No Capítulo VI, iniciamos aquela que será a “nossa viagem “pelas EMIGRAÇÕES MADEIRENSES definitivas, seguindo a ordem alfabética. Perceberemos que se iniciaram, documentalmente falando, já no século XVI como nos diz a História da Capitania de S. Vicente do Brasil e que continuaram nos séculos seguintes não só para aquele país, então Portugal, como emigração protegida, e depois do alvará de 1758 que exigiu passaportes, aos indivíduos que daí para a frente pretendessem deixar a ilha; quer para os Estados Unidos da América, para Demerara, para as Ilhas Sandwich e, como já referimos para a África e, muito concretamente, para a África do Sul.
Na primeira metade do século XIX, tinham saído da Madeira mais de 40.000 madeirenses. Em 1884 iniciaram-se as saídas para Angola e Lourenço Marques e no princípio do século XX já existia uma comunidade madeirense de cerca de duas mil pessoas na África do Sul. Saídas essas, que se terão iniciado, em nossa opinião, já nas duas últimas décadas do século anterior. Só para que se tenha uma ideia, entre 1872 e 1879 saíram da Madeira 6624 emigrantes, e de 1882 a 1889, outros 13.750, no global.
Falamos do PORTO DO FUNCHAL como um porto de escala, de interesse muito caro aos ingleses, pois os testemunhos são abundantes desde o século XVI, data da visita de Sir Thomas Nichols, o primeiro inglês a escrever sobre a Madeira num vastíssimo manancial de publicações que se mantém até aos nossos dias. Publicações essas, potenciadoras do excelente “mercado de turismo” que detemos. Há incontável documentação a este propósito, por exemplo, a passagem do Capitão James Cook pela Madeira, por duas vezes, em 1768 e 1772, e tantas outras histórias.
Dissemos que o PORTO DO FUNCHAL constituía a centralidade de todo o processo migratório. Que paquetes estrangeiros passavam pela ilha rumo a todo o mundo. Sobretudo, em direção à África do Sul. Que, para percorrerem as 6000 milhas de Southampton a Durban demorariam 14 dias. Alguns faziam escala em portos das Canárias, de Sta. Helena e Walvis Bay. A importância que a “Cape Mail Express” detinha, bem como tantas outras companhias de navegação, alemães, holandesas e portuguesas que aqui chegavam e que de aqui partiam levando gente. Madeirenses como eu.
A ilha era pobre, mas a sua posição geográfica “obrigava” a passagem das potências europeias para as rotas atlânticas, devido à hegemonia britânica, ao desenvolvimento da afirmação francesa na África Ocidental e à ascensão da Alemanha. O fim do século XIX trouxe consigo uma formidável movimentação de pessoas entre o Velho e o Novo Mundo. Os Cllipper Ships deram origem aos navios de vapor. A distância foi mitigada com mais comodidade e maior rapidez. As trocas comerciais acentuaram-se; (o vinho; o açúcar, etc.). O descanso de tripulações e o reabastecimento dos navios fizeram do Funchal uma escala obrigatória.
Os navios estavam aqui (como quem nos espera) e o nosso destino, fosse ele qual fosse, sempre era melhor fora da ilha do que na amarga da terra que nos viu nascer: “Heróis do trabalho na montanha agreste. Que se fez ao mar em vagas procelosas. (…) por esse mundo além (…) “
COMO SE CARACTERIZAVA PORTUGAL, E EM PARTICULAR, A MADEIRA DE ENTÃO?
A Madeira de finais do século XIX era uma ilha cuja economia estava assente numa agricultura de subsistência que enfrentava enormes dificuldades devido à inexistência de vias de comunicação. Não existia uma rede de levadas completas para a irrigação das terras. É certo que desde o povoamento da ilha começaram a construírem-se levadas, mas essa obra, hoje candidata a Património Mundial, estagnou em meados do século XVI com o declínio do cultivo da cana. Iniciativas que são retomadas no século XIX pela falta de caudal de algumas ribeiras, mas, sobretudo com surgimento da monocultura da bananeira, já no século XX. A cidade do Funchal graças ao movimento dos paquetes, apresentava, mesmo assim, alguma vitalidade económica que contrastava, profundamente, com o resto da ilha.
