Gil Nuno aborda tema dos sem-abrigo em conto e exposição

Gil Nuno apresenta uma iniciativa cultural, que se traduz numa  exposição de desenhos e no lançamento de um conto sobre a temática das pessoas em situação de sem-abrigo. A inauguração será na quinta feira, das 18h às 20h, no Jacafé, Rua dos Ferreiros, 138.
A folha de sala, da autoria da artista plástica e professora Filipa Venâncio, refere-se assim à iniciativa:

“A escrita tem vindo discretamente a perseguir o trabalho de pintura e desenho de Gil Nuno, quer seja na forma meticulosa com que os títulos das suas obras e exposições são visualmente engendrados, quer nos poemas que vem ladeando as linhas esvoaçantes dos seus desenhos nas redes sociais. Ou quando, nos surpreendeu com Apanhador de pó, um livro objeto idealizado para pensar, numa edição de um único exemplar, que acompanhava a exposição Éter e Pó (2021).

A sua escrita tem sido anunciada.  Através de poemas escritos em tela e colados em mesas de esplanada, como discretos bilhetes a impelir a subida do único lanço de escadas no espaço T1 do Barreirinha Café, em Tiraram-me o chão dos pés (2022), ou pela invasão assumida do texto no desenho, quando à mancha gráfica ocasionada por voláteis linhas justapostas se acrescenta a palavra escrita.

Por ocasião da exposição Assim na terra como no céu (2023), que reuniu no mesmo T1, Eduardo Freitas e Gil Nuno, escrevi a propósito do trabalho de ambos os artistas, que “os títulos são primordiais e indissociáveis das sequências de desenhos a pastel seco sobre papel colorido, fazendo parte destes ou não”. Enfatizei que em Gil Nuno, “é a imagem que intencionalmente suporta o título que é também ele um poema”.

Nesta nova exposição individual no Jacafé, que resgata o título justamente a um poema, são os desenhos a escoltar a escrita em pé de igualdade.

Num espaço, em que o pavimento tem a cor do céu, Gil Nuno apresenta-nos por agora, o  inédito Sobre o Telhado do Inferno, que fala de perdas e de um amor interrompido, numa edição única de 27 exemplares. Tenho vindo a intercalar este seu brevíssimo, mas intenso conto com As Coisas, de George Perec (livro escrito no ano em que nasci) sobre a vida de um casal viciado em compras. Comecei a lê-lo com a voracidade necessária para logo de seguida abrandar a leitura, talvez numa tentativa paradoxal de fazer a deambulação de Abel acompanhar em sentido contrário a odisseia consumista de Jérôme e Sylvie na Paris dos anos sessenta.

Dar visibilidade ao considerado invisível. No desenho e na escrita. Parece ser essa a premissa do artista e autor.

Gil Nuno constrói pacientemente os seus desenhos a lápis de cor, numa organização livre de linhas que parecem oscilar ao acaso em várias direções, produzindo manchas subtis, que à vista desarmada sugerem suaves pinturas elaboradas numa técnica um pouco impercetível. Neste voltejar de linhas, as fachadas amplamente reconhecidas de prédios e montras, algures na cidade do Funchal, são interrompidas na sua delicadeza de construção com a presença de um vazio.

Um vazio miniatural que se agiganta e nos perturba. Supostamente uma autorrepresentação do artista que simula no gesto e na atitude alguém a mendigar e que insistentemente povoa como intruso todas as inócuas fachadas/postais, representadas como se fossem cenários de cartão. A sobreposição de linhas de várias cores que parecem tecidas e puxadas por uma força interior que vai indicando a sua orientação e conduzem o nosso olhar distraído, conseguem por vezes nos fazer abstrair da figura sentada no passeio de mão estendida. E então, confortavelmente olhamos para as montras, para aquelas que ainda tem coisas que possamos comprar, para os letreiros tão familiares das lojas e já tão distantes no tempo e seguimos as persianas das janelas, rastreamos o seu número exato, contemplamos a precisão dos pormenores arquitetónicos das fachadas, que no dia a dia apressado, nos passam desapercebidos, e desviamos o olhar, procurando talvez como único ponto de fuga possível, o das perspetivas arquitetónicas desenhadas.

Mas se baixarmos os olhos, aquela repetida figura de decalque permanece colocada no passeio, como uma cavidade num dente, a magoar. Apetece dobrar a folha de cartão de três milímetros de espessura e fazê-la desaparecer ou disfarçá-la preenchendo o espaço que ocupa, tornando-a mais real e menos fantasmagórica. Finalizar aqueles desenhos, que parecem aparentemente inacabados. Anular aquela presença, seja pela saturação de emaranhados de fios, a sugerir uma aproximação a alguns dos desenhos de Do Ho Suh ( artista sul coreano também nascido em 1962) na sua mais recente exposição na Escócia (Tracing Time de 2024), ou então como alternativa retratar com mestria e elegância aqueles vultos anónimos.

Gil Nuno optou por esta última hipótese, quando frontalmente nos oferece quatro retratos que retiram as figuras do anonimato, fazendo-as acompanhar pelo retrato de Abel, uma espécie de alter ego, que o aproxima delas, na sua transmutação. São retratos, de pessoas, de pessoas com os seus cães e de lugares, produzidos com finíssimas linhas que podemos mapear como a palma das nossas mãos e que a qualquer momento parecem querer escapar do suporte do papel, se as soprarmos”.

GIL NUNO nasceu em 1962 no Funchal, onde vive e trabalha.
EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS
2022 – “Tiraram-me o chão dos pés” – T1, Barreirinha Bar Café
2021 – “éter e pó” – Loja vazia no Funchal
2007 – “ Ninho de pulgas”- café Chega de Saudade
2006 – “ Bendito sejam os felizes para sempre”- café Chocolarte
2003 – “ God doesn´t give you more than you can handle”-
galeria Espaço Aberto
1998 – “ Involução”- café Fora d´Oras
Participa desde 1999 em diversas exposições colectivas, salientando a sua
presença em:
2000 – XX anos de artes plásticas na Madeira – Museu de Arte Contemporânea.


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