CMF promove residência artística “LAMENTO”

A cidade do Funchal recebe , em Dezembro de 2025, a residência artística LAMENTO, assinada por Cátia Terrinca e promovida pelo Estúdio de Criação do Funchal, um espaço da Câmara Municipal do Funchal dedicado ao acolhimento de artistas e ao desenvolvimento de projectos que valorizam a criação contemporânea.

A residência dá origem a uma caminhada performativa inspirada na obra da escritora Luzia, pseudónimo literário de Luísa Grande, figura singular do início do século XX, cuja escrita nasce de uma vida marcada pela errância, pela interrogação íntima e por uma profunda ligação à paisagem. Inserido nesta residência, o projecto apresentará dois momentos públicos: o lançamento do livro Cartas do Campo e da Cidade, no dia 10 de Dezembro, às 15 horas, na Estação do Monte, e a performance Lamento, a 12 de Dezembro, também às 15 horas, nos jardins da Quinta das Cruzes, refere uma nota da CMF.

Cartas do Campo e da Cidade reúne cartas escritas entre 1918 e 1919, período anterior à publicação do primeiro livro de Luzia. Nesse conjunto epistolar, a autora procura um sentido num mundo em convulsão, atravessado pela Primeira Guerra Mundial e pelas mudanças políticas do Portugal da Primeira República. Entre perplexidade e esperança, alegria e tristeza, Luzia escreve de forma confidencial, por vezes melancólica, outras vezes irónica e até sarcástica, revelando um diálogo intenso consigo própria, com o país e com uma sociedade fragmentada. As cartas, dirigidas maioritariamente a mulheres, foram reunidas e contextualizadas no posfácio de Luísa M. Antunes Paolinelli.

A residência artística de Cátia Terrinca parte desse universo para criar Lamento, uma caminhada performativa concebida para jardins históricos e pensada para um público reduzido, que percorre o espaço acompanhado por um mediador. A atriz constrói cinco quadros vivos integrados na paisagem, revelados ao longo do percurso. No início da performance, cada espectador recebe um rádio portátil que o acompanha durante toda a experiência, permitindo-lhe escutar a sonoplastia original, a música de Surma e fragmentos de texto, criando uma camada sonora íntima que intensifica a relação sensorial com o lugar. A personagem que habita a performance é Luzia, apresentada como uma figura solitária e cúmplice do silêncio, que atravessa o jardim numa procura simbólica das suas raízes e da sua própria voz.

A proposta artística destaca-se pela fusão entre corpo, palavra, som e natureza, valorizando o potencial contemplativo do Jardim da Quinta das Cruzes, onde o espetáculo se adapta ao terreno e às suas características específicas. O jardim deixa de ser mero cenário e transforma-se em elemento central da dramaturgia, influenciando ritmos, deslocações e atmosferas. Com esta criação, Cátia Terrinca aprofunda uma trajetória marcada pelo foco na experiência feminina, pela escrita em cena e por propostas performativas íntimas, desenvolvidas desde a fundação do UMCOLETIVO, que dirige com Ricardo Boléo, João P. Nunes, Raquel Pedro, Bruno Caracol e Rui Salabarda.

“Lamento” procura, assim, construir uma experiência que une a memória de Luzia ao presente da cidade, convidando o público a caminhar, a escutar e a entrar num território onde literatura, paisagem e corpo se entretecem numa narrativa que convoca silêncio, solidão e pertença. A residência e os seus eventos afirmam o compromisso do Estúdio de Criação do Funchal com o apoio a projetos que cruzam artes performativas, património natural e reflexão contemporânea, aproximando os espectadores de formas inovadoras de viver e pensar a criação artística.


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