A avaliar por algumas reacções que fui lendo na sequência da divulgação dos “apartes” proferidos no parlamento regional pelo titular da Secretaria do Turismo, Ambiente e Cultura, houve quem se surpreendesse pelo recurso a linguagem tão abjecta quanto execrável.
Lamento desapontar quem assim reagiu, mas, aqui e agora, já nada me surpreende. E porquê?
Porque no reino que foi instituído ao longo de quatro décadas por uma criatura que ficou conhecida como «o campeão português do insulto» (jornal espanhol “El Mundo”), o insulto constituiu, ao longo dos tempos, uma das suas imagens de marca, e, que me recorde, nunca li ou ouvi de nenhum dos seus correligionários, ao longo de todo esse tempo, qualquer sinal de distanciamento ou desconforto. Toda essa gentinha ou se ria, ou batia palmas.
Conclusão: essa “escola” ficou. Faz parte do ADN da agremiação.
Há dez anos, houve quem se tivesse regozijado pelo advento duma auto-intitulada «renovação». Quando Marcelo Caetano substituiu o ditador de Santa Comba também houve quem se iludisse com a designada «primavera marcelista».
Dez anos volvidos, que ficou dessa apregoada «renovação»? Politicamente falando, escassos dois anos depois, nada sobrou, construir (obrar) voltou a ser a grande aposta. E, em simultâneo, o “quero, posso e mando”, os tiques de sempre.
Daí que, quando uma qualquer anunciada «mudança» não é genuína, mais tarde ou mais cedo, o verniz, a máscara acaba sempre por cair.
A eternização no poder ao longo de cinco décadas do mesmo partido alimenta nessa gente um sentimento de impunidade, de que tudo lhes é permitido, de que não têm que responder pelos seus actos. Pois, então, se o criador da agremiação pôde ao longo dos anos insultar tudo e todos e refugiar-se, com a cumplicidade do próprio Conselho de Estado, na imunidade quando era alvo de queixa nas instâncias judiciais, porque é que os fiéis discípulos não hão de seguir-lhe a peugada?!
Numa região politicamente civilizada, onde a decência prevalecesse, o prevaricador teria, no mínimo, de imediato, pedido desculpas. Não o sendo, o titular da «cultura» tratou de justificar a linguagem de caserna, de calhau, utilizada. Invocou o «contexto» e do que é «importante» (o orçamento, no que foi, de resto, acompanhado pelos presidentes dos órgãos de governo próprio). Ficamos, também, a saber que, pelos vistos, se revê nos «apartes», quiçá, por fazerem parte do seu «léxico» diário. Finalmente, ao terceiro dia, rabiscou uma desculpa esfarrapada. Sem sequer ter a dignidade de pedi-la directamente aos visados.
A normalização do discurso de ódio em curso que a extrema direita vem disseminando, com cumplicidades a vários níveis, não assegura, antes pelo contrário, que este indecoroso comportamento não se venha a repetir. O pior pode, ainda, estar para vir… Daí que, esperar por consequências, como vi por aí escrito, é não saber onde tudo isto acontece. Numa região que é, goste-se ou não, uma anormalidade sob o ponto de vista democrático.
* por opção, o presente texto, foi escrito de acordo com a antiga ortografia.
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