No seculo XVII, surge um regime de exploração da terra, específico da ilha da Madeira, denominado de Colonia que castigava de uma forma ímpar o agricultor, escravo na sua própria terra.
A questão da MADEIRENSIDADE ganha uma forma substantiva a partir das Guerras Napoleónicas, podendo encontrar-se na obra Zargueida (Lisboa,1806), como nos conta Paulo Rodrigues Ribeiro, em o” Século XIX na Madeira”. É, todavia, neste século XIX que o fenómeno cria as raízes de um Povo e de uma marca identitária. A Ocupação Britânica do princípio do século vem acentuar esse inequívoco “patriotismo”. O madeirense só podia contar consigo. Por vezes, nem com a pátria distante. O caminho do sucesso perante o desencanto da pobreza só a ele competia conquistar.
Os últimos anos da MONARQUIA constitucional levaram o país a uma crise económica e financeira, ao aumento de impostos, à questão dos adiantamentos à Casa Real e a tantos outros fatores de descrédito nacional ao ULTIMATO inglês que exigia a retirada imediata das forças militares portuguesas mobilizadas nos territórios entre Angola e Moçambique. Esses territórios correspondem aos atuais Zimbabwe e Malawi.
A 5 de out. de 1910 implanta-se A REPÚBLICA. (….)” Porém o republicanismo cedo demonstrou que não era capaz de responder aos desafios que vinham a ser reivindicados pelos deputados insulares no parlamento, com a finalidade de alcançarmos melhoramentos em infraestruturas e vias de comunicação na ilha “(…) Para maior desgraça o surto de cólera mórbus. (…) A Lei do Registo Civil separava a Igreja do Estado, (…) Aparece um sentimento anticatólico com profundo abalo no meio rural. Laicização do Estado.” (Ana Madalena Trigo de Sousa, “Implantação da República na Madeira” Algumas Notas Sobre uma Época Conturbada)
A Primeira Grande Guerra (1914/1918) teve enormes reflexos na ilha que foi bombardeada em dezembro de 1916 e em dezembro de 1917. A Mala Real Inglesa suspendeu as suas carreiras. A navegação alemã (também muito significativa) deixou de tocar no porto; várias casas de bordados encerraram.
“(…) numa ilha de elevada percentagem populacional (220 hab/ km2), onde a agricultura ocupava 70 % da população, o madeirense emigrava. Se nos basearmos nos dados fornecidos pelo Dr. Agostinho Cardoso em “O Fenómeno Económico e Social da Emigração Madeirense”, conclui-se que o total aproximado de emigrantes registava o número de 18.443 e 17.772 para os anos de 1911 e 1920 respetivamente, numa população de 169.783 e 179.002 habitantes.(…) “Na época, o jugo duma colonia asfixiante oprimia os camponeses (…) O maior desejo do colono era emigrar, (…) Dificilmente seria proprietário da terra ou da casa (…) A libertação das famílias dessa escravidão seria alcançar o tal Brasil de que ouviam falar. (…) Surgia a crise dos bordados, dificultando ainda mais a vida de muitas famílias. (…) Numa população de 200 mil habitantes existiam 50.000 bordadeiras aproximadamente (1922) “(Maria Elisa de França Brazão e Maria Manuela Abreu em A REVOLTA DA MADEIRA 1931,2ª Edição, pág.28)
“Em Portugal, quem emigra não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre (…) a miséria que instiga a procurar em outras terras o pão que falta na nossa” Eça de Queirós.
A África do Sul, pelo contrário carecia de braços, o país, pese as suas lutas internas e demarcação de território, crescia e tentava desenvolver-se como primeiro país do continente africano e potência de toda a África. Terra tinha de sobra, riqueza não lhe faltava!
