O Padre José Luís Rodrigues publicou duas fotos do caixão branco da bebé que foi ontem cremada com o seguinte texto:
“Escrever na água
A maior derrota
A maior derrota é toda aquela em que se dá tudo de nós, corpo e alma, para fazer surgir da vontade, do desejo e do querer um ser novo, uma pessoa, um evento, um edifício, um acontecimento…
Mas se eclodirem energias negativas, indomáveis para as nossas capacidades, forças e vontade, que nos tiram o sonho e o projeto que pretendíamos levar adiante, nada mais pode soar a derrota, impotência e frustração do que isso.
É o que acontece aos pais e famílias quando fizeram tudo para serem pais, mas na hora H, essa pretensão é-lhes tirada assim de chofre, porque falhou o que calculamos que tenha falhado por causa do abandono, o não se importar porque não é comigo ou deixa até ver se a coisa se resolve por si mesma.
Parece ser agora também um drama nascer na nossa terra.
Viver já é dramático por causa da pobreza e por causa da sobrelotação da ilha, que não deixou de ser ilha, mas que não precisa de controlo, dizem, não precisa de ser regrado quem tem responsabilidades e quem deve usufruir não precisa de respeitar nada.
A quem entra, basta que gastem comprando, que deixem dinheiro por aí e gastem como bem entender, principalmente bebendo poncha, rum, pão com chouriço e bolo do caco, que é a comida e bebida gourmet que a ilha mais se pavoneia de ter para oferecer.
Está visto que não pode faltar além da cabeça atordoada de bebidas novas da criativa Madeira (nova) e a barriga enfartada da tal comida farinhenta de pão aldrabado sobre cacos com manteigas reles com pintas de salsa e alhos, as festanças com cantores vindos do continente pagos a peso de ouro para servirem música pimba de inferior mau gosto, porque a alma precisa de alegria momentânea para que ninguém se lembre de reparar no que está mal e comece a pensar.
Não posso ver esta imagem. Não posso acreditar que a minha ilha não esteja devidamente preparada para receber aqueles que nascem.
Não é tolerável morrer assim. Não é tolerável sabermos que está a morrer com muita frequência no nosso serviço regional de saúde bebés recém-nascidos.
Não é tolerável que se cante tão alto que a Madeira é uma terra de sucessos vários, tais como a região melhor destino turístico do mundo, com uma economia pujante, mas na hora de nascer os nossos descendentes, morrem por falta de alguma coisa que não devia faltar.
Esta foto é dedicada particularmente ao Dr. Miguel Albuquerque e à sua Secretária da Saúde Dra. Micaela Freitas, para que se calem sobre os sucessos da região e sobre os sucessos do nosso Sistema Regional de Saúde, porque não é verdade haver sucessos quando com mais frequência do que se deseja estejam a morrer nascituros deste feitio. JLR”
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