Viagens: nova “peste” alastra nas capitais europeias, falta de habitação, problemas de droga e imigração

Vou encerrar os relatos destes meus “raids” à República da Irlanda. Visitei recentemente pela terceira vez Dublin, uma das cidades mais amigáveis do mundo, animada, movimentada e importante na história da Europa e com uma enorme variedade de atracções turísticas e artísticas.
Trata-se de uma cidade calma e pacífica em comparação aos níveis de violência de outros grandes centros urbanos, embora nem sempre os dublinenses concordem. Com mais de 1 milhão de habitantes, os chamados ” dubliners” os moradores de cidade têm de conviver com múltiplos estrangeiros que escolhem a cidade para morar, trabalhar, estudar ou aperfeiçoar a língua inglesa.
A cidade tem essencialmente duas faces, a diurna e a nocturna.
Por princípio nas minhas viagens à volta do mundo regresso sempre à “caserna antes do toque de recolher”. Sou um homem do dia e não da escuridão.
Nesta minha ultima viagem cheguei a Dublin numa sexta feira dia 24 de Outubro e quando viajava do aeroporto para o centro da cidade chamaram-me a atenção cartazes eleitorais nos postos de iluminação, com  duas mulheres candidatas á presidência da República. Questionei-me qual delas iria vencer? No dia de eleições foi um dia normal como qualquer outro, com comércio aberto, bancos, escritórios,  tudo a funcionar. Há tempo para tudo e também para votar. Não vi aqueles outdoors ou cartazes de grandes dimensões  expostos nas vias públicas. Procurei saber quem ia à frente. Era a candidata independente apoiada pelos partidos do centro esquerda e da esquerda, Catherine Connolly. No sábado confirmei nas bancas de jornais que tinha sido a vencedora.
Quem vem da Madeira  com temperaturas de 23º e 24º depara-se cum um ligeiro “choque” ao sair do aeroporto. O termómetro registava 7º e ao respirarmos. o vapor que saía da nossa boca era uma autêntica “chaminé”… Apesar disso e nessa noite, cerca das 21h30,. percorri o centro de Dublin que bem conheço durante o dia. Procurava outras impressões distintas, e verifiquei que a cidade tinha se transfigurado noutro cenário.
Nas imagens diurnas existem poucos sem abrigo, que, ao anoitecer, invadem as ruas laterais da O’ Connell Street e constroem verdadeiras barricadas com caixas de cartão junto das lojas comerciais. O dito cartão é um escudo de protecção calorífica para os desgraçados que se procuram abrigar da chuva nos recantos da entrada das lojas.
Estes sem abrigo aguardam que diversas instituições de solidariedade, algumas das quais de cariz religioso, lhes levem café, chá, sanduíches. sopa. Percorri e verifiquei esse apoio  na companhia dos ” Night Angels” que distribuíam uma bebida quente,  “coffee and tea” numa noite chuvosa. Foi outra e dura impressão de Dublin, agravada pelo clima inclemente.
Ao regressar ao Hotel disse para mim mesmo:-Afinal não é só Portugal a minha “Ilha”  que enferma desta “nova peste ” que alastra todas as capitais europeias.
O presidente cessante Michael D. Higgins, que esteve à frente dos destinos da Irlanda desde 2011, descreve a crise imobiliária no país como “um desastre”.
Depois de ter sido muito exaltado o “milagre irlandês” do desenvolvimento económico, hoje mais de 16.000 adultos e crianças estão sem-abrigo em Dublin, residindo em abrigos de emergência. Pelo menos 3.500 famílias estão desabrigadas incluindo idosos e jovens, pais e mães solteiros.  Cerca de 7.000 solteiros e adultos, incluindo idosos, estão nesta situação.  Os números estão aumentar, com a demanda por serviços de apoio a crescer significativamente.
As causas desta crise:- Falta de habitação… a crise de moradia e os aluguéis a preço  proibitivos e inflacionados são os principais factores que levam o aumento do número de pessoas sem-abrigo.
Até Agosto deste ano, o numero de pessoas sem-tecto atingiu cerca 15.000, o que representa um aumento de mais 14% em relação a 2024.
A distribuição por nacionalidades em Dublin  mostra que 46,8% dos desabrigados são irlandeses, enquanto 24,4%v em de países da UE ou do Reino Unido, e 29% são de fora da UE.
A situação de sem-abrigo é dura devido ao clima frio da Irlanda. No entanto há pessoas que estão melhores na rua do que no albergue a dividir um quarto com 2 ou 3 viciados em heroína ou em beliches a fumar droga no quarto sem saber se serão roubadas ou esfaqueadas. Temem os seus companheiros de albergue e acabam por achar menos perigoso pegar num saco de dormir e passar a noite na Grafton Street , onde recebem assistencia de instituições de caridade e organizações que oferecem alimentos… e há mais segurança pois polícias patrulham as ruas.
Esta é uma realidade: de dia um paraíso, à noite o  “inferno”. É ver para crer. Mas nisto Dublin não difere de muitas cidades europeias dos nossos dias.
A senhora Catherine Connell tem de arranjar uma fórmula mágica para debelar esta “nova peste”, ou melhor, diminuir o sofrimento deste povo sofrido.
Ficam as fotos como testemunho de uma noite de dificuldades na bela “Ilha Esmeralda”.

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