Freguesias da Madeira: Estreito da Calheta

ESTREITO DA CALHETA. FOTO: © ANABELA GOMES, 8 SET.2025.

Nelson Veríssimo

A freguesia do Estreito da Calheta insere-se na vertente sudoeste da ilha da Madeira, estendendo-se da faixa costeira até cotas que se aproximam dos 1200-1300 m, nas imediações do planalto do Paul da Serra. Confina com as freguesias da Calheta, Prazeres, Fajã da Ovelha e Ribeira da Janela. O topónimo ‘Estreito’ poderá ser explicado pela configuração longitudinal do território, delimitado pela ribeira de São Bartolomeu, a leste, e a ribeira Funda, a oeste.

A morfologia da freguesia é marcada por diversos lombos: Lombo dos Castanheiros, Lombo da Igreja, Lombo do Lameiro, Lombo dos Moinhos, Lombo dos Reis, Lombo da Ribeira Funda, Lombo dos Serrões. ‘Lombo’ designa, na Madeira, uma «encosta ou vertente de terrenos elevados.», como esclareceu Fernando Augusto da Silva (Vocabulário Madeirense, 1950, p. 74).

IGREJA DO ESTREITO DA CALHETA. FOTO: CÂMARA MUNICIPAL DA CALHETA.

A paisagem agrícola é marcada pelas culturas da vinha, cana-de-açúcar e hortícolas, bem como terrenos de cultivo abandonados e cobertos por matagais.
No século XVI, predominava, nesta localidade, a cultura da cana sacarina no morgadio dos Franças e nas fazendas de João Rodrigues Castelhano e Francisco Homem de Gouveia, tendo este instituído a Capela dos Reis Magos em 1529, no Lombo dos Reis. A vinha, o trigo e as árvores de fruta tinham também significado económico. Referindo-se às terras de Diogo de França, Gaspar Frutuoso afirmou, em 1584, que eram «boa fazenda de canas e vinhas, águas e frutas.»

RETÁBULO DOS REIS MAGOS. FOTO: EXPOSIÇÃO ‘AS ILHAS DO OURO BRANCO. ENCOMENDA ARTÍSTICA NA MADEIRA. SÉCULOS XV-XVI’, MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA, 2017. FOTO: PAULO ALEXANDRINO.

Não se conhece a data da criação da paróquia do Estreito da Calheta, mas já existia em 1518. De início, foi sua sede a Capela de Nossa Senhora da Graça, instituída por João de França, um dos primeiros povoadores do Estreito, falecido em 1503.

Uma nova igreja paroquial começou a ser delineada noutro local, no princípio do século XVIII. No frontispício do templo atual, uma lápide indica 1791 como o ano da ultimação das obras, executadas com o patrocínio do erário régio. Porém, foi profundamente alterada nos finais da década de 60 do século XX e inícios da seguinte.

Na freguesia do Estreito da Calheta, estão classificados, como Património Cultural, os seguintes edifícios da arquitetura religiosa: Capela dos Reis Magos (1529), Capela de Nossa Senhora da Conceição (1670), Igreja de Nossa Senhora da Graça (1791) e Capela de Nossa Senhora do Livramento (1858).

Na Capela dos Reis Magos, encontra-se um precioso retábulo de oficina flamenga, óleo sobre madeira e escultura, de cerca de 1520-1530. O painel escultórico central, dourado e policromado, representa a Adoração dos Reis Magos. Os volantes, quando fechados, apresentam a cena da Anunciação, tendo, à esquerda, o anjo Gabriel e, à direita, a Virgem Maria. Quando abertos, observamos, à esquerda, o doador Francisco Homem de Gouveia, de joelhos protegido por Santo Antão, e, à direita, D. Isabel Afonso, amparada por São Francisco de Assis. O conjunto é rematado, na base, por uma predela recortada, com uma Verónica sustentando o véu, no centro, a cena da Lamentação à esquerda e Santo António e São Bartolomeu Apóstolo à direita.

Junto à Matriz, um edifício de inícios do século XX, que teria servido de residência e mercearia no piso térreo (Venda Grande), apresenta-se em estado de abandono e progressiva degradação. Caminha para a ruína. É, contudo, um imóvel distinto na freguesia, representativo de uma época da arquitetura residencial, com aproveitamento comercial no piso ao nível da rua. Uma memória do lugar que merecia ser preservada. Informaram-me ter pertencido a parentes do padre César Teixeira da Fonte (1902-1989), sendo depois adquirido por um madeirense, natural da freguesia dos Canhas, emigrante na África do Sul, já falecido.

‘VENDA GRANDE’. FOTO: © NELSON VERÍSSIMO, 8 SET. 2025.

O sexto capitão do Porto Santo, Diogo Perestrelo Bisforte (†1616), casou com D. Maria da Câmara, herdeira do morgado dos Reis Magos, e passou largas temporadas no Estreito da Calheta, faltando, por conseguinte, às obrigações da sua capitania.

No Diário de Isabella de França, senhora inglesa que visitou a Madeira entre julho de 1853 e junho de 1854, encontra-se curiosa descrição da casa dos Franças, no Estreito da Calheta, antepassados do seu marido. Já então o solar do morgado apresentava sinais de degradação, devido ao facto de os proprietários, há anos, ali não residirem. Perante tal, escreveu: «Tive vontade de chorar com pena de que uma casa tão bonita assim se desmoronasse. Quem me dera possuir milhões para a restaurar!» Certo é que José Henrique de França, seu marido, em 1864, vendeu a Roque Caetano de Araújo e a seu irmão os imóveis que herdara, inclusive a casa nobre do Estreito da Calheta.

Conforme os ‘Censos de 2021’, esta freguesia tinha 1578 habitantes, o que equivale a menos de um terço da população existente em 1930 (4938). O Recenseamento Eleitoral, de 31-12-2024, refere 1684 eleitores nacionais, 11 da União Europeia e 1 outro cidadão estrangeiro residente.

BRASÃO DA FREGUESIA DO ESTREITO DA CALHETA.

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de vermelho, com uma parreira arrancada, de ouro, frutada de púrpura; em chefe, cometa de ouro. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: “ESTREITO DA CALHETA”. (Diário da República, n.º 121, 3.ª Série, Parte A, 24-05-2004).

A representação heráldica salienta a cultura da vinha, como importante atividade agrícola da freguesia, e a devoção religiosa aos Reis Magos, evocada na capela do Lombo dos Reis. Na descrição do brasão, refere-se um «cometa de ouro». Trata-se de uma estrela caudata, uma alusão àquela que os Magos do Oriente afirmaram ter visto, quando chegaram a Jerusalém e perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» (Mt 2,2).


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