Início esta memória com o versículo “Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas” (Mateus 6:15) No final desta história entendereis o motivo desta citação…
Iniciei a minha vida profissional em 1971 em Lourenço Marques como assistente cinematográfico de imagem e de som da Telecine Moçambique, e correspondente da RTP naquela Província Ultramarina. Adquiri conhecimentos úteis e bagagem suficiente para a profissão que abracei até aos dias de hoje. A minha história em África, Moçambique e Angola era tema para duas ou três memórias. Regressei de férias no Natal de 1974 com bilhete de ida e volta, acabando por não voltar.
O bichinho pelo jornalismo desde há muito estava no meu pensamento. Quando era estudante colaborei com o Jornal da Madeira em crónicas de jogos de hóquei em patins na velha Quinta Vigia e de natação na piscina do Lido.
O café restaurante Norte na rua Fernão de Ornelas era a minha redacção: na companhia de um colega do colégio Lisbonense, Jaime Ramos, que assistia aos jogos elaborava a ficha de jogo, em que participava. Tínhamos uma resma de linguados (papel ) e fazíamos a crónica escrita a punho com título, ficha de jogo e comentário saboreando um meio café com leite.
Atravessava a estrada e entregava a minha colaboração ao Padre Paquete de Oliveira, chefe de Redacção, que fazia questão ler o texto, efectuar as emendas de redacção e chamar-nos a atenção dos erros cometidos.
A secção de desporto dos jornais era uma escola de iniciação no jornalismo para um dia ser redactor. Em África colaborei à distancia com o Jornal da Madeira publicando reportagens sobre Cabora Bassa, a construção da barragem… Cheguei a ser proposto para receber o prémio do Governador Geral do Ultramar, mas tal não se concretizou, com a revolução do 25 de Abril.
No Funchal era considerado um retornado. Tive de ir à luta e comecei a colaborar com o JM efectuando reportagens fotográficas dos acontecimentos diários da cidade do Funchal. Levava essas imagens exclusivas a Alberto João Jardim, então director do Jornal da Madeira, que fazia manchetes para as mesmas, durante esse período revolucionário.
Acabei por ser convidado para integrar o quadro redactorial, sendo o primeiro repórter fotográfico que a Madeira teve. Os dois diários viviam então da colaboração com as casas de fotografia Carlos Fotógrafo e Perestrelos, quando solicitados.
Tive anos felizes no JM embora a situação financeira fosse caótica. Receber o vencimento era sempre uma incógnita. Montei um laboratório nas instalações do JM para não dependermos dos laboratórios das casas fotográficas e poder competir com o Diário. Eu pensava ir sempre mais além. Isto era uma competição. Chegava a fazer das instalações do jornal a minha casa 24 horas em cima de 24 horas.
Com a saída de Alberto João Jardim para o Governo Regional, os substitutos que faziam do jornal o segundo emprego não tiveram unhas para levar o comboio e este descarrilou. Surge a Igreja a nomear um cónego para director e um chefe de redacção professor do liceu. Em conversas com o meu amigo Tolentino Nóbrega, este abordou a minha ida para o Diário com a concordância de Luís Jardim, chefe de redacção.
Uma semana antes das conversações publico uma reportagem criticando que a loja tradicional do Madeira Wine vendia vinhos alentejanos, do Douro e da Bairrada. Tive sempre um princípio: não misturava serviço com “conhaque”: cheguei a pensar que a minha ida para o diário tinha abortado.
Mas o destino estava escrito. Fui chamado à administração da empresa Diário e sou recebido pelo director comercial para oficializar a contratação. Eles sabiam do meu profissionalismo e de imediato perguntaram quanto queria ganhar. Confesso que errei. Sabia que ia para um órgão com outra estrutura e respondi: “O mesmo que ganho no JM, continuar a ser jornalista do III grupo, três diuturnidades e a mesma antiguidade”. Resposta: está contratado. No dia seguinte assinei contrato e apresentei carta de cessão de funções no JM.
Entrei pela porta grande. Mas meses mais tarde disseram-me que se tivesse pedido o dobro o meu pedido seria aceite. Enfim, o dinheiro não compra a felicidade. Passei anos fazendo o que gostava. Recebi elogios de Richard Blandy e o Diário contava comigo: era uma peça importante. Sentia-me realizado e foi pelas minhas mãos e do Século de Joanesburgo que o Diário chegou à comunidade madeirense na África do Sul.
Anos mais tarde fui traído por aqueles que me apoiavam. Montaram uma cilada por motivos políticos porque denunciei numa Assembleia Municipal do Funchal em que era deputado, certas negociatas, o que levou a vice presidência do governo a instaurar uma auditoria à Camara Municipal. Violaram o meu computador para obterem provas de que enviei para o Século de Joanesburgo uma foto de João Carlos Abreu que Horácio Roque me pediu, o que o fiz gratuitamente, utilizando o computador que me estava distribuído pelo DN.
Fui suspenso, correu processo disciplinar, o ordenado era depositado a ordem do tribunal. Ganhei. O DN recorreu, para a relação. Voltei a ganhar e o tribunal ordenou que voltasse a ocupar o meu lugar no DN. O processo continuou no tribunal de Trabalho. No dia do julgamento, o Diário tinha como testemunhas os chefes e eu os jornalistas. O julgamento não se concretizou, uma vez que houve uma negociação e mais uma vez traído, recebi uma indeminização às prestações e passei ao desemprego.
Fiquei por receber até aos dias de hoje o vencimento de Fevereiro, os duodécimos de férias e de subsidio de Natal assim como horas de serviços extraordinários. Por fim, o papel para entregar no desemprego mencionava que o tinha sido despedido por justa causa o que não era verdade e que foi depois alterado.
Enfim, hoje estou em Paz… os leitores ficam a saber o motivo do versículo no inicio deste texto.
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