Em primeiro lugar, peço-te desculpa, Pai Natal, pela minha falta de jeito para escrever esta carta. No meu tempo de inocência, escrevia-se ao Menino Jesus. Era quem deparava as poucas prendas que a criançada tinha. Hoje, festeja-se o Natal, mas esconde-se o aniversariante. Restas tu, velho simpático do imaginário colectivo, como símbolo aglutinador de uma festa, que agora se reclama de inclusiva, mas destituída do seu verdadeiro significado, a fim de não escandalizar minorias que não celebram o Natal, mas gostam de prendas, iluminações, iguarias, músicas e outras das nossas tradições natalícias. Algumas escolas até já falam na Festa do Inverno, fazendo lembrar as celebrações do Sol Invictus, nascido em 25 de Dezembro, no solstício de Inverno dos Romanos.
Ao contrário do previsível, não te apresento uma lista de prendas, mas factos que, por aqui, perturbam o verdadeiro sentido do Natal. Se a minha palavra te merecer algum crédito, não desças nalgumas chaminés desta ilha. Mais à frente, dir-te-ei quais. Longe de mim, no entanto, querer impor-te um rumo. Pretendo apenas dar-te conhecimento do que observo e penso. A decisão, reconheço, será sempre de quem comanda as renas desde as longínquas regiões nevadas.
Nesta ilha, a Igreja Católica anda, mais uma vez, a celebrar efusivamente as Missas do Parto, com um lado profano nunca antes visto nem tão-pouco documentado na tão apregoada, quanto não estudada, tradição. Algumas igrejas ficam cheias de devotos da Virgem do Parto. Fazem-se excursões para localidades, onde corre fama de ser a Missa do Parto mais animada ou divertida.
Não há padre que não goste de ver os bancos preenchidos. Todos nós amamos o público para quem falamos, celebramos, representamos, tocamos ou cantamos. Contudo, poucos se dão ao cuidado de pensar no enorme contra-senso entre a Virgem e o Parto.

Como bem sabes, Pai Natal, fenómeno raro é uma grávida virgem, e nenhuma virgem permanecerá nesse estado depois do parto. Há uns versículos do Evangelho que a Igreja oculta, mas que tudo explicam. É, todavia, questão para outra oportunidade, que não esta, de católicos mobilizados para a desevangelização e a folia animada com licores e aguardentes pelo alvorecer. Será até assunto menor, perante a grandeza da Mãe.
Maria, mãe de Jesus, merecia outra homenagem. Que, longe dos ruídos do nascer do Sol, Ela seja para nós o rosto materno de Deus, como tão bem intitulou Leonardo Boff um seu ensaio interdisciplinar sobre o feminino e suas formas religiosas. Que os terços, as ladainhas e os hinos à Virgem do Parto não se substituam à genuína mensagem do Magnificat, o Cântico de Ana que Maria repetiu (I Samuel 2,1-10; Lucas 1,46-55).
O esclarecimento sobre a Fé não impede a religiosidade, na verdadeira acepção da palavra. Já a cumplicidade com o obscurantismo desumaniza homens e mulheres crentes e constitui o oposto da evangelização. A promoção da religiosidade popular confere público, mas não eleva a Humanidade.
O bispo do Funchal não se inibe de se intrometer na política, mas sempre a favor de quem está no Poder, repetindo ou sublinhando o que os governantes desejam ou dizem, como, por exemplo, sobre o orçamento regional ou as previsíveis eleições. Sempre foi essa a posição dos dignitários da Igreja de Roma. A História está cheia de exemplos de prelados ao serviço dos políticos e empresários poderosos. Na diocese do Funchal, isto sempre aconteceu, com certeza por graça do Espírito Santo que inspirou a sua nomeação para estas ilhas atlânticas. Apregoam, no púlpito, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mateus 22,21). Conversa fiada é o que é, pois nas intervenções, cerimónias e outros eventos adoram conviver intimamente com os poderosos, numa pouca discreta manifestação de apoio que a eles concedem.
