O Cordel – Movimento Ilha (1975 – 2025)

Ao longo do tempo, com a evolução das formas de Arte, fomos assistindo a uma necessidade de salientar a essência das várias manifestações, sendo o aspecto formal considerado apenas como «acidente», no conceito aristotélico, mantendo-se assim a identidade ou a qualidade, qualquer que seja a aparência do objecto artístico. Os exemplos mais imediatos foram trazidos pelo Dadaísmo com Marcel Duchamp, no início do sec.XX, a Arte Povera dos anos 60 ou Arte Bosco, com recurso a materiais humildes, encontrados na Natureza, terra, pedras, trapos, desperdícios e actualmente a Instalação, que organiza espaços imersivos, com materiais diversos e multimédia, baseados numa experiência sensorial que conjuga o visual, o auditivo e o táctil. O objectivo de tudo isto é tornar a Arte instrumento simples de fruição e reflexão, libertando-a de um eventual caracter padronizado, burguês ou conservador.

O mesmo princípio se pode aplicar à Arte do Livro, embora, neste caso, se inverta o período histórico. O primeiro livro impresso na forma como hoje o conhecemos foi a Bíblia de Gutenberg no sec. XV. Antes disso, no ocidente, em Portugal e Espanha, entre os secs, XII e XIII, as histórias populares, contos, lendas e canções que circulavam oralmente e passavam de geração em geração, deram origem a umas pequenas publicações em folhetos impressos em papéis baratos, atados com um cordel. Estava criada uma forma de literatura de fácil expansão que hoje constitui um precioso património: Os Livros de Cordel.

Os Livros de Cordel apesar da sua «humilde» aparência têm uma riquíssima história que nasce com a impressão dos relatos feitos tradicionalmente pelos trovadores medievais e se prolonga pelo romanceiro do Renascimento chegando à Idade Contemporânea, até à actualidade. O Cordel inspirou os autores de «romances de Cavalaria» que constituíram na França o Ciclo Carolíngio. Para além da França, o Cordel circulou igualmente pela Espanha e Holanda. Em Portugal saliento nesta forma de literatura, além de alguns anónimos, a inclusão de obras de Gil Vicente e outros autores. Consta que Teófilo Braga foi o primeiro a consagrar esta designação. Almeida Garret celebrizou a tradição trovadoresca com «A Nau Catrineta».

Retiro duma gravura do sec XIX que mostra um vendedor de folhetos pendurados na parede, à esquina duma rua, uma legenda curiosa: As folhas impressas eram presas por grampos em cordões para escolha do comprador. Uma paragem romântica junto ao convento de Sant Agusti (Barri de la Ribera, Barcelona). Nesta gravura vê-se também um comprador e dois possíveis clientes atentos à exposição dos folhetos.

Levados pelos portugueses os Livros de Cordel chegaram ao Brasil no sec.XVIII e popularizaram-se pelo Nordeste tornando-se uma produção típica desta região.

Transcrevo o que disse a este propósito Carlos Drumond de Andrade : «A poesia de Cordel é uma das manifestações mais puras do espírito inventivo, do senso de humor e da capacidade crítica do povo brasileiro (…) A espontaneidade e a graça dessas canções fazem com que o leitor urbano mais sofisticado lhes dedique interesse, despertando ainda a pesquiza e análise de eruditos universitários. É esta pois uma poesia de confraternização social que alcança uma grande área de sensibilidade».

Uma das principais características desta produção visa um objectivo primordial expresso na conclusão acima aludida que é o atingir mais facilmente a população, sobretudo a menos afeita à compra de livros, por razões económicas ou outras.

Foi exactamente com este propósito que o poeta José António Gonçalves, o ideólogo e coordenador do MOVIMENTO ILHA cujo quinquagésimo aniversário se comemorou no ano transacto, (2025) e se prolongará com alguns momentos evocativos neste ano de 2026, dizia eu que, José António Gonçalves, em tempo oportuno, entre 1998 e 2003, decidiu incluir no rol das várias publicações efectuadas, (Colectâneas e Cadernos), uma série de Livros de Cordel impressos em papel Kraft. Estas obras, em nº de 11, de vária autoria e diversificada temática, vieram enriquecer a produção realizada por este MOVIMENTO ao longo da década de 90, não só pela qualidade dos autores que assinam os folhetos, como pela iniciativa de trazer para a contemporaneidade a memória de um património importante na evolução da História do Livro.

Deixo aqui registados os nomes dos autores e os títulos dos «Cordéis»:

Ernesto Rodrigues. Ilhas Novas; José António Gonçalves, Noites de Insónia; João Rui de Sousa, Concisa instrução aos Nautas; Carlos Nogueira Fino, Maratona & Outros Poemas; Virgílio Alberto Vieira, A Ilha de Jade; João Dionísio, Os Construtores da Memória; David Pinto Correia, Onze mais um Poemas e Lugares; José Viale Moutinho, Poemas Tristes; São Moniz Gouveia (Laura Moniz), Lupus in Fabula; António Ramos Rosa, Nascente Submersa ;Maria Aurora Homem, 12 textos de Desejo.

É de esperar que alguém, mais tarde, possa aquilatar do valor de todo este legado ainda disperso e cuja memória será de novo assinalada durante o ano que decorre.


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