
Nelson Veríssimo
Desconhece-se a data da criação da paróquia do Estreito de Câmara de Lobos, mas já existia em 1520, pois, neste ano, a Coroa pagou o vencimento do vigário. Teria sido fundada entre 1518 e 1520. É seu orago Nossa Senhora da Graça, invocação de uma capela existente nesta localidade.
Em 30 de julho de 1744, na sequência do requerimento do vigário e paroquianos do Estreito de Câmara de Lobos, o Conselho da Fazenda autorizou que se fizesse risco e orçamento da nova igreja, atendendo a que a existente se encontrava arruinada e era de reduzidas dimensões, face ao aumento do número de moradores na freguesia. O mestre das Obras Reais, João Martins de Abreu, e o mestre de pedreiro, Pedro Fernandes Pimenta, apresentaram o respetivo orçamento em 2 de maio de 1747.

A obra foi arrematada, em 25 de junho de 1747, por Manuel Rodrigues da Costa, mestre pedreiro, por 7 contos e 579 mil réis. Entretanto, o terramoto, de 31 de março de 1748, provocou sérios danos na igreja e na casa do vigário.
As obras iniciaram-se em 1749. O primeiro templo foi parcialmente demolido. A edificação da nova igreja, executada sob a direção do mestre das Obras Reais, João Martins de Abreu, e que corresponde à atual, ficou praticamente concluída em 1756, ano da bênção da capela-mor.

Em 4 de novembro de 1771, de acordo com a vistoria então feita, ainda não se tinha construído o campanário, por impedimento do vigário que «com o fim de, com o legítimo valor do campanário e com as esmolas que pedir, alcançar mandar fazer uma torre junto à mesma igreja para maior segurança dela e também para o resguardo dos sinos, que em campanário estão expostos a muitos inconvenientes, como se tem experimentado em outras muitas paróquias.» Na verdade, nos anos subsequentes, sucederam-se diversas intervenções, em especial para ornato artístico. Entre 1803 e 1814, verificou-se nova intervenção, sendo a Igreja solenemente sagrada em 1814. Na capela-mor, sobressai o retábulo rococó, com um belo sacrário em talha dourada, executado pela oficina de Estêvão Teixeira na segunda metade do século XVIII.
Em 1937, a torre da igreja foi ampliada, para a instalação de um relógio, inaugurado em 26 de setembro desse ano.
Atualmente, a freguesia compreende três paróquias, Nossa Senhora da Graça, Nossa Senhora da Encarnação e Garachico, embora as últimas duas abranjam também território de Câmara de Lobos.
A freguesia mantém algumas capelas fundadas por iniciativa particular: Capela das Almas (1766-1767), anexa ao Solar da Quinta da Vargem, Capela de Santa Ana (c. 1768; 1963) e a Capela de Santo António (1780).
Gaspar Frutuoso, em 1584, referiu o Estreito de Câmara de Lobos como uma freguesia onde se produzia muita castanha, noz, peros «de toda a sorte muito doces», vinho e se criava gado.

As terras do Estreito distinguem-se pelas diversas tonalidades que, durante o ano, as vinhas vão adquirindo. Hoje a paisagem vitícola foi invadida por prédios, denotando-se deficiente gestão territorial. Ainda assim, a cultura da vinha, para produção do vinho da Madeira, constitui importante atividade agrícola. Segundo o Recenseamento Agrícola de 2019, havia 12 350 ares de cultura permanente de vinha e 2170 de frutos subtropicais, sendo a freguesia com a maior área vitícola da Região.
Contudo, em 2009, eram 14 391 ares de vinha e 846 de cultura permanente de frutos subtropicais.

Algumas gerações mais novas não se mostram interessadas na continuação das vinhas ou bananais dos pais, e até velhos agricultores vão desistindo da lavoura, pela falta de mão-de-obra e o fraco rendimento da produção. O crescimento do negócio imobiliário, associado à premente procura de habitação, dá origem a propostas aliciantes para venda de terrenos agrícolas e ocupação dos poios por blocos residenciais. A área vinhateira da freguesia tem, por conseguinte, vindo a diminuir.
Esta freguesia promove, em setembro de cada ano, a Festa das Vindimas. Realizou-se, pela primeira vez, em 1963, sendo então uma iniciativa da Delegação de Turismo da Madeira. A partir de 1991, passou a ser um evento do calendário das festividades da localidade.

Para além da recriação da vindima e da pisa e repisa das uvas no lagar, constitui um tempo de animação e diversão, tendo a tradição como pano de fundo.
Foi no Estreito de Câmara de Lobos que se introduziu a espetada na restauração, como especialidade gastronómica madeirense. Anteriormente, era preparada e consumida nos arraiais. Em meados dos anos 50 do século XX, Francisco da Silva Freitas fundou o primeiro restaurante de espetadas na Madeira, denominado «As Vides» pela primeira clientela, porque o braseiro, onde se assava a carne, era feito com vides, guardadas e secas após a poda das parreiras.
Em setembro de 1914, chegou o primeiro automóvel ao Estreito, um «Dixi», registado com o n.º 57 e conduzido por Abel da Natividade Fernandes Velosa, com quatro passageiros, sendo um deles mecânico de automóveis. Então não existia a estrada que haveria de ligar o Funchal à Ribeira Brava, passando pelas redondezas do centro desta freguesia, a posteriormente denominada EN 101. Depois da Ponte dos Frades, o «Dixi» percorreu um caminho, que passava pelas Quintas do Salão e do Estreito e terminava no Largo do Patim, junto à Igreja.
O serviço público de telefone iniciou-se em 18 de junho de 1929, com a inauguração de uma cabine telefónica.
Esta freguesia foi elevada à categoria de vila pelo Decreto Legislativo Regional n.° 24/94/M, de 14 de setembro.
Os ‘Censos de 2021’ indicam 9348 habitantes. É a segunda freguesia mais populosa do concelho de Câmara de Lobos. O Recenseamento Eleitoral, de 31-12-2024, menciona 9698 eleitores nacionais, 1 da União Europeia e 2 outros cidadãos estrangeiros residentes.

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de vermelho, com uma montanha de ouro, carregada com uma faixa ondada de azul, acompanhada em chefe por duas flores de ouro, perfiladas e realçadas de vermelho, e em campanha por uma videira de verde, frutada de púrpura. Coroa mural: Prata, de quatro torres. Listel: Branco, com a legenda a negro: “ESTREITO DE CÂMARA DE LOBOS”.
Os símbolos heráldicos desta autarquia ainda não se encontram legalizados.
P. S. A rubrica ‘Freguesias da Madeira’ regressa em janeiro. Até lá, votos de Boas Festas e um Feliz Ano Novo.
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