Memórias: a mudança “amaldiçoada” do DN para a Rua Fernão de Ornelas

A mudança de instalações do Diário de Notícias da emblemática Rua da Alfândega para a Rua Dr. Fernão de Ornelas foi uma operação “amaldiçoada” desde o início. O antigo edifício na Rua da Alfândega era uma verdadeira” torre de controlo” noticioso em que as novidades em primeira mão caíam às dezenas nas secretárias dos jornalistas, no local mais central da cidade.
Foi numa sexta-feira, a 13 de Março de 1998 (atente-se no número treze e no dia da semana) que o DN transitou para a Rua Fernão de Ornelas, fechando-se num “bunker” onde já ninguém podia ir à janela nem ver o mar, ou ouvir mesmo à porta de entrada as sirenes dos carros de bombeiros ou das ambulâncias. Para não mencionar que bastava ir ao Café Apolo, ponto de encontro e viveiro de notícias, para regressar ao jornal cheios de novidades.
A saída do DN da Rua da Alfândega foi atabalhoada, deixando para trás um património histórico que acabou na Fundoa, num sítio de recolha de lixo. Para ali foram milhares de gravuras de zinco, biblioteca de livros oferecidos ao Diário e para os quais nas novas instalações não havia espaço, maquinarias… enfim, foi a história de um diário centenário que acabou na lixeira.
A ordem era mudar e já. Mas tal mudança não pressagiava nada de bom para o matutino. Recordo que durante as mudanças, e ao cair da noite desse dia 13, um gato assanhado introduziu-se no gabinete do director e ninguém conseguia fazer com que saísse. O director, assustado, pediu ajuda, mas ninguém queria enfrentar o gato furioso. Um dos redactores, corpulento mas nem por isso muito corajoso, com ajuda de uma enorme vara tentava expulsar o gato, que porém continuava a enfrentar o opositor.
Acontece que o animal atemorizado, urinou e defecou no novo escritório. Os gatos, embora venerados no antigo Egipto por serem criaturas mágicas e símbolos de  boa sorte, enfrentaram mais tarde a má fama de estar associados a várias superstições e trazerem azar. Para o Diário, foi mesmo um mau prenúncio: anos depois da mudança, o matutino seria ele mesmo notícia devido a um cataclismo de despedimentos, que abrangeram muitos jornalistas, alguns dos quais até tinham sido reconhecidos com prémios de imprensa.
A aparição do gato e a sua conspurcação do gabinete do director foi profética. O gato acabou por ser expulso do local a duras penas. Amaldiçoou o espaço. Anos mais tarde saíram desse gabinete as cartas de despedimento de muitos destacados jornalistas e trabalhadores.

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