Sustentabilidade em debate: certificação da Madeira gera críticas sobre impacto real do turismo

AF!

A recente divulgação de que a Madeira se “consolida como destino turístico sustentável” reacendeu o debate político na Região Autónoma, com críticas vindas da oposição a questionarem a validade dos indicadores apresentados e a forma como a narrativa oficial tem sido construída.

A polémica ganhou força após a deputada do Partido Socialista na Assembleia Regional, Sílvia Sousa Silva, acusar o Governo Regional de promover uma imagem artificial de liderança internacional em matéria de sustentabilidade, sustentada em critérios que considera seletivos e desajustados à realidade vivida no arquipélago.

Em causa está uma certificação que posiciona a Madeira como referência no turismo sustentável, mas que, segundo a deputada, assenta em indicadores que privilegiam aspetos periféricos ou incompletos da sustentabilidade, deixando de fora dimensões críticas relacionadas com o impacto direto da atividade turística no território e na qualidade de vida dos residentes.

Entre os exemplos apontados está a gestão de resíduos. Embora os dados divulgados indiquem baixos níveis de deposição em aterro — cerca de 22 litros por pessoa por ano — a crítica sublinha que este número, por si só, não traduz eficiência ambiental. A oposição defende que o foco deveria estar no aumento da recolha seletiva e na reciclagem, áreas onde a Região apresenta desempenhos abaixo da média nacional e europeia.

Outro dos pontos levantados prende-se com a metodologia da avaliação externa. Segundo a deputada socialista, os auditores terão sido conduzidos a locais específicos que não refletem a generalidade das infraestruturas regionais, levantando dúvidas sobre a representatividade das conclusões. É também questionada a composição do painel de entidades ouvidas, considerado excessivamente alinhado com a estrutura governativa.

A qualidade das águas balneares, frequentemente destacada como um dos principais indicadores de excelência ambiental, também foi alvo de reservas. Apesar dos níveis elevados de conformidade nas análises realizadas, a crítica aponta para possíveis lacunas na seleção dos locais e momentos de recolha das amostras, que poderão não captar situações de sobrecarga associadas ao crescimento do turismo.

Paralelamente, são referidos problemas concretos no terreno que, na perspetiva da oposição, contrastam com a imagem de sustentabilidade promovida. Entre eles, a acumulação de resíduos em percursos pedestres, a pressão sobre infraestruturas de saneamento e o aumento da sinistralidade em trilhos classificados, num contexto em que continuam por publicar normas de segurança previstas na legislação regional.

A crítica estende-se ainda ao que é descrito como uma excessiva dependência do setor turístico, com alegada subordinação das políticas ambientais aos interesses económicos associados ao aumento de visitantes. Neste enquadramento, a sustentabilidade seria utilizada mais como instrumento de marketing territorial do que como eixo estruturante de políticas públicas.

O Governo Regional, por seu lado, tem defendido a robustez do processo de certificação e a consistência da estratégia adotada, sublinhando o reconhecimento internacional obtido e o conjunto de medidas implementadas ao longo dos últimos anos em áreas como eficiência energética, mobilidade e preservação ambiental.

Este confronto político evidencia uma divergência mais profunda sobre o próprio conceito de sustentabilidade aplicado à realidade insular: enquanto o executivo destaca resultados e distinções externas, a oposição insiste na necessidade de avaliar impactos reais e mensuráveis no território e na vida dos cidadãos.

Num contexto de crescente pressão turística e de exigência internacional em matéria ambiental, a discussão sobre o que significa, na prática, ser um “destino sustentável” tende a ganhar centralidade no debate público regional — não apenas como questão de imagem, mas como desafio estrutural ao modelo de desenvolvimento da Madeira.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.