Na Quinta das Angústias, a cadeira presidencial tem grude, não aquela cola usada antigamente pelos marceneiros, como fazia o meu avô, mas uma outra, mais forte, composta por ganância adicionada com imunidade, a poderosa arma que permite a alguns adiar as contas com a Justiça. Assim agoniza um Governo com um presidente e vários secretários regionais suspeitos de diversos crimes, ainda que, como aos demais cidadãos, se lhes reconheça o direito à presunção de inocência e de defesa.
A Justiça faz e continua a fazer o seu trabalho de acordo com o seu tempo. A imunidade protege. Outros laços e alçapões adiam sentenças. Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas – é ditado assertivo.
Os arautos da Quinta das Angústias (ou da Vigia, conforme o termo do seu último baptismo) esforçam-se por apregoar um Ano Novo de desventuras, com a economia paralisada devido à não aprovação da proposta de Orçamento da Região para 2025, fingindo esquecer os meses deste ano sem orçamento aprovado (o Orçamento da Região Autónoma da Madeira para o ano de 2024 foi aprovado pelo Decreto Legislativo Regional n.º 6/2024/M, de 29 de Julho).
Culpam a Oposição pelas desgraças que irão acontecer, quando, na verdade, é Miguel Albuquerque o grande culpado, pela tragédia que ensaiou e por não querer sair de cena, mostrando-se refém do Minotauro que alimenta. Ele não é solução, nem para o PSD-M nem para esta Região Autónoma. É, sim, um problema. O problema! Com ele, a instabilidade continuará, porque muito dificilmente haverá uma maioria no próximo sufrágio. É um suicídio para o PSD-M persistir com a sua liderança.
Novas eleições internas no PSD-M não podem ser vistas como uma luta fratricida num momento delicado. São antes um acto de regeneração do partido, para novos desafios. Não se pode andar em eleições regionais todos os anos. Custam dinheiro e podem resultar no mesmo. Esse não é o caminho. Miguel Albuquerque não é, por certo, refém da Oposição, mas de si próprio e do seu círculo. Se o partido já não o suporta, como diversas vezes ouço em conversas particulares, trate então de apeá-lo, porque, pelos seus pés, nunca deixará o poder. E ele lá saberá por quê.
Os assuntos do PSD-M não me deveriam inquietar, porque, afinal, este povo estoico e valente, já, por chacota, denominado de superior, ainda não percebeu que o voto é a arma do povo. Por temer o seu senhorio, continua, como velho caseiro, a presentear os mesmos de sempre.
Enquanto escrevia, decorria a discussão e votação da moção de censura ao Governo Regional. Toda a Oposição votou a favor da moção apresentada pelo CHEGA. Pela primeira vez, cai um Governo na Madeira pela vontade dos deputados legitimamente eleitos. Nova data para a História registar.
Irónico é ver a Oposição unir-se para derrubar um governo, mas ser incapaz de juntar-se para ganhar eleições.
Pai Natal: com tantas coisas verdadeiramente importantes neste mundo, peço desculpa por escrever sobre mediocridades. São, afinal, as novidades desta gente. E ou pára o baile, ou a bagunça continua. Peço-te que te desvies da Quinta das Angústias, Paço Episcopal e Assembleia Legislativa da Madeira. Este ano, não merecem prendas. Porém, se te sentires incomodado por nada distribuíres nessas instituições, condescendo numa singela lembrança, que faça jus à tua generosidade. Oferece-lhes espelhos e óculos, porque juízo para os políticos madeirenses já José Manuel Rodrigues pediu ao Menino Jesus, quando visitou o Ordinário do lugar (CDC 134, § 1).
Voto: Para todos os leitores do Funchal Notícias, Boas Festas e um 2025 sem medos e com saúde, amor, humor e esperança.
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