscrição epigráfica, onde aparentemente se lê a data de 1692, cuja leitura carece de confirmação devido ao desgaste da cantaria. A inscrição poderá relacionar-se com uma campanha de reconstrução da igreja.

Desde março de 2026, o adro da igreja está a ser profundamente alterado. Na intervenção em curso, da responsabilidade da Câmara Municipal da Calheta, foi retirado o pavimento em calçada madeirense, da entrada da igreja, que exibia os atributos de São Pedro e a data de 1951.
O Diário de Notícias (Funchal, 26-03-2026, p. 2) publicou um artigo sob a epígrafe «Ponta do Pargo ganha nova praça», ilustrado com maquetas, mas, estranhamente, o jornalista nada referiu quanto ao destino da bonita calçada madeirense do adro. A observação das maquetas publicadas sugeria a não reposição do pavimento tradicional. E, na realidade, foi destruído.

Tratando-se de uma igreja classificada como Património Cultural da Região Autónoma da Madeira é procedimento condenável e revelador de negligência e falta de zelo de quem tem o dever institucional de salvaguardar os bens culturais. A destruição deste pavimento é ainda mais grave, considerando que a Direção Regional de Cultura, a Câmara Municipal da Calheta e a Diocese do Funchal apoiam o dossiê da candidatura dos «Saberes e Técnicas da Calçada Madeirense» ao Inventário Nacional de Património Cultural Imaterial (INPCI). A propósito convém perguntar onde se encontram as pedras da calçada que foram arrancadas.
Em 1960, a freguesia da Ponta do Pargo foi dividida em duas paróquias: São Pedro e Nossa Senhora do Amparo. Nesta freguesia, existem ainda as Capelas de Nossa Senhora da Boa Morte, no sítio do Cabo, instituída em 1666 por Custódio Nunes da Costa e reconstruída nos anos 50 do século XX, e a de Nossa Senhora da Boa Viagem e do Bom Caminho, na Lombadinha, fundada por graça obtida por Manuel Mendes Gouveia, sua esposa e filha, na década de 60 do século XX.


Com a instituição do concelho do Porto do Moniz em 1835, a freguesia da Ponta do Pargo passou a fazer parte deste município. Em 7 de novembro de 1849, o município do Porto do Moniz foi suspenso e a Ponta do Pargo integrada no da Calheta. Em 24 de outubro de 1855, restabelecido o concelho do Porto do Moniz, a Ponta do Pargo regressou ao seu domínio. No entanto, em 26 de junho de 1871, a Ponta do Pargo, do concelho do Porto do Moniz, ficou pertencendo, para todos os efeitos eclesiásticos, administrativos, judiciais e de fazenda, ao concelho da Calheta, na sequência de uma representação dos eleitores daquela freguesia. E até hoje pertence ao município da Calheta.
Quando não havia estrada de ligação à Ponta do Pargo, o Calhau do Pesqueiro era o local mais acessível para o transporte por mar de pessoas, mercadorias e gado. Neste lugar, foram escavadas furnas destinadas ao armazenamento de mercadorias e apetrechos de pesca. Para facilitar o transporte de mercadorias, foi montado um cabo aéreo (fio de carga) entre o cimo da arriba e o calhau. O desprendimento de rochas era, porém, perigo iminente. Do Calhau do Pesqueiro ao centro da freguesia, são quase duas horas a caminhar numa vereda íngreme e tortuosa. Pelo Calhau do Pesqueiro partiram muitos emigrantes clandestinos para a Guiana Inglesa no século XIX.

