42 anos passados, tudo na mesma

Rui Marote
Ao “desenterrar” memórias de dentro de uns caixotes enfiados no sótão da minha casa, encontrei anexado a um porta-notas da Caixa Económica do Funchal um recorte do jornal “A Bola”, intitulado “Hoje Jogo Eu”. Era uma das mais antigas rubricas d’ A Bola, escrita em jeito de crónica de viagem e acontecimentos, da autoria de Carlos Pinhão, redator deste jornal desportivo.
Carlos Pinhão faleceu a 15 de janeiro de 1993. Trabalhou mais de 40 anos na “bíblia” do desporto A Bola. Conheci e falei com esta lenda do jornalismo desportivo três ou quatro vezes, no Estádio dos Barreiros, como enviado especial. Durante 22 anos fui correspondente d’ A Bola, indicado por Gilberto Teixeira, jornalista do JM que era há muitos anos o representante do trissemanal na Região Autónoma da Madeira.
No início de cada época, a Associação de Futebol da Madeira (AFM) organizava o Torneio de Autonomia, um quadrangular com uma equipa convidada de fora da Ilha. Em 1982, na data do torneio, o meu colega Gilberto estava de férias fora Região. Vítor Santos incumbiu-me de enviar crónica desse jogo.
Duas equipas madeirenses haviam eliminado os favoritos Marítimo e Newcastle, tendo eu assinalado que dos vinte e dois jogadores, apenas um era madeirense, o Chico (ler o que Carlos Pinhão
 escreveu). 
Passados 42 anos, o Nacional está na Primeira Liga e não tem nenhum madeirense no plantel. O Marítimo, na Segunda Liga, tem um madeirense. A história repete-se. No passado foi o Chico, agora o Fábio China. O CF União desapareceu e foi durante anos uma “agência de casamentos” de Jugoslavos e Brasileiros. Um casa e descasa. O Governo Regional investiu nos três grandes milhares de milhões de euros, além das instalações desportivas construídas com dinheiros públicos.
Acabei de ler o JORAM de 5 de Novembro de 2024. Deparei-me com duas resoluções do Conselho  do Governo Regional, a N.º 896/2024  e a N.º 895/2024: celebração do contrato-programa que atribui ao Nacional uma comparticipação financeira limite máximo de 2.200.000,00 euros e ao
Marítimo 1.100.000,00 euros para vigorar por mais de um ano económico, até o limite de quatro anos, correspondente a quatro épocas desportivas 2024/2025 a 2027/2028, a fim de participar nas competições organizadas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Tudo isto a bem do desenvolvimento desportivo.

Vamos ficar por aqui para não mexer muito na “panela do milho”. Dizem as más-línguas que o Campo do Nacional custou 30 milhões de euros e o do Marítimo mais de 22 milhões, não contando com a doação do Estádio dos Barreiros e terrenos anexos.
O Marítimo e o Nacional têm formação de qualidade e centenas de miúdos capazes de entrar nas equipas principais, só que eles – e muito bem – preferem “entrar na faculdade e prosseguir estudos porque o futebol não é profissão”. Alguns, poucos, que não prosseguem os estudos, lá conseguem um período de experiência no Benfica, Sporting e Porto. Com sorte e algum talento, 
chegam a jogar nos Sub-23.

Contas simples de se fazer, mostram que são gastos anualmente do erário público milhões de euros no futebol só com os dois principais clubes. O retorno atual com mais visibilidade pública, dá pelo nome de Henrique Araújo, filho do diretor Regional da Secretaria Regional da Educação. É “profissional” e internacional pelo Benfica. Está emprestado ao Famalicão. É um consolo muito modesto. Já sei, dirão que o futebol ajuda a retirar os jovens de caminhos tortuosos. É verdade! Mas esse trabalho de grande
valia social deveria ser compaginado com o brio de gerar novos e nobres campeões. Há o exemplo de outras modalidades que também são alimentadas pelo bolo orçamental.

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