Mas será que, entre as centenas de discursos proferidos na última semana em todo o país, por ocasião das tomadas de posse dos novos órgãos autárquicos, as palavras dos oradores eleitos conseguiram realmente chegar ao coração dos cidadãos?
Há quem julgue que a palavra é apenas um instrumento de comunicação. Discordo. A palavra é muito mais do que um mero veículo para transmitir ideias. O verbo é um ato de criação. Com a palavra, o ser humano molda o pensamento, constrói realidades e transforma o mundo à sua volta. Dominar a palavra é dominar o poder de influenciar – oxalá que fosse sempre para o bem, mas nem sempre é –, emocionar e libertar.
Como escreveu J.K. Rowling (escritora britânica, autora da série: Harry Potter) “As palavras são, na minha não tão humilde opinião, a nossa inesgotável fonte de magia. Capazes de ferir e de curar”.
Desde os primórdios da civilização, a palavra foi o fio que teceu as pontes da humanidade. Foi através dela que os mitos se perpetuaram, que a sabedoria passou de geração em geração e que as ideias ganharam forma. A palavra escrita fixou o efémero; a palavra falada moveu multidões. Hoje, em tempos de comunicação instantânea, a palavra continua a ser uma arte — mas uma arte ameaçada pela pressa, pelo ruído e pela superficialidade.
Vivemos na era da abundância verbal, onde todos falam, mas poucos dizem algo construtivo. Muitos esquecem ou nem pensam de que “Mais vale uma palavra dita com arte, do que mil lançadas ao vento.”
As redes sociais “deram voz” a milhões de pessoas, mas, paradoxalmente, o excesso de palavras fez com que muitas perdessem o seu peso e valor. A palavra, quando banalizada, deixa de ser arte para se tornar ruído. O desafio contemporâneo é resgatar o silêncio que dá sentido à fala, e à pausa que dá força à expressão. Para o filósofo chinês, Confúcio, “dominar as palavras é dominar o coração dos homens.”
A arte da palavra exige sensibilidade, rigor e empatia. Saber escolher o termo certo é como pintar com precisão um quadro. Uma palavra mal colocada pode desfazer a harmonia de uma ideia, já uma palavra bem escolhida pode iluminar um pensamento inteiro. Escrever e falar bem não é apenas uma questão de técnica — é também um exercício de ética. Quem domina a palavra tem o dever de usá-la com verdade e responsabilidade. Lá diz o ditado, “Palavras são como flechas: uma vez lançadas, não voltam atrás.”
Num mundo onde tanto se diz e tão pouco se escuta, cultivar a arte da palavra é, talvez, o maior gesto de resistência. É afirmar que pensar ainda importa, que sentir vale a pena, e que comunicar não é apenas falar — é compreender e ser compreendido.
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