Em 22 de junho de 1941, ocorreu a inauguração do troço de estrada dos Prazeres (Ribeira da Maloeira) à Ponta do Pargo (Pedregal), permitindo o acesso de automóvel a esta freguesia. A Via Expresso chegou à Ponta do Pargo em 2 de agosto de 2021, possibilitando rápida acessibilidade a esta localidade.
No passado, nesta freguesia cultivava-se trigo e linho e criava-se gado vacum. Hoje os terrenos agrícolas estão, na sua maioria, abandonados. A produção de pêros é também muito reduzida devido aos incêndios, ao pequeno número de produtores e aos métodos de produção. Na habitual Festa do Pêro, vende-se maçã importada. A utilização ou o comércio de produtos de outras origens nas festas ditas regionais é, aliás, frequente, como, por exemplo, nas Festas da Flor e da Cereja.
Em fase de construção, encontra-se o Campo de Golfe da Ponta do Pargo, projetado por Nick Faldo. Segundo o Governo Regional da Madeira, esta infraestrutura irá valorizar a Zona Oeste, ampliando a oferta turística da Região e contribuindo para a criação de emprego e o desenvolvimento sustentável da economia local. Previstos estão também projetos com fins imobiliários de natureza turística e residencial, com o objetivo de atrair investimento privado.
Em 2024, o presidente do Governo Regional da Madeira falou num investimento de 12 milhões de euros numa infraestrutura que incluía uma área residencial e dois hotéis, prevendo a sua conclusão em 2026 (DN, Funchal, 29-06-2024). Todavia, em 13 de janeiro de 2026, a RTP-M noticiou que o Governo Regional já gastou mais de 50 milhões de euros no campo de golfe da Ponta do Pargo.
O farol da Ponta do Pargo começou a funcionar em 5 de junho de 1922, porém o início dos estudos para a sua implantação remonta a 1896. Em 1911, concluiu-se o projeto de construção, mas a Grande Guerra atrasou a obra.

A torre tem 14 metros de altura e 312 metros de altitude. Foi então equipado com um aparelho lenticular de 2.ª ordem (700 mm de distância focal), de rotação, dando grupos de três relâmpagos brancos de 20 em 20 segundos, e constituído por dois grupos de três lentes de 60 graus cada uma. Efetuava uma rotação completa em 40 segundos, produzida através da máquina de relojoaria. A fonte luminosa era um candeeiro de nível constante a petróleo.
O farol foi eletrificado em 1958 com a montagem de grupos eletrogéneos, ficando como reserva o gás.
A rede elétrica chegou à Ponta do Pargo em 25 de agosto de 1959. Trinta anos depois, o farol foi eletrificado com energia da rede pública e automatizado. O seu alcance luminoso é de 26 milhas náuticas (48,1 km).
Pela Resolução n.º 95/99, de 2 de fevereiro, o Governo Regional declarou o farol da Ponta do Pargo como bem cultural de Valor Local.
Desde 2001, o farol dispõe de um pequeno polo museológico. Em 1 de fevereiro e 6 de outubro de 2020, a imprensa anunciou que a Câmara Municipal da Calheta iria criar um espaço museológico dedicado ao linho na freguesia da Ponta do Pargo, mas este projeto ainda não se concretizou.
Só em dezembro de 1971 foi estabelecida uma estação dos CTT na Ponta do Pargo.
Nesta freguesia, encontram-se diversos miradouros, caracterizados por falésias vertiginosas que mergulham diretamente no Atlântico, como o do Fio, do Farol, do Pedregal e do Cabo. De salientar ainda a muita procurada Aguage, agora turisticamente conhecida por Garganta Funda, na Ribeira dos Moinhos.


Nos ‘Censos de 2021’, esta freguesia apresentava 803 habitantes. Desde 1940, a população tem vindo a diminuir consideravelmente. Pelos últimos Censos, verifica-se que a população era 26,1% da de 1940. O índice de envelhecimento em 2021 foi de 290 idosos por cada 100 jovens. Este valor significa que a freguesia apresentava quase três vezes mais população idosa do que população jovem. O predomínio da população idosa tem impacto nas políticas sociais, serviços de saúde e planeamento local.
O Recenseamento Eleitoral, de 15 de junho de 2025, registou 1021 cidadãos nacionais e 4 estrangeiros de fora da União Europeia.

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de verde, asna abaixada de vermelho, perfilada de ouro, acompanhada em chefe por duas chaves, uma de ouro e outra de prata, passadas em aspa e com os palhetões para o chefe e, em ponta, um pargo de prata, realçado de negro. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: “PONTA DO PARGO – CALHETA”. (Diário da República, n.º 240, 3.ª Série, Parte A, de 16-10-2001).
Agradecimentos: Rev.º Padre Roberto Manuel Sé Aguiar e Engenheiro geólogo João Baptista.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