ÁFRICA DO SUL – EMIGRAÇÃO MADEIRENSE – ESTATÍSTICAS
1872 – 1945
Nos Índices dos Passaportes, neste período, verificou-se que em mais de 27.000 registos que o destino nesses anos era Demerara, Hawai, Brasil. Estados Unidos da América e, finalmente o Cabo da Boa Esperança (que só nestas datas começa a aparecer como destino para a nossa emigração). Não existam registos entre 1853 e 1872. Entre os anos de 1872 a 1879 não encontramos nomes portugueses. Em 1879 e, mais tarde, em 1890, encontramos nomes que nos são familiares. A família Hinton, Gilbert Hinton e F. Hinton, respetivamente. Em 1880 encontramos o primeiro nome português. Da madeirense, Libânia Augusta de Sousa, natural da Freguesia da Sé, embora no nosso Capítulo VI ti vessemos referido como primeiro madeirense o nome que localizamos em 1897.
Em 1881, voltamos a encontrar um nome português, mas não madeirense. Trata-se de António Luís, natural de Penafiel (que, por qualquer motivo se encontrava, à altura, na Madeira) mas é depois de 1885 (António F. Espínola) e a partir de 1888 que começam a surgir nomes de emigrantes madeirenses (como António Rodrigues de Abreu, natural da Ponta do Sol). Estatísticas dos últimos anos do Séc. XIX;
1896 = 6 (Estreito da Calheta)
1897 = 35 (Fajã de Ovelha, Estreito da Calheta e Prazeres)
1898 = 51 (Estreito da Calheta)
1899 = 33 (Estreito da Calheta)
1900 = 15
1901 – 1915
Dos 13.862 Processos de Passaportes, correspondendo a 15.555 Registos, notamos que emigraram cerca de 508 indivíduos com origem na Madeira. Indicaram que como destino final a África do Sul; o Cabo da Boa Esperança; o Transval e Durban. O ano com maiores saídas, neste período, terá sido o ano de 1902 (41% do total). Cerca de 90% dos emigrantes, no período em referência, eram naturais das várias freguesias do Concelho da Calheta, particularmente do Estreito da Calheta e embarcaram, quase na totalidade, sem família. Referiram como destino o Cabo da Boa Esperança- Estavam assim distribuídos por anos:
Notas:
1916 – Saídas maioritariamente para Estados Unidos e Brasil
1917 = saídas maioritariamente para Lourenço Marques e Canárias
1920= registam-se saídas pela segunda e mais vezes) (Por exemplo, Francisco Sancho Lacerda de 47 anos de idade, proprietário, natural de Lisboa, terá visitado a África do Sul em três diferentes vezes. Curioso o facto de não ser madeirense e de ter requerido aqui passaporte. Existem casos de saída de menores provavelmente para reagrupamento familiar
1924 =todos para Johannesburg
1925 = Joanesburgo 6/Cabo 33 /Transval 5
1926 = Joanesburgo 4/Natal 19/Cabo 11
1927 = Cabo 5 / Joanesburgo 1
1928 = Cabo 14/ Joanesburgo 1, maioritariamente Brasil e Canadá
1929 = Cabo 10/Joanesburgo 3, predominante o Brasil
De notar que estas 650 pessoas, de 1872 a 1915, são apenas os madeirenses localizados nos Registos de Passaportes e não a totalidade dos portugueses. Pois, tal como dissemos, no referido Capítulo VI, estes, poderiam situar-se nos 2270 indivíduos, segundo a rede diplomática portuguesa, mas também dissemos, que seriam mais do que o dobro dos números que apresentavam as autoridades sul-africanas (que admitiam serem cerca de 1.100 em 1904 os portugueses residentes na República da África do Sul)
Poderão existir, antes de 1872 emigrantes da Madeira na cidade do Cabo, mas não há registos anteriores a essa data, ou então que houvesse alguma emigração, inexpressiva, mas ilegal, via Moçambique, como se verificou no segundo período da nossa emigração, ou seja; da emigração dos ANOS QUARENTA, que trataremos depois.
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