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A escada, em forma de caracol, existente entre o secretariado e o meu gabinete, no primeiro andar, da Quinta da Vila Passos, onde funcionava o CENTRO DAS COMUNIDADES MADEIRENSES, rangia, quando apressadamente a utilizávamos, subindo ou descendo agarrados ao corrimão central. Naquelas longas noites de trabalho, em vésperas da inauguração do AEROPORTO INTERNACIONAL DA MADEIRA, agora AEROPORTO CRISTIANO RONALDO (15 de setembro de 2000), as escadas não tinham sossego. Ora tocavam os telefones do andar de cima, ora do andar de baixo. O vento soprava nas bananeiras dos terrenos vizinhos. O breu da noite, fechado como uma mão, só deixava passar a luz dos paquetes presos ao molhe da Pontinha.
A “task force “criada pelo Dr. Pereira de Gouveia, trabalhava 24 sobre 24 horas, era de fugir, e quem pudesse que o fizesse, pois, todos os dias haviam novidades, alterações e trabalho que fartava. Que fartava até aos olhos. Tratava-se da MAIOR OBRA PÚBLICA DE PORTUGAL e a maior de sempre, e talvez para sempre, da Madeira (550 milhões de Euros). O Aeroporto da Madeira vinha cumprir o sonho de um Povo – o de unir a Madeira ao mundo e às COMUNIDADES MADEIRENSES -.
No dia 14 de setembro aterrariam os Airbus 340 vindos de Caracas e de Joanesburgo e no Dia da Inauguração, com as mais altas figuras do estado e da região, chegariam, pela manhã, ainda cedo, os voos de Boston e de São Paulo. O aeroporto estava já certificado pelo INAC.
Seriam dez da noite, talvez um pouco mais tarde. Acabara de subir e já o “maldito” telefone do R/Chão tocava.
“Is this Mr. Santos?” perguntava uma voz impecavelmente inglesa! “Yes it is me!” Aqui é do gabinete do Ministro Buthelezi. “what an honour for me” respondi! Queria acertar consigo alguns pormenores da ida do senhor ministro à Madeira. Mas com certeza. É certo que estranhei a hora do contacto, pois na África do Sul já seria meia-noite. Mas, pensei: Este pode ser outro Pereira de Gouveia, nunca se sabe onde eles andam! Sabe, o senhor ministro só como “baby chicken”. Isso não será um problema respondi e também gostaria de ter uma “king size bed” sim claro, está assegurada. É você que o acompanhará? Sim serei eu, enquanto cá estiver. Então se me dá licença, gostaria de passar o telefone ao senhor ministro, posso? Do outro lado, a voz rouca de um homem já de idade. Ao que exclamei: “Excellency! How are you Excellency? I can´t wait to see you!”. – Sabes? dizia o ministro: ainda não estou certo se poderei estar na inauguração do teu aeroporto. Temos aqui umas situações para resolver. Sabes, às vezes é a política que manda em nós, não é? “Sim Excellecy. I understand!”. Nesse momento vi a minha vida a andar para trás, O nome de Buthelezi era oficial. Estava na lista do próprio Presidente da República. E agora? Mas que noite “porreira”!
Já antes, o Secretário Regional, me incumbira de colocar bandeiras da Região do aeroporto até o Funchal. Bonito trabalho! E eu: -A esta hora? Sim, você consegue e desligou-me o telefone. E não é que consegui mesmo? Fiz esta conta: à velocidade que os carros oficiais se deslocarão, os seus ocupantes, por certo não notarão os mastros todos. E, tal como pensei, ninguém notou a falta. Até me elogiaram. Aí graças a Deus!
De repente, sem mais: eu branco que nem um papel, oiço ao longe, talvez só na minha imaginação, um riso leve, mas mais intenso e então uma gargalhada tão sonora como um apito dos bombeiros. E de onde viria tal festa, que loucura aquela? Pois bem, eram eles, o Duarte Ferreira, o Jorge Luís, a Letícia e o Pereira de Gouveia a me tentarem tirar do sério. Também ri, mas, caramba, pálido ainda. Estive á beira de os mandar todos para casa…e se não o fiz foi, tão só, por saber que iriam mesmo …antes do raiar do dia.
O Ministro do Interior, líder do INKATHA e Chefe Tribal do Povo Zulu, Mangosuthu BUTHELEZI, chegou à Madeira, no dia e hora exaltas, acompanhado pelo Cônsul Geral de Portugal em Joanesburgo, Dr. João Laranjeira Abreu e por tantos membros da nossa comunidade na África do Sul. Era um amigo dos portugueses em geral e amigo dos madeirenses em particular; do João de Jesus, do Júlio Nóbrega e de tantos outros que o admiravam por ser um homem a favor da paz, contra o crime e que acreditava que os portugueses faziam falta na estrutura político-social da nova Africa do Sul. Com ele passei bons momentos, pese um percalço de saúde que se resolveu com a excelente colaboração de todos, aqui na Região,
De Buthalezi, guardo o livro da sua BIOGRAPHY de Bem Temkin que me ofereceu em Pietermaritsburg, capital política do KwaZulu Natal, no dia 2 de fevereiro de 2003, era eu, então, deputado à Assembleia da República. Assim como recordo o busto que ofereceu ao ex-Presidente do Governo Regional, Dr. Alberto João Jardim, no Dia da Região de 1999 na Associação Portuguesa do KwaZulu Natal que o tivemos de transportar em correio separado pelo seu tamanho e peso.
Buthelezi era um político sereno, homem de uma cultura invulgar e um “devorador” da comunicação social. Doutorado em História pela Universidade do Cabo e um profundo estudioso da vida sul-africana, desde o tempo do rei Shaka Zulu, cujo descendente também tive a honra de o conhecer, o rei Goodwill Zualethini, este amigo de outro madeirense, de nome Castro, seu Induna.
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