Manuel Tomás: o poeta que cantou o descobrimento e o povoamento da Madeira

Faz hoje 360 anos que faleceu Manuel Tomás. O seu termo de óbito encontra-se registado na freguesia da Sé. Aí se menciona que foi sepultado no Convento de São Francisco da cidade do Funchal e que não fez testamento «por ser apressada a sua morte de uma facada que lhe deram».

Manuel Tomás, de ascendência judaica, nasceu em Guimarães no ano de 1585 e faleceu no Funchal em 10 de abril de 1665, sendo filho do médico judeu converso Luís Gomes de Medeiros, também conhecido como Joseph Abravanel, e de Gracia Vaz Barbosa.

No início de 1610, já vivia na Madeira. Desde os 25 anos de idade até aos 80 sempre residiu nesta ilha. Dedicava-se à actividade mercantil e exerceu funções de intérprete de línguas no porto do Funchal, revelando contactos privilegiados com alguns cristãos-novos, autoridades militares e da Fazenda.

Chegou a ser denunciado ao Tribunal do Santo Ofício como rabino e dogmatista. Na sua obra mostra-se, porém, um fervoroso católico.

Em 1635, publicou, em Antuérpia e Ruão, o poema épico ‘Insulana’, sobre o descobrimento da Madeira. Nesta epopeia, o Poeta canta os feitos de Zargo:

 

A fama, o nome, as glórias, a grandeza,

Esforço raro, altivo pensamento,

Ânimo valeroso, heroica empresa,

Zelo divino, em novo atrevimento,

Galhardo brio, singular braveza,

O forte peito e atrevido intento,

A proeza e valor digno de espanto,

De um Capitão famoso, escrevo e canto.

É a sua obra mais conhecida, dentre, pelo menos, mais outras seis publicadas. Para os madeirenses e porto-santenses, a ‘Insulana’ é, com as devidas distâncias, ‘Os Lusíadas’ da Região.

Nenhum outro arquipélago da Macaronésia possui uma epopeia de igual grandeza.

Tratando-se de um poema épico composto e publicado no período filipino, 63 anos depois da genial obra de Camões, e sob a estética barroca, foi menosprezado pelos estudiosos da Literatura. No entanto, desde os inícios do século XVIII, a Historiografia sempre salientou a sua importância cultural e valorizou-o como fonte histórica.

De facto, a ‘Insulana’ revela informações que não encontramos em outros núcleos documentais. Manuel Tomás recolheu depoimentos coevos e introduziu-os no seu poema, prestando assim homenagem a muitos madeirenses que, de outra forma, permaneceriam desconhecidos, apesar de, na perspectiva do Poeta, os seus feitos, essencialmente guerreiros, serem dignos de registo na memória colectiva.

Para além do conhecimento da História da Madeira, transparece na epopeia uma vasta erudição do Autor no domínio das Humanidades, que as notas nas margens bem atestam.

Consciente da importância historiográfica e literária da ‘Insulana’, de Manuel Tomás, para a construção da identidade cultural madeirense, no início da década de noventa do século passado, propus, na qualidade de Chefe da Divisão de Publicações da Direção de Serviços do Património e Atividades Culturais da Direção Regional dos Assuntos Culturais, a reedição da epopeia de Manuel Tomás, projeto que foi aceite. Para tal, foi convidado o professor João David Pinto Correia (1939-2018), a quem forneci a documentação indispensável. Infelizmente, Pinto Correia não conseguiu levar por diante este trabalho que, de bom grado, aceitara e, em Maio de 1991, reconheceu ser urgente, por considerar a reedição «tarefa indispensável para uma sua mais geral difusão».

Em 2008, por ocasião das comemorações do Quinto Centenário da Cidade do Funchal, por diversas vezes, chamei a atenção para a reedição dos poemas épicos ‘Insulana’ (1635), de Manuel Tomás, e ‘Zargueida’ (1806), de Francisco de Paula Medina e Vasconcelos.

Entendia então, tal como hoje, que, nas ilhas da Macaronésia, a Madeira é um caso singular no âmbito da poesia épica, porquanto dois poemas foram dedicados ao seu descobrimento (ou ao seu descobridor) e um outro à própria ilha, este por mim publicado em 1997 na revista ‘Islenha’ n.º 20, e até então inédito.

Comecei a trabalhar na reedição da ‘Insulana’ em Setembro de 2020. Após a minha aposentação, em Novembro de 2022, constituiu o meu trabalho diário, convicto da validade e da importância do projeto no âmbito dos estudos literários e culturais da Madeira. Houve paragens imprevistas ditadas por circunstâncias particulares, mas a motivação para a prossecução do trabalho nunca me abandonou.

Preparar uma reedição, devidamente anotada, para um leitor do século XXI, é tarefa morosa e, por vezes, nada fácil. Diversas são as opiniões sobre os critérios de transcrição, mas impunha-se a actualização da ortografia, para que o poema se tornasse mais acessível. Não obstante, havia que respeitar a rima, a métrica e o estilo. Na transcrição, as palavras e as formas verbais do Autor nunca poderão ser adulteradas e, na sempre difícil interpretação das notas à margem, convém o máximo cuidado, pois é inadmissível atribuir ao Poeta falsas citações ou interpretações.

Procurei trabalhar afincada e serenamente, sem pressa, esforçando-me por cometer o menor número de erros, e conto apresentar brevemente uma reedição da ‘Insulana’, que prestigie a obra de Manuel Tomás.


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