Freguesias da Madeira: Estreito de Câmara de Lobos

IGREJA DO ESTREITO DE CÂMARA DE LOBOS. FOTOS: © ANABELA GOMES, NOV. 2025.

Nelson Veríssimo

Desconhece-se a data da criação da paróquia do Estreito de Câmara de Lobos, mas já existia em 1520, pois, neste ano, a Coroa pagou o vencimento do vigário. Teria sido fundada entre 1518 e 1520. É seu orago Nossa Senhora da Graça, invocação de uma capela existente nesta localidade.

Em 30 de julho de 1744, na sequência do requerimento do vigário e paroquianos do Estreito de Câmara de Lobos, o Conselho da Fazenda autorizou que se fizesse risco e orçamento da nova igreja, atendendo a que a existente se encontrava arruinada e era de reduzidas dimensões, face ao aumento do número de moradores na freguesia. O mestre das Obras Reais, João Martins de Abreu, e o mestre de pedreiro, Pedro Fernandes Pimenta, apresentaram o respetivo orçamento em 2 de maio de 1747.

ALTAR-MOR DA IGREJA DE NOSSA SENHORA DA GRAÇA.

A obra foi arrematada, em 25 de junho de 1747, por Manuel Rodrigues da Costa, mestre pedreiro, por 7 contos e 579 mil réis. Entretanto, o terramoto, de 31 de março de 1748, provocou sérios danos na igreja e na casa do vigário.
As obras iniciaram-se em 1749. O primeiro templo foi parcialmente demolido. A edificação da nova igreja, executada sob a direção do mestre das Obras Reais, João Martins de Abreu, e que corresponde à atual, ficou praticamente concluída em 1756, ano da bênção da capela-mor.

SACRÁRIO EXECUTADO PELA OFICINA DO MESTRE ESTÊVÃO TEIXEIRA.

Em 4 de novembro de 1771, de acordo com a vistoria então feita, ainda não se tinha construído o campanário, por impedimento do vigário que «com o fim de, com o legítimo valor do campanário e com as esmolas que pedir, alcançar mandar fazer uma torre junto à mesma igreja para maior segurança dela e também para o resguardo dos sinos, que em campanário estão expostos a muitos inconvenientes, como se tem experimentado em outras muitas paróquias.» Na verdade, nos anos subsequentes, sucederam-se diversas intervenções, em especial para ornato artístico. Entre 1803 e 1814, verificou-se nova intervenção, sendo a Igreja solenemente sagrada em 1814. Na capela-mor, sobressai o retábulo rococó, com um belo sacrário em talha dourada, executado pela oficina de Estêvão Teixeira na segunda metade do século XVIII.

Em 1937, a torre da igreja foi ampliada, para a instalação de um relógio, inaugurado em 26 de setembro desse ano.

Atualmente, a freguesia compreende três paróquias, Nossa Senhora da Graça, Nossa Senhora da Encarnação e Garachico, embora as últimas duas abranjam também território de Câmara de Lobos.

A freguesia mantém algumas capelas fundadas por iniciativa particular: Capela das Almas (1766-1767), anexa ao Solar da Quinta da Vargem, Capela de Santa Ana (c. 1768; 1963) e a Capela de Santo António (1780).

Gaspar Frutuoso, em 1584, referiu o Estreito de Câmara de Lobos como uma freguesia onde se produzia muita castanha, noz, peros «de toda a sorte muito doces», vinho e se criava gado.

ESTREITO DE CÂMARA DE LOBOS, NUMA TARDE DO OUTONO.

As terras do Estreito distinguem-se pelas diversas tonalidades que, durante o ano, as vinhas vão adquirindo. Hoje a paisagem vitícola foi invadida por prédios, denotando-se deficiente gestão territorial. Ainda assim, a cultura da vinha, para produção do vinho da Madeira, constitui importante atividade agrícola. Segundo o Recenseamento Agrícola de 2019, havia 12 350 ares de cultura permanente de vinha e 2170 de frutos subtropicais, sendo a freguesia com a maior área vitícola da Região.

Contudo, em 2009, eram 14 391 ares de vinha e 846 de cultura permanente de frutos subtropicais.

 

ENCOSTAS COM VINHAS NO ESTREITO DE CÂMARA DE LOBOS.

Algumas gerações mais novas não se mostram interessadas na continuação das vinhas ou bananais dos pais, e até velhos agricultores vão desistindo da lavoura, pela falta de mão-de-obra e o fraco rendimento da produção. O crescimento do negócio imobiliário, associado à premente procura de habitação, dá origem a propostas aliciantes para venda de terrenos agrícolas e ocupação dos poios por blocos residenciais. A área vinhateira da freguesia tem, por conseguinte, vindo a diminuir.

Esta freguesia promove, em setembro de cada ano, a Festa das Vindimas. Realizou-se, pela primeira vez, em 1963, sendo então uma iniciativa da Delegação de Turismo da Madeira. A partir de 1991, passou a ser um evento do calendário das festividades da localidade.

O PRIMEIRO AUTOMÓVEL A CHEGAR AO ESTREITO FOI UM ‘DIXI’. SELEÇÃO DE IMAGEM: EUGÉNIO SANTOS.

Para além da recriação da vindima e da pisa e repisa das uvas no lagar, constitui um tempo de animação e diversão, tendo a tradição como pano de fundo.

Foi no Estreito de Câmara de Lobos que se introduziu a espetada na restauração, como especialidade gastronómica madeirense. Anteriormente, era preparada e consumida nos arraiais. Em meados dos anos 50 do século XX, Francisco da Silva Freitas fundou o primeiro restaurante de espetadas na Madeira, denominado «As Vides» pela primeira clientela, porque o braseiro, onde se assava a carne, era feito com vides, guardadas e secas após a poda das parreiras.

Em setembro de 1914, chegou o primeiro automóvel ao Estreito, um «Dixi», registado com o n.º 57 e conduzido por Abel da Natividade Fernandes Velosa, com quatro passageiros, sendo um deles mecânico de automóveis. Então não existia a estrada que haveria de ligar o Funchal à Ribeira Brava, passando pelas redondezas do centro desta freguesia, a posteriormente denominada EN 101. Depois da Ponte dos Frades, o «Dixi» percorreu um caminho, que passava pelas Quintas do Salão e do Estreito e terminava no Largo do Patim, junto à Igreja.

O serviço público de telefone iniciou-se em 18 de junho de 1929, com a inauguração de uma cabine telefónica.

Esta freguesia foi elevada à categoria de vila pelo Decreto Legislativo Regional n.° 24/94/M, de 14 de setembro.

Os ‘Censos de 2021’ indicam 9348 habitantes. É a segunda freguesia mais populosa do concelho de Câmara de Lobos. O Recenseamento Eleitoral, de 31-12-2024, menciona 9698 eleitores nacionais, 1 da União Europeia e 2 outros cidadãos estrangeiros residentes.

BRASÃO DA FREGUESIA, AINDA NÃO LEGALIZADO.

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de vermelho, com uma montanha de ouro, carregada com uma faixa ondada de azul, acompanhada em chefe por duas flores de ouro, perfiladas e realçadas de vermelho, e em campanha por uma videira de verde, frutada de púrpura. Coroa mural: Prata, de quatro torres. Listel: Branco, com a legenda a negro: “ESTREITO DE CÂMARA DE LOBOS”.

Os símbolos heráldicos desta autarquia ainda não se encontram legalizados.

P. S. A rubrica ‘Freguesias da Madeira’ regressa em janeiro. Até lá, votos de Boas Festas e um Feliz Ano Novo.


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