Já em 2024 utilizámos esta comparação irónica para lamentar a progressiva descaracterização da zona velha da cidade do Funchal. Mas a comparação se calhar faz sentido. Conhecemos tanto o Caminito, um bairro típico de Buenos Aires, como a Zona Velha porque lá nascemos e crescemos. O que pretendemos é uma crítica algo satírica à transformação urbana que ocorreu no Funchal. E ao mesmo tempo deixar um alerta.
A Zona Velha do Funchal perdeu da sua identidade histórica e tradicional madeirense ao sucumbir à massificação turística.
O Caminito é um famoso “museu a céu aberto” localizado no histórico bairro de La Boca, em Buenos Aires. É internacionalmente conhecido pelas suas tradicionais casinhas coloridas de zinco, que remontam à chegada dos primeiros imigrantes genoveses no final do século XIX.
A Zona Velha do Funchal passou por um processo de revitalização urbana e turistificação muito semelhante ao do Caiminito. O grande motor dessa transformação foi o projecto ” Arte de Portas Abertas”, que transformou a Rua de Santa Maria numa galeria de arte ao ar livre.
A intenção era tornar a zona velha um lugar mais colorido, moderno e aprazível. Mas tanto moradores como analistas locais consideram hoje que a massificação turística, a proliferação de esplanadas e o foco na arte urbana colorida aproximaram a identidade da Zona Velha à do bairro portenho. O que acabou por se perder foi a identidade original da área… O Caminito também foi revitalizado nos 50 pelo pintor Benito Quinquela Martin, usando fachadas como telas.
Há que reconhecer que a Zona Velha do Funchal antes era uma área degradada e estigmatizada, e que ganhou nova vida a partir de 2010/2011 quando os artistas foram convidados a pintar cerca de 200 portas e fachadas esquecidas.
O mentor da ideia e impulsionador foi o fotógrafo espanhol José Maria Zyberchema, que apresentou a proposta à Câmara. João Carlos Abreu ex-secretário regional do Turismo e Cultura, foi a figura institucional que apoiou e ajudou a viabilizar a iniciativa. Martinho Mendes, artista madeirense, também esteve na génese da proposta e pintou a primeira porta do projecto (na Rua da Carreira) em 2010.
A iniciativa contou com a assinatura de centenas de artistas ao longo dos anos. Algumas das portas mais emblemáticas da Rua de Santa Maria foram pintadas por criadores como Marcos Milewski, Patrícia Sumares, Rodrigo Quintal, Maribel Jardim, Helena Berenguer, Oleksandr Gonchorov ou Gonçalo Martins, entre outros.
Entre ambos os espaços, o da Madeira e o da Argentina, há, porém, diferenças marcantes de arquitectura. O Caminito destaca-se pelos conventillos feitos de madeira e zinco corrugado. A Zona Velha do Funchal mantém a sua traça arquitectónica histórica “intocada” com ruas estreitas de calçada de pedra calhau rolado e as típicas fachadas de pedra reboco dos séculos XV e XVI. No aspecto artístico do Caminito, a identidade visual é fortemente ligada ao Tango e à imigração.
Já no Funchal as pinturas das portas abordam temas livres, que vão desde a etnografia madeirense e literatura poética (com excertos dos nossos maiores poetas fixados nas paredes dos edifícios, hoje em estado degradado) até a arte abstracta e surrealista.
O ponto mais sensível, crítico e debatido sobre o Funchal, que nunca é demais lembrar, é que é aqui, neste espaço hoje muito descaracterizado para turista ver, que se situa o berço histórica da cidade, com núcleo de Santa Maria
onde nasceu o primeiro povoamento da Ilha no século XV. O mesmo vive um forte conflito entre a preservação da sua memória colectiva e a pressão da exploração turística e imobiliária.
Muitos residentes, historiadores e forças cívicas locais partilham exatamente esta preocupação, alertando que a Zona Velha corre o risco de perder a sua alma e sofrer uma descaracterização irreversível.
O próprio jornalista que aqui escreve nasceu no número 123 da Rua de Santa Maria, primeira sede do Clube Futebol União, cujo presidente era nosso tio-avô Ângelo de Olim Marote (neste edifício recuperado não existe nenhuma placa a assinalar que ali esteve em tempos este clube).
A Zona Velha era então um bairro de homens do mar e artesãos, hoje transformado quase exclusivamente num corredor de consumo turístico igual a muitos outros. Os antigos moradores foram empurrados para fora pelo aumento do custo de vida e pela proliferação de alojamentos locais. Existem casas que continuam votadas ao abandono e a degradarem-se de ano para ano. A transformação de casas antigas em meros cenários fotográficos ou esplanadas barulhentas cria aquilo que os urbanistas chamam de turistificação agressiva. A arquitectura típica madeirense acaba por ser subvalorizada em benefício de novos empreendimentos modernos e de luxo.
Os painéis de poesia tradicional nas paredes e algumas portas artísticas sofrem, para piorar, o desgaste do tempo, da chuva e da falta de manutenção e restauro adequado.
Compete à edilidade do Funchal a reconversão dos edifícios devolutos em habitação acessível. O objectivo é trazer as famílias e os jovens trabalhadores de volta ao centro histórico equilibrando o peso do turismo e impedindo que o berço do Funchal se transforme numa “rua – museu fantasma ” sem vida real.
O desafio do Funchal não é apenas pintar fachadas, mas sim realizar uma reabilitação com utilidade social e cultural global.
A terminar deixamos novamente o nosso grito de alerta para a degradação que continua no Forte de São Tiago, um ícone da Zona Velha. Não há palavras para descrever.
Em Dezembro está prevista a inauguração do Museu de Arqueologia nas instalações do Forte em estado degradado